Trecho adaptado de livro inédito de sua blogueira!

Texto longo, porém leve e engraçado, com várias supresas.

Leia aqui, na Revista Trendr:

https://trendr.com.br/olimpiadas-algo-podre-na-dinamarca-o-destino-das-figuras-chaves-da-candidatura-rio-2016-a22fbce33d27

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Real life in Rola Um, West Zone

A two-hour journey from the South Zone, by metro and BRT

Thais Santos and her aunt Edmar, who loves to travel with the women of her church

The spread-out one-story houses in Rola Um aren’t a favela. Thais Santos, who grew up there, calls Rola Um a comunidade, or community. The Instituto Pereira Passos, which analyzes municipal data, calls it a loteamento, or urban allotment. Homeowners purchased their land on the formal real estate market.

Whatever the label, Rola Um has changed a great deal, according to people who’ve lived there quite a while.

“It was all scrub,” says Eugênia Luisa de Boa Morte, 94 years old, recalling her arrival, so many years ago that when she mentions ten or 20 years her granddaughter Thais corrects her: “I think it’s 40, Grandma. I’m 25 and you already lived here when I was born.”

“Now we have everything,” continues Eugênia, who already has a great-great-grandchild. “Even criminals, lots of ’em.”  Her children, she says, — and she’s the mother of nine living offspring, out of 12, total — “are scared to death of coming here.”

Terminal Alvorada, Barra da Tijuca: crux of the Transoeste and Transcarioca BRTs, stopoff on the way to Santa Cruz

Both of Thais’ grandmothers live on land large enough for a second home, for relatives who ease the difficulties of aging.

Thais, who now lives in Campo Grande, studies phys ed and is part of a theater troupe. On an August Saturday, she took this blogger to see Rola Um. Actually, to see her quite large family.

The interviewees said they coexist peacefully with the aforementioned criminals. In their hearts and minds, however, Thais’ relatives divide the community into good and bad folks; on a daily basis this means keeping children from playing in the street. “Everyone goes inside, we stay at home,” when the cops and robbers start shooting, says Thais’ other grandmother, Ana Ferreira dos Reis, 78 years old, originally from Itaguaí. “I don’t even want to know about it.”

Only two months ago, the community had a day of terror, resulting in the death of an alleged drug trafficker. According to residents, the police appear and bullets fly only when the criminals don’t keep their part of financial deals.

“People leave, there are abandoned homes,” says Thais’ aunt, Edmar Margarida Ferreira dos Reis. According to her and other relatives, the Comando Vermelho moved into Rola Um and Rola Dois long ago, but the violence began to spike in 2014. There’s a little park, center of the Rola Um drug traffic. When members of Edmar’s church went into the community to do missionary work, they lasted ten minutes, deeply upset by what they saw of traffickers and young girls.

A courageous bakery owner, with relatives who’ve returned to Minas Gerais, tells the story of a trafficker who showed up some time ago, ordering coffee. “I don’t serve coffee here,” she answered. “The coffee I have is just for me and my husband.” The unwelcome customer gave up.

On the day of this blogger’s visit, the only sign of criminal activity were CV lettering on some walls and pieces of barricades in the streets. Thais, at first fearful of going into an a trafficking stronghold, took heart. The houses were different from her relatives’. Smaller, without yards, on potholed streets, music emanating from a parked car. A little park, temporarily filled with amusement park rides. A nightclub– the baile funk venue, Thais said. And then we’d come to the avenue, where this blogger got back on the BRT to return to the familiar blocks of the South Zone.

Two hours’ travel, on bumpy, cracked asphalt were enough to note homeless folks sleeping in the lee of BRT stations– and to reflect on how much Rio de Janeiro has changed since this gringa’s first arrival, in 1978 — just about when Thais’ grandmothers were building their homes in Rola Um.

Grafitti at the Alvorada Terminal

Thais with her 94-year-old grandmother, who migrated from Minas Gerais

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A vida como ela é, Rola Um, Zona Oeste

Viagem de duas horas, da Zona Sul, por metrô e BRT

Thais Santos e a tia dela, Edmar, que adora viajar com as mulheres de sua igreja

Não é favela, o Rola Um, local espraiado de casas suburbanas. Thais Santos, que lá foi criada, chama o Rola Um de “comunidade”. O Instituto Pereira Passos, que analisa dados da cidade, chama de “loteamento”. Os proprietários compraram seus lotes pelo mercado imobiliário formal.

