Para onde vai a pacificação? Para onde vão as drogas e as armas?

Para onde vamos nós?

For Whither pacification? Whither drugs and guns? click here

Quanto pode uma cidade mudar? Eis a questão subjacente às dúvidas que surgiram nas últimas duas semanas sobre a política de segurança pública do Rio de Janeiro.

Você pode acreditar que os valores, hábitos e pressuposições de uma cidade e de seus habitantes, desenvolvidos através das gerações, são estáticos; imutáveis. Nesse caso, a polícia e os políticos são eternamente corruptos  e os criminosos são incorrigíveis, enquanto os cidadãos existem à mercê de ambos. A política de segurançã pública no Rio de Janeiro desde  2008 é para inglês ver, um enquadramento temporário até o fim dos jogos Olímpicos.

Ou você pode pensar que as mudanças ocorrem quando um sistema não mais produz o que foi criado para produzir, quando aparecem demandas novas que não consegue atender. Nesse caso, a polícia e os políticos se tornam esclarecidos, os criminosos têm menos opções, e os cidadãos inocentes de repente estão diante da necessidade de fazer ajustes nos seus valores, hábitos e pressuposições. A política carioca de segurança pública desde 2008 faz parte de uma nova maré socioeconômica, e o tecido urbano das favelas e dos bairros formais da cidade se transforma de retalhos para uma malha única.

Na hora em que se concebeu a nova política de segurança pública, as autoridades sabiam que os traficantes iriam fugir para outras favelas. Pois a ocupação policial se anuncia antes do fato. Nos últimos três anos, já vimos bandidos correndo para o Complexo do Alemão e à Rocinha, entre outras. Agora que elas já foram ocupadas, a precipitação resultante cai dentro de um raio maior.

O Secretário de Estado para Segurança Pública José Mariano Beltrame ontem admitiu pela primeira vez que o surto de na taxa de crimes em Niterói se deve à pacificação e ocupação policial na capital. As polícias militar e civil também estão focando na serra, nas favelas de Manguinhos e Jacarezinho, e nas atividades aliadas entre traficantes cariocas e paulistanas, para o transporte de drogas e armas.

A mão de obra sempre tem sido problemática na área de segurança, e ficou mais ainda conforme a expansão da geografia. A Rocinha está atualmente sendo policidada parcialmente por recrutas novos da polícia de pacificação, mas está sob o comando do BOPE, ainda na fase de ocupação.

“É possível instituir uma nova prática policial com policiais com costumes antigos?” pergunta Cecília Oliveira, coordenadora de comunicação pela ONG Redes de Desenvolvimento da Maré, de grande êxito no Complexo da Maré, local de favelas e conjuntos habitacionais que está no topo da lista do Beltrame. “Os novos tem um preparo de sessenta dias e os velhos, velhas práticas,” ela acrescenta.

A corrupção chegou a primeiro plano na Rocinha, onde ficou claro que a polícia não ocupara o vácuo de autoridade deixado pelo traficante Nem, porque rolavam propinas. Ela provavelmente esteja em toda parte, em maior ou menor grau. O fato de que nesta semana alguns comerciantes na Mangueira obedeceram uma ordem para fechar (passada por um motociclista) como sinal de luto para um traficante morto indica dificuldades parecidas naquelas bandas.

Beltrame está enfrentando ambas as questões; hoje ele anunciou uma série de medidas para lidar com o crime em Niterói e adjacências.

A política carioca de segurança pública está claramente mexendo com mercados, atitudes e relacionamentos de longa data e de raizes fortes. Muitos dos dominós encostados não estão visíveis. As drogas não são unicamente propriedade das favelas , como nos lembra um co-combatente:

“Quando fui ministro da defesa, tivemos muito éxito. Demos baixa em todos os elementos de uma lista de alvos de valor grande no narcotráfico, todos. Ou estão na cadeia ou mortos. Apreendemos quantias de cocaina sem precedente. Erradicamos quantias sem precedente de hectares de coca, e o diretor da Drug Enforcement Administration veio aqui e me parabenizou e parabenizou nosso povo, dizendo que estávamos indo muito bem,” o presidente colombiano Juan Manuel Santos contou ao Washington Post nesta semana.  “E você sabe como se definia o êxito? Pelo preço da cocaina em Los Angeles ou em Nova York ou em Washington. Então, como subiu o preço, tivemos êxito. Mas ao mesmo tempo, se o preço sobe, sobe o incentivo. Então existe uma estrutura de contradição no quadro todo.”

Provavelmente é exatamente esse incentivo que levou dois facções a subornar policiais e a guerrear na Rocinha. Pode muito bem ser que o êxito da ocupação e da pacificação dependa da capacidade do governo estadual para sufocar isso– num local tão central ao Rio de Janeiro.

Claro que as duas maneiras de pensar descritas acima não são mutuamente excludentes. Trata-se de um panorama confuso, e nossa visão dele carrega a bagagem de nossa experiência e preconceitos. Alguns dos atores são intransigentes, alguns são camaleões, e talvez uns poucos são Galileus brasileiros.

Por enquanto, a última palavra é do Beltrame:

“Entendo que as coisas possam não estar muito bem, mas estão muito melhor do que estavam,” ele disse ontem ao jornal O Globo.

About these ads

About Rio real

American journalist, writer, editor who's lived in Rio de Janeiro almost 20 years.
This entry was posted in Brasil, Brazil, Transformation of Rio de Janeiro / Transformação do Rio de Janeiro and tagged , , , , , , , . Bookmark the permalink.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s