Violência no Rio de Janeiro: quem serve o café do prefeito de Nova York?

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A ocupação inesperada do Complexo do Alemão e da Vila Cruzeiro levanta mais do que armas, drogas e bandidos.

Após uma semana de violência, medo e incerteza, no dia 29 de novembro o Rio de Janeiro se acalmou o suficiente para um agradecimento emocionante da parte do garçom do prefeito Eduardo Paes ao Secretário Estadual de Segurança Pública José Mariano Beltrame. Gyleno dos Santos, 73, comentara aquela manhã com o prefeito que pela primeira vez na vida ele saíra para trabalhar sem medo, já que as favelas do Complexo do Alemão haviam sido “tomadas” dos traficantes de drogas, pela polícia militar e pelas tropas do exército, e que gostaria de agradecer ao responsável. Por acaso, naquela tarde Beltrame viria almoçar no Palácio da Cidade.

“No almoço, Gyleno pediu licença e deu um abraço no Beltrame,” Paes contou ao Globo. “Ele foi às lágrimas. Quem conhece o Beltrame sabe que ele é um sujeito esquisito. Ele não ri, não chora. Tem aquele jeito fechado de uma pessoa centrada no trabalho. O Gyleno, na verdade, foi responsável por expressar o sentimento de toda a população.”

Na foto que acompanha a matéria, Gyleno segura uma bandeja com copos de água, vestido com uma jaqueta branca de gola alta e botões dourados, um braço por trás das costas.

Agora veja a foto que acompanha um artigo da revista New York de outubro 2010 sobre o ambiente de trabalho com divisórias para 52 pessoas, do prefeito nova-iorquino Michael Bloomberg. Será que um senhor de jaqueta branca teria como passar por entre os assessores dele, com bandejas de café, chá e água, como fazem os garçons e as moças do café nos escritórios brasileiros? Até agora, o RioRealblog não conseguiu descobrir se Bloomberg tem um garçom — com ou sem abraços– mas uma brasileira que recentemente mostrou seu apartamento em Manhattan ao Bloomberg diz que o Big Apple apareceu sozinho para conhecê-lo, de trena na mão. “Nem trouxe arquiteto,” ela conta maravilhada.

Separados e desiguais

No dia 1 de dezembro, o secretário Beltrame e outras autoridades da área de segurança pública visitaram o Complexo usando camisas de times de futebol, numa tentativa aparente de reduzir o enorme espaço socioeconômico entre pessoas como o Gyleno – que na verdade não mora no Complexo, apenas próximo o bastante para se apavorar – e eles mesmos. Com quatro grandes times na cidade, os cariocas tendem a se aproximar de uma pessoa desconhecida perguntando o time pelo qual ela torce, para então partir de semelhanças ou diferenças, brincando para que ambas se sintam à vontade.

Esse enorme espaço é a raiz de todo o mal; ao passo que se aumenta o preço perigoso das diferenças, e os brasileiros viajam mais e conhecem culturas mais igualitárias, se tornam mais críticos em relação a elas, e em alguns casos, (se já não viu, veja o vídeo inserido no post anterior) começam a trabalhar para diminuí-las. Enquanto a política de segurança pública avança rapidamente num ambiente bastante positivo – dia 3, o governador Sérgio Cabral disse que ele e Beltrame estão elaborando uma proposta para levar a Brasília para mudar a constituição e unificar as polícias militar e civil, e fazer outras mudanças necessárias – a antropóloga Alba Zaluar comentou em uma apresentação na Casa de Rui Barbosa que os soldados da polícia militar e seus superiores comem em refeitórios separados, sublinhando a hierarquia e dificultando a comunicação. Tal diferenciação é rara em organizações e empresas multinacionais brasileiras que estão em contato constante com as práticas no exterior, mas esse legado da escravidão ainda é comum.