Qualquer que seja o rôtulo, Rola Um já mudou bastante, de acordo com moradores de longa data.

“Era tudo mato”, lembra Eugênia Luisa de Boa Morte, 94 anos, sobre os tempos quando ali chegou. Quando menciona estar no Rola Um há dez ou vinte anos, a neta lhe corrige: “Acho que faz 40, vó. Eu tenho 25 anos e a senhora já morava aqui quando nasci”.

“Agora tem de tudo”, continua Eugênia, que tataraneto já ganhou. “Até bandido, à vontade”.  Diz que os filhos — e ela é mãe de nove, vivos, dos doze que nasceram — “Morrem de medo de vir aqui”.

Terminal Alvorada, Barra da Tijuca: ponto de encontro dos BRTs Transoeste e Transcarioca, a caminho de Santa Cruz

Thais, que hoje mora em Campo Grande, estuda educação física e faz teatro. Num sábado de agosto, levou a sua blogueira para conhecer o Rola Um. Para conhecer a família, na verdade — que é grande.

As duas avós moram em terrenos grandes o suficiente para construir uma segunda casa, abrigando parentes que ajudam a amenizar as dificuldades de envelhecer.

Os entrevistados disseram conviver pacificamente com os tais bandidos. Na cabeça e no coração, porém, dividem a comunidade entre bons e maus– e, no dia a dia, não deixam as crianças brincar na rua. “Todo mundo entra dentro de casa, cada um se recolhe e fica na sua casa”, quando há tiroteio entre traficantes e policiais, conta a outra avó de Thais, Ana Ana Ferreira dos Reis, 78 anos, que veio de Itaguaí. “Quero nem saber”.

Há apenas dois meses, a comunidade viveu um dia de terror, que resultou na morte de um suposto chefe do tráfico. De acordo com os moradores ouvidos, a polícia entra e os tiros voam apenas quando os criminosos deixam de cumprir acordos financeiros.

“Gente vai embora, há casas abandonadas”, conta a tia de Thais, Edmar Margarida Ferreira dos Reis. De acordo com ela e outros familiares, o Comando Vermelho começou há muito tempo a ocupar pedaços do Rola Um e do Rola Dois, mas a violência cresceu a partir de 2014. Existe uma praça, foco do tráfico no Rola Um. Quando membros da igreja de Edmar chegaram na comunidade para um trabalho missionário, diz ela, correram para casa após dez minutos  — perturbadas pelo cenário de meninas com traficantes.

A corajosa dona de uma padaria, parente de moradores que voltaram para Minas Gerais, conta a história de um traficante que apareceu tempos atrás, querendo um café. “Não sirvo café aqui”, ela respondeu. “O café que tenho é apenas para mim e meu marido”. O freguês indesejável desistiu.

No dia da visita de sua blogueira, os únicos sinais de criminosos eram iniciais CV em alguns muros e restos de barricadas nas ruas. Thais, que inicialmente tinha medo de adentrar uma área onde o tráfico é forte, tomou coragem e expandiu o território do passeio: as casas eram diferentes das de seus familiares. Menores, sem quintal, em ruas esburacadas, música tocando pelo som de um carro estacionado. Uma praça, ocupada, naquele momento, por brinquedos de parque de diversões. Uma boate, local do baile funk, disse Thais. E logo chegamos na avenida, onde sua blogueira embarcou no BRT, de volta aos quarteirões conhecidos da Zona Sul.

Duas horas de viagem, por asfalto ondulado e rachado, foram o suficiente para reparar nos moradores de rua dormindo ao lado de estações de BRT– e para ponderar quanto o Rio de Janeiro mudou desde a primeira chegada dessa gringa no Rio de Janeiro, em 1978 — bem quando as avós de Thais construiam suas casas no Rola Um.

Grafite no Terminal Alvorada

Thais com a avó de 94 anos, que migrou de Minas Gerais

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Active silence

Rio is done for… Except it’s not

Rocinha, seen on a winter afternoon from the Dois Irmãos mountain

It’s tough to read the lack of noise, after years of great activity. But the silence in Rio, both this blogger’s as well as that of many others, is no hollow space. We’re lost in thought. How did we get here? What are the important questions? What works? What gets you nowhere?

