Penetrando mais a fundo nas terras de ninguém

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Ricardo Henriques enfim fala, alguns moradores da Vila Cruzeiro se arrependem de ter falado e o desfile no sambódromo pode ficar bastante seguro

“Um jovem de 20 anos de uma comunidade controlada pelo tráfico nasceu na guerra. Então, a cultura de degradação que as pessoas veem em geral no aspecto físico é também uma degradação no campo dos direitos e no campo dos deveres, porque aquele tecido social ficou totalmente esgarçado. Tudo isso (a reativação dos laços com as comunidades) é viável após a pacificação. É evidente que existem desconfiança e descrédito e temor da polícia. Mas uma das grandes missões da UPP Social é a interação com a polícia, para recompor um valor, que é: o policial é um servidor público igual à diretora de escola. E não há por que não ser.”

Assim falou o coordenador da UPP Social Ricardo Henriques em entrevista ao jornal O Globo na semana passada, sua primeira desde a transferência do programa UPP Social, em dezembro de 2010, do governo estadual ao municipal.

O departamento dele está implementando mudanças, com gastos até agora de R$ 650 milhões, nas 16 favelas onde se instalaram UPPs desde 2008, para integrar essas áreas com o resto da cidade − em obras públicas, educação, saúde, conservação, e na extensão de serviços urbanos como a coleta de lixo. As favelas pacificadas recebem Espaços de Desenvolvimento Infantil (EDIs) e Clínicas de Família, além de escolas que fazem parte do programa em horário integral das Escolas do Amanhã. “Os EDIs e mais as Escolas do Amanhã são o início de uma abordagem nova para produzir a integração no ciclo de vida. Isso, casado com a expansão do [Programa Saúde da Família], muda a abordagem para pensar do ventre materno até a alfabetização. Os nossos péssimos desempenhos no Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) e as baixíssimas taxas de alfabetização estão fortemente correlacionados com o tratamento da primeira infância”, disse Henriques.

De acordo com ele, a mudança para o nível municipal beneficiou a UPP Social, por ela ter sempre focado em serviços e órgãos municipais. A secretaria estadual que abrigava o programa anteriormente tem se ocupado bastante com as vítimas dos deslizamentos de terra no interior do estado.

As autoridades governamentais falam com frequência de “retomar” territórios de favelas. Henriques utilizou a palavra “recompor” e mencionou um tecido social que se esgarçou. Mas pode-se também afirmar que o apartheid social que se desenvolveu no Brasil desde a chegada dos primeiros portugueses criou terras de ninguém; que certos valores e instituições nunca existiram; e que o tipo de tecido social que se desfez no período dos mais ou menos trinta anos do domínio do tráfico de drogas era um estofo de improvisações na esfera pessoal ou de família – faltando-lhe a resistência demandada pelos desafios do Brasil moderno.

Se for esse o caso, a tarefa de integrar o Rio de Janeiro acarreta também o desenvolvimento de novas maneiras de pensar a cidade e sua vida, e a criação de um novo tecido social.

A necessidade de mudanças profundas está clara na página oposta à da entrevista de Henriques: alguns moradores da Vila Cruzeiro acreditam que os cinco assassinatos que aconteceram no bairro desde a ocupação, em novembro de 2010, seriam vinganças do narcotráfico. “Estou apavorado. Ajudei a polícia porque não aguentava mais ver os bandidos fazerem o que queriam na minha porta. Já vi mais de dez traficantes batendo num homem até a morte. Meus filhos assistiam a tudo isso, fora as orgias que eles promoviam. Agora, não me sinto seguro. Temo ser a bola da vez”, um morador contou ao Globo.

A Divisão de Homicídios da Polícia Civil e a Força de Pacificação dizem que não há evidência de que as mortes tenham sido castigos por colaboração com policiais e militares. “Trata-se de um boato para desestabilizar a Força de Pacificação”, disse o general de brigada Fernando Sardenberg, comandante do órgão. “Sabemos que ainda há áreas em que as pessoas têm medo de denunciar. Por isso, temos o Disque Pacificação (0800-0217171), para que todos cooperem.” Ele disse ainda que não se ouvem tiros há duas semanas na Vila Cruzeiro ou no Complexo do Alemão.

Enquanto isso, a pacificação foi adiante com a ocupação de nove favelas no último domingo, em áreas próximas ao sambódromo. Planejada para durar um mês, a ocupação utilizou inicialmente mais de 800 militares e membros das polícias federal, florestal, militar e civil, além de blindados da Marinha e um helicóptero blindado. Enquanto o BOPE tomou o território, a polícia civil está incumbida de fazer buscas entre os moradores, e nos carros e motocicletas que entram e deixam a área. Quando a ocupação estiver completa, serão instaladas três UPPs, com recrutas novos especializados em serviço comunitário.

Policiais relataram ao Globo que rastrearam os traficantes de drogas (alguns deles são rivais entre si) nas suas fugas das áreas que seriam ocupadas, e que as favelas da Rocinha, Pedreira, Lagartixa e Engenho da Rainha são seus esconderijos atuais. No fim de 2010, o governador Sérgio Cabral deu a entender que a Rocinha seria ocupada em janeiro, mas isso não aconteceu.

 

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American journalist, writer, editor who's lived in Rio de Janeiro almost 20 years.
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