A estratificação social até se encontra no transporte carioca, que Paes também se esforça para organizar antes das Olimpíadas. O norte-americano que chega ao calçadão com o objetivo de entrar em algum veículo a caminho do centro deve logo se lembrar do famoso slogan da Burger King nos Estados Unidos, Have it Your Way (ou Peça seu Sanduíche do Jeito que Mais Goste) Enquanto as opções em NY são ônibus, táxi, metrô ou limusine, aqui ele pode ir de van por R$2,40 reais, de ônibus pirata sem ar por dois reais, de ônibus legal sem ar por R$2.40, de ônibus com ar e assentos padrão por três reais, de frescão por cinco reais, ou de táxi comum por mais ou menos 25 reais. E ainda pode se programar e ligar para um rádio taxi comum, um rádio taxi chique ou combinar com um motorista particular na porta do hotel.

Não é fácil encurtar as muitas ladeiras da vida cotidiana. Claro que não é o caso de demitir o Gyleno, que trabalha no Palácio desde 1982. As camisas de futebol são um bom começo; o governo também já comunicou o reconhecimento de necessidades humanas legítimas ao efetuar uma limpeza rápida das ruas do Complexo e instalar serviços sociais, enquanto a polícia e o exército conduzem uma varredura casa a casa por bandidos, armas e drogas, que deve durar meses. E por uma semana três repórteres do Globo dormiram no Complexo, fazendo reportagens. Vários programas de TV gravaram diretamente da área na semana passada, e no sábado até alguns turistas apareceram num lugar que até então ninguém procurava conhecer.

Por quanto tempo o Complexo do Alemão e a Vila Cruzeiro permanecerão no mapa? Muitos de seus traficantes fugiram, aparentemente por tubulações de esgoto, e pode ser que eles apareçam novamente. Tantas outras comunidades pobres precisam da atenção do governo. E os cariocas sabem, pela longa experiência com o Carnaval, que quando os pobres se vestem de nobres do século XVIII nas comissões de frente, na quarta-feira de cinzas as carruagens viram abóboras.

Quem Indica

Gyleno acertou. Beltrame, 53, é um herói local merecedor de muitos agradecimentos, apesar de ser gaúcho, tendo feito carreira na polícia federal. Mas seu comportamento traz à tona um atributo um tanto preocupante entre as autoridades brasileiras.

Perguntado nesta entrevista do Globo sobre como sua equipe preparou a invasão da Vila Cruzeiro e do Complexo do Alemão, Beltrame disse que conseguiu o apoio da polícia federal porque “Ela é minha casa”, e mencionou o nome do chefe da polícia federal no Rio de Janeiro pelo primeiro nome, Ângelo, com o mesmo grau de familiaridade que Paes utilizou ao falar de seu garçom.

Então, Ângelo e José Mariano torcem pelo mesmo time?

Talvez melhor do que Wikileaks

Está claro para todos que o ímpeto principal para o programa carioca de pacificação, que atualmente se estende a 13 favelas estratégicas e logo que possível chegará aos que já se tornaram as comunidades mais famosas da cidade, são os eventos esportivos internacionais que estão por vir. Pela primeira vez, o mundo todo está de olho no Rio de Janeiro — e os cariocas querem fazer bonito.

E um elemento novo e saudável na equação social brasileira, tão carregada que é de tradições – a tecnologia—, também permite aos cariocas se vigiarem, pela primeira vez, no Twitter, no YouTube, nos sites de notícias e na mídia eletrônica cada vez mais realtime e ligada à internet. Está aqui o vídeo de um morador da Vila Cruzeiro transtornado, acusando a polícia de ter destruído sua casa; de acordo com reportagens, eles também teriam levado uma grande quantia de dinheiro.

Ao responder a um morador do Complexo que perguntou por email se moradores podem filmar a polícia enquanto fazem as suas buscas, o governador Sérgio Cabral disse, “Claro que podem. Neste mundo da tecnologia, é um direito do morador filmar o trabalho da polícia e as revistas em sua própria casa“. Como prevenção, a polícia militar acabou de proibir seus homens de usar mochilas, em resposta a dezenas de acusações que estão sendo investigadas por uma nova ouvidoria.

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About Rio real

American journalist, writer, editor who's lived in Rio de Janeiro for 20 years.
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