Soldiers patrol the deserted Olympic Boulevard, part of the revitalized Porto Maravilha, on a Monday morning

Raull Santiago is an untiring Complexo do Alemão activist, married and father of four. He helped lead the resistance to the police invasion of private homes in the Complexo, which lasted from January to April of this year. At the surface of facts alone, the situation was clear. The police had no legal right to take over the houses.

Every day we perceive that no situation is black or white. The police claimed the invasion was needed to protect its men and fight heavily armed drug traffickers. To occupy territory.

Despite the invasion’s obvious unconstitutionality, it took months for the police to vacate the homes and for the state Public Defender’s office to indict the commander at the state’s Military Justice Board. A decision is pending.

The revelations seen since the Mensalão congressional scandal broke in 2005 aren’t just about corruption and crooked politics. Like never before, the daylight emanating from investigations and plea bargains also shines on social inequality. The great challenge– maybe an impossible mission– is to figure out where to start righting wrongs, which strand to pull first from the Brazilian tangle. The Alemão police invasion was built on drug traffic, which was built on problematic police and politicians and a long tradition of ignoring housing needs. Which was built on slavery. The lack of health and education are in there somewhere, too.

It’s no coincidence that this year’s FLIP, the Paraty literary festival, focused on racism and the life and work of black author Lima Barreto, who lived in Rio de Janeiro during his short life, from 1881 to 1922.

The skein’s knotted tangle feeds polarization. We seek and we come up with easy solutions. We mistrust everything and everyone. “Either you’re on the side of the police or on the side of the criminals,” is the slogan slowly taking the place of the old “a good criminal is a dead criminal.” In this dichotomy, poorer residents are left in the grey area of collateral damage.

That’s how it was July 31, when the state Prosecutor’s Office held a public hearing on public safety. On the plus side, it was a new approach, a chance for dialogue. But the participants divided neatly into two cheering squads, one for order and one for human rights. Security staff had to keep apart a prosecutor and a member of a group defending favela residents’ rights. Another prosecutor, together with some police officers, presented military schools as a public safety solution.

The Carwash investigation has begun to touch those who used to protect themselves in the justice system’s shadowy reaches. But there are still delays, sudden and morally inexplicable twists. This is tiring, to say the least.

Raull Santiago was happy when he heard the news about the Alemão commander and the end of the house invasions. But the Rio environment is so heavily charged that his broken cell phone spurred a Facebook outburst the other day, titled “Crisis”, in which he wrote of:

“… being favela-born and moving to guarantee the right to life and other rights, ending up being categorized as part of some of these labels, such as “periphery social movements”, the way this stuff takes problems to the tenth power or much more. There are thousands of tiny things. All extreme. All serious. All I can do is think of the Racionais (musical group) singing: ‘Every favela resident is a universe in crisis’. And we truly are. And I don’t even know if some day this will end. I only know we’ll keep on trying to change the game of real life. From the bridge to here, not everyone can take it. And lots of people jump off that bridge.”

A person who has worked with youth for years went beyond Raull’s outburst. The person confided to RioRealblog about having doubts regarding the impact of any attempt to work on social issues. Public policies to address social issues are the main demand of those who reject the violence of  “collateral damage” in relations between society and the police.

Cecília Olliveira, who with her Fogo Cruzado app took on the mission of tracking and quantifying shooting across Rio, confessed dismay in a public exchange of messages with RioRealblog, on Twitter: “We’re tired. Very, very tired. we keep trying… but I can’t see a bright horizon,” she wrote.

On the other side of the equation people might not be jumping off bridges, as Raull mentioned, but they’re throwing in the towel. In line at the book signing yesterday for Mais Forte: Olimpíadas seguras em meio ao caos (Fortis: Safe Olympics in the Midst of Chaos, soon available online in English), a 50-year-old retired military police officer said his elderly mother is the only reason he’s not moving to Portugal. He keeps thinking about a friend, also a retired officer, who’s made the move. The conversation was initiated by a carioca asking if Rio’s problem might not be the cariocas themselves. He lives alone in Rio; his family prefers another city.

Meanwhile, federal troops arrived here; last Saturday they carried out a totally new kind of operation, blocking the access to some North Zone favelas for a day. The idea was to reduce cargo theft (which this year has mushroomed) and drug traffic. The results weren’t a huge success, but they caused only two deaths. Unlike as was done with pacification (discredited for at least a year), security officials say they have no intent to occupy favelas or to even stay long in once spot. “We don’t want to merely inhibit organized crime. We want to undo it, destroy it, cut off its ability to function,” said Defense Minister Raul Jungmann.

It would be nice if this happened. But few cariocas have shown confidence in the military or support for the new strategy. They’re worn out and indignant. They are soul searching.

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Silêncio ativo

O Rio acabou… Só que não

Rocinha, vista numa tarde de inverno, do morro Dois Irmãos

A falta de barulho, depois de anos de grandes movimentos, é difícil de interpretar. Mas o silêncio no Rio, tanto por parte de sua blogueira como o de muitas outras pessoas, não é um espaço oco. Estamos refletindo: como chegamos aqui? Quais as perguntas importantes? O que dá certo? O que não funciona?

Soldados do exército patrulham o Boulevard Olímpico, no Porto Maravilha, às moscas numa segunda-feira de manhã

 

Raull Santiago é ativista incansável no Complexo do Alemão, casado e pai de 4. Foi um dos líderes na resistência à invasão policial de casas no Complexo, que durou de janeiro até abril. Na superfície dos fatos, era uma situação de traços claros. A polícia não tinha direito jurídico de tomar posse das casas.

Percebemos, dia após dia, que nenhuma situação é branco/preto. A polícia afirmava que a invasão era necessária para proteger seus soldados e lutar contra os traficantes de drogas, que dispunham de armamento pesado. Ocupar território.

Apesar da patente inconstitucionalidade da invasão, demorou meses para que a polícia saísse das casas e o comandante fosse denunciado, pelo Ministério Público, à Auditoria da Justiça Militar do estado. Falta saber, ainda, qual será a decisão dela.

Assistimos, desde a eclosão do escândalo Mensalão em 2005, a revelações não apenas de corrupção e de política pouco republicana. Como nunca antes, a luz do dia proveniente das investigações e das delações também delinea a desigualdade social. O grande desafio –talvez a missão impossível– é descobrir por onde começar, qual fio puxar desse emaranhado. Pois a invasão das casas no Alemão se construiu em cima da guerra ao tráfico. Que se construiu em cima de políticos e polícia problemáticos e de um desleixo secular com a moradia popular. Que se construiu em cima da escravidão. Falta de saúde e de educação estão aí em algum lugar, também.

Não foi coincidência que a Festa Literária de Paraty, neste ano, focou no racismo e na vida e escritos do autor negro, Lima Barreto, que viveu no Rio de Janeiro entre 1881 e 1922.

A dificuldade com o novelo bagunçado alimenta a polarização. Procuramos e apresentamos soluções fáceis. Desconfiamos de tudo e de todos. “Ou você está do lado da polícia ou do lado dos bandidos”, é o mote que cada vez mais substitui ao batido “bandido bom é bandido morto”. Nessa dicotomia, o morador das classes mais baixas ocupa a área cinzenta de danos colaterais.

Foi assim no dia 31 de julho, quando o Ministério Público do estado do Rio de Janeiro realizou uma audiência pública sobre a segurança pública. Do lado positivo, era um evento inédito, uma chance nova para o diálogo. Participaram da audiência, porém, duas torcidas distintas, a da ordem geral e a de direitos humanos. Seguranças tiveram que apartar um promotor de um homem que fazia parte de um grupo defendendo os direitos de moradores de favela. Outro promotor, junto com alguns policiais, defendeu a militarização das escolas como saída para a segurança pública.

Com a Lava Jato, a justiça começa a atingir quem antigamente se protegia nas suas lacunas menos iluminadas. Persistem, porém, as demoras, as viradas repentinas e moralmente inexplicáveis. Isso é cansativo, para dizer o mínimo.

As notícias sobre o comandante da PM e as casas no Alemão deixaram Raull Santiago feliz. Mas o ambiente hoje é tão carregado que, outro dia, a falta de um telefone celular que funcionasse o levou a um desabafo no Facebook, de título “Crise”, no qual falou em:

“[…] ser cria da favela e se movimentar na busca pela garantia de direito a vida e outros direitos, passando a ser classificado como parte de alguns desses rótulos, do tipo ‘movimento social da periferia’, de como essa parada eleva os problemas a décima potência ou muito mais. São milhares de micro paradas. Todas extremas. Todas graves. Só lembro de Racionais cantando: “cada favelado é um universo em crise”. E somos mesmo. E nem sei se um dia deixaremos de ser. Só sei que seguiremos tentando virar o jogo da vida real. Da ponte pra cá, não é qualquer pessoa que aguenta. E muita gente pula dessa ponte”.

Uma pessoa que trabalha há muitos anos com jovens no Rio foi além desse desabafo. Confidenciou ao RioRealblog que está duvidando da eficácia de qualquer tentativa de amenizar questões sociais. São justamente políticas públicas na área social a reivindicação central dos que não aceitam a violência dos “danos colaterais” nas relações sociedade-polícia.

Cecília Olliveira, que tomou para si a missão de acompanhar e quantificar os tiros na metrópole toda, pelo seu aplicativo Fogo Cruzado, confessou-se desanimada, numa troca pública de mensagens no Twitter com o RioRealblog: “Estamos cansados. Muito, muito cansados. Seguimos tentando… mas não consigo enxergar um horizonte claro”, escreveu.

Pelo outro lado da equação, as pessoas talvez não pulem da ponte, como Raull mencionou. Mas jogam a toalha. Na fila de autógrafos para o livro Mais Forte: Olimpíadas seguras em meio ao caos, ontem, um oficial reformado da Polícia Militar, de 50 anos, disse que só não vai embora para Portugal por causa da mãe idosa. Pensa num amigo, também oficial reformado, que já se mudou. Seu interlocutor na fila, um carioca que iniciou a conversa perguntando se o problema do Rio de Janeiro não seriam os cariocas, mora sozinho no Rio. A família preferiu ficar em outra cidade.

Enquanto isso, tropas federais chegaram no Rio e fizeram, sábado passado, uma operação inédita, de bloquear, por um dia, acessos a algumas favelas na Zona Norte, com o intuito de diminuir o roubo de cargas e o tráfico de drogas. Tiveram pouco êxito, mas houve apenas duas mortes. Diferente da pacificação, desacreditada há mais de um ano, as autoridades de segurança não pretendem ocupar favelas ou até ficar muito tempo num lugar só. “Não queremos só inibir o crime organizado. Queremos desfazer, destruir, golpear a sua capacidade operacional”, disse o Ministro de Defesa, Raul Jungmann.

Seria bom se desse certo. Mas poucos cariocas manifestam confiança nos militares ou apoio à nova estratégia. Estão exauridos, indignados. Se questionam.

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Boas notícias no Rio de Janeiro, apesar de tudo

Henrique Silveira, diretor da Casa Fluminense, fala de participação nos planos de governos municipais

O impensável acontece todo dia. Ministro de Fazenda sonega imposto, investigados integram Comissão de Ética do Senado e, com um olho no foro privilegiado, nomeia-se Ministro de Transparência (antigo CGU).

Então, chegou a hora de pensarmos todos no impensável, não? Trump tira os EUA do acordo sobre o clima; em seguida, governadores e prefeitos resolvem limitar emissões de carbono por conta própria e o multimilionário e ex prefeito de NY Michael Bloomberg doa US$ 15 milhões para ajudar a Convenção do Clima da ONU.

Pensar, dizer e fazer o impensável — num contexto de volatilidade mundial a longo prazo — foi o mote da Conferência Ethos de 2017, que aconteceu no Rio de Janeiro dia 1 de junho: o peruano José Ugaz, presidente da Transparency International, fez um apelo público (amplamente aplaudido) pela renúncia do presidente Michel Temer. Na sua apresentação, Ugaz mostrou que a soma roubada dos cofres públicos no mundo seria mais do suficiente para erradicar a extrema pobreza, cuidar da saúde de todos, prover acesso universal à água e saneamento e asssegurar a educação básica no mundo inteiro.

Dados de Transparência Internacional

Zapping presencial

O mundo se transforma e surpreende, sem trégua. Nessa conferência, vestia-se um par de fones de ouvido para que, em quase-silêncio, três debates simultâneos pudessem compartilhar um salão grande. Mudar de tópico e palestrantes requeria apenas mudar de canal no fone. Fazia-se um pitstop no banheiro sem perder o papo.

Tal novidade liberava a cabeça para outras: uma mesa sobre reforma política nem mencionou voto distrital ou lista fechada. Em vez disso, Pedro Abramovay, diretor para a América Latina da Open Society Foundations, sugeriu a opção de iniciativas populares para impor urgência em debates e votos parlamentares e a introdução de votos de desconfiança para presidentes do Senado e da Câmara. Mencionou também a Alemanha, onde cem mil assinaturas de cidadãos é o suficiente para que um sujeito eleito tenha que responder a uma pergunta específica.

O aplicativo Mudamos, desenvolvido pelo Instituto de Tecnologia e Segurança, talvez seja um precursor de tais propostas.

Com a Internet, a realização dessas ideias se torna, aparentemente, mais fácil do que nunca. Claro que a adoção delas pressupõe confiança na capacidade do cidadão para se informar e discernir. Tal capacidade cresce no mundo, apesar de dificuldades, observa Sérgio Abranches, cientista político e sociólogo, autor do livro novo, A era do imprevisto, palestrante na Conferência. De acordo com ele, o momento caótico pelo qual passamos é uma transição entre paradigmas, maior do que aquela entre a Idade Média e a Renascença.

Legado positivo da Lava Jato, de acordo com José Ugaz, da Transparência Internacional

Com sede em São Paulo, o Instituto Ethos surgiu em 1998 como resposta às preocupaçãoes de um grupo de executivos acerca de responsabilidade social corporativa. Com grande experiência acumulada, o Instituto hoje dispõe de enorme relevânciaSoltou, inclusive, uma nota durante a Conferência, se posicionando diante da fragilização, por parte do governo Temer, do Ministério de Transparência (antiga Controladoria Geral da União, a CGU).

Patrocinadas por uma gama de empresas, o sistema Firjan e o Instituto Invepar, as diversas mesas da Conferência Ethos demonstraram que o mundo corporativo hoje se engaja com questões como mudanças climáticas, obesidade infantil, racismo, mobilidade, integridade nas federações esportivas e no setor de óleo e gás, a inclusão de pessoas com deficiência, o trabalho infantil, e o empoderamento mulheres negras.

“Beyond compliance”

Cresce no país — citado por José Ugaz, da Transparência, como modelo em potencial de esforços anti-corrupção — a ideia de que pessoas físicas e jurídicas precisam refletir sempre nas suas escolhas no contexto da sociedade como um todo. “Não é suficiente apenas cumprir a lei”, disse Sérgio Abranches.

Nessa conturbada era Lava Jato, também aparecem iniciativas em prol da transparência e do respeito pela sociedade: consumidor, morador, eleitor. Há um movimento em curso para que o cidadão possa participar mais na elaboração e monitoramento de planos de metas municipais, conforme uma mesa descreveu durante a Conferência.

O prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, apresenta seu plano de metas até o fim de junho. A maior participação  da sociedade por esse meio pode se contrapor a interesses de grupos empresariais especifícos, derrubando, por exemplo, propostas tais como a de colocar 53 quiosques na área portuária do Rio (em vez de viabilizar empreendimentos locais em espaços existentes que carecem de revitalização).

Redes para a proteção de todos

A rede de ativismo urbano, Meu Rio, lançou em maio de 2016 um plataforma, Defezap, pelo qual o cidadão pode enviar seu testemunho digital anônimo de uma gama de abusos. Em um ano, DefeZap já recebeu 140 vídeos que documentariam agressões por agentes públicos na região metropolitana do Rio de Janeiro. Os casos levaram a duas decisões judiciárias, ambas favoráveis à vítima, disse, durante a Conferência, o coordenador Guilherme Pimentel.

Crowdsourcing entre moradores, o Papo Reto contabiliza dias sem tiroteio

Thainã de Medeiros contou a experiência do coletivo Papo Reto, do Complexo do Alemão. Através de uma rede de moradores formada pelo Whatsapp, o coletivo montou um calendário de tiroteios: 16 dias sem tiros em janeiro, zero dias em fevereiro (mês do começo do ano letivo), três dias em março, cinco em abril e, em maio, 14 dias sem tiroteio. Papo Reto trabalha em rede pelo Brasil e fora do país, também.

A nivel nacional, o Instituto Ethos, o Observatório Social do Brasil e Jorge Hage, ex-ministro-chefe da CGU, trabalham para instituir um Plano Nacional de Integridade. Uma das estratégias reside na atuação do Observatório, que nasceu em meados dos anos 2000 em Maringá, Paraná. Composto de 120 observatórios municipais e de três mil voluntários, a entidade desenvolve e compartilha ferramentas para monitorar e assessorar a gestão municipal. A ideia, disse a diretora executiva Roni Enara, é levar “o indignado do sofá e do Facebook a colocar a mão na massa”. Assim, torna-se possível, acrescentou, que um município receba a certificação ISO 9001.

Em Picos, Piauí, disse Enara, cidade de 70 mil habitantes, descobriu-se um sobrepreço no iogurte da merenda escolar, numa licitação que incluía perfume e esmalte de unha.

Está parado hoje no Senado uma emenda constitucional, datando de 2009, a PEC 45, que propõe replicar o modelo da Controladoria Geral da União nos estados e municípios. Pode ser uma boa ideia, desde que se possa contar com atores capacitados e isentos, para monitorar nossas contas locais. (Já temos tribunais de contas estaduais e municipais — que, até recentemente, no Rio de Janeiro, deixavam a desejar.)

Vambora tirar o fone de ouvido e pressionar, então, pelo debate parlamentar urgente?

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O estado de joelhos; o cidadão em pé

Audiência pública sobre invasão policial de casas no Complexo do Alemão revela incapacidade de servir e proteger o cidadão

A mesa

O livro novo do sociólogo e cientista político, Sérgio Abranches, A era do imprevisto, é teórico, cheio de conceitos abstratos. As dificuldades do leitor somem, porém, num momento como o de hoje, no meio de uma barulhenta audiência pública na Defensoria Pública estadual.

Abranches descreve nossa era de transição — socioestrutural, científica e tecnológia e climática, com esses três vertentes constantemente se encontrando como se fossem três ondas. Ele explica que o vazio que sentimos, o desespero, a desconfiança, a falta de caminho e comando — tudo isso advém do fato de estarmos transitando entre um conhecido passado firme e um futuro quase que inteiramente desconhecida.

Isso foi mais do que evidente no auditório da Defensoria Pública.

Havia por volta de trinta policiais militares sentados juntos, nas cadeiras enfileiradas, inclusive o comandante da UPP Nova Brasília, no Complexo do Alemão, Leonardo Zuma — a pessoa que, há semanas, mandou invadir algumas casas para que seus homens se protegessem de ataques de traficantes. Na mesa à frente, o subcoordenador de Polícia Pacificadora, tenente-coronel Marcos Borges. Ele fez uma explicação pelas invasões e uma promessa— recebidas com vaias fortes.

Do lado de fora, o comandante Zuma explica a invasão aos jornalistas

Mas quem falava pela Secretaria estadual de Segurança Pública, responsável pela política pública de Guerra às Drogas, por trás da violência que mata mais gente (policiais e moradores) com cada dia que passa, era uma sorridente mulher que está apenas dez dias no cargo de subsecretaria de educação, valorização e prevenção, a policial federal Helena Rezende.

Depois de ouvir uma também recém chegada representante, da secretária municipal de Assistência Social e Direitos Humanos, cujo nome sua blogueira não captou (a mulher utilizou seus cinco minutos para relatar, de forma detalhada, a história de uma vítima de estupro que precisou ser removida de um hospital que ficava perto demais da pessoa que a atacara, mas havia faltado um carro, que foi, graças a ela, providenciado), dá para imaginar quantos homens brasileiros ficam inventando secretarias para juntar assuntos irritantes, para então equipá-las com pessoas de ótimas intenções e pouco poder.

Não estava presente nenhuma autoridade maior da Secretaria estadual de Segurança. Faltaram também — foram convidados — os secretários estaduais de Cultura e de Educação, apesar de vários espaços educativos e de cultura terem sido abandonados no Alemão, de acordo com moradores. Mariluce Souza, que dá aulas de arte para crianças, conta que as constantes faltas de alunos da rede pública, por causa de tiroteios, resultam em perda de vaga– sobretudo em creches.

Essa não é a primeira audiência pública para falar dos problemas no Alemão. Houve uma no proprio local, dois anos atrás — quando também aconteceu um bem moderado diálogo entre moradores, ativistas e policiais. A morte do menino Eduardo foi o estopim, na época.

Hoje, com níveis de violência maiores, o teleférico parado e policiais com salários em atraso, a tensão fica quase insuportável: “Não vamos denunciar a polícia para a polícia! A polícia não investiga a polícia!” berrou o ativista e morador Raull Santiago, em resposta à oferta do tenente-coronel Marcos Borges para ouvir qualquer denúncia ou reclamação.

Diálogo não houve. Enquanto a Defensoria e a ONG Anistia Internacional classificaram as invasões das casas como inconstitucionais e portanto, ilegais, a polícia dizia ter precisado dos locais para se abrigarem enquanto uma base blindada não chegasse. A base chegou hoje; daí veio a promessa de sair das casas amanhã.

Ovo ou galinha?

Enquanto a polícia dizia que as casas eram abandonas e, assim, livres para sua utilização, moradores diziam ter tido que abandonar as casas por causa dos tiroteios, que objetos seus foram danificados. Queriam indenização.

Teresinha, mãe do menino Eduardo, baleado pela polícia há dois anos na porta de casa enquanto brincava com um celular, teve sua vez ao microfone. Seguiu-se um foz de Iguaçu de sentimentos e reflexões sobre sua tragédia, infelizmente compartilhada por muitos familiares nas favelas do Rio. “Eu não acredito na polícia!” afirmou repetidamente.

Luciano, morador, desafiou algum policial a levantar a mão e dizer que estava satisfeito com o emprego e as condições de trabalho. Ninguém levantou a mão. “A UPP fracassou por causa da corrupção do PMDB nesse estado”, acusou. Recomendou que os policiais de UPP cruzassem os braços.

Mariluce, culpando o governador Pezão e os fabricantes de armas, lembrou que balas voavam no Alemão enquanto a audiência acontecia, no centro da cidade. “Quem garante que vamos chegar em casa?” perguntou (às 21h30 avisou ter chegado bem, relatando que os tiros haviam parado uma hora antes).

Nestas casas, diz a Mariluce, moram pessoas: fato básico

Enquanto os moradores diziam ter filmado abusos policiais (que farão parte de um dossiê), um policial — adepto à crença de que todo mundo precisa escolher um lado, perguntou por que os moradores não usavam as técnicas de filmagem com os traficantes. À boca, acrescentou, ninguém pede indenização.

A gritaria começou: “O imposto paga a polícia, não paga o traficante”, argumentou um membro do público, enquanto outros berravam em coro, “assassinos!”

A essa altura, Raull Santiago, cujo grupo Juntos Pelo Complexo ajudara a organizar o encontro, já abandonara a mesa. Os policiais também se debandaram. Um círculo denso se formou do lado de fora do auditório, perto dos elevadores: jornalistas e policiais. No centro, o comandante Zuma explicava sua invasão, apontando um dedo mas sem grande convicção: “Como lá há várias casas abandonadas, todas crivadas de bala, porque o morador não consegue morar lá, eu autorizei que [policiais] ficassam dentro de uma casa vazia, para que pudessem se proteger à noite. Foi isso que autorizei. E isso estou junto com o Ministério Público tentando me justificar. Eu coloquei a minha carreira em risco autorizando isso, eu sei. Mas foi para guarnecer a vida deles”.

E aí temos quase todos os elementos da travessia que vivemos, conforme explica Sérgio Abranches no seu livro: instituições fracas, confiança abalada, suposições desafiadas, prioridades morais contestadas, líderes ausentes. A lista é longa. O futuro está na penumbra. Há pouca consolação — de primeira vista.

Vamos lembrar, porém, que essa história caótica envolve um grupo de moradores que se organizou para pressionar uma polícia que eles vêem como injusta. Dispõem de informação, da capacidade de formar redes virtuais e reais, de vigiar seus supostos abusadores como nunca antes. A polícia, enfim, disse que vai se retirar das casas; o comandante, pela fala, reconhece a necessidade de se justificar– para uma instituição, o Ministério Público, que ganha importância no país como um todo ao passo que políticos perdem centralidade.

Tempos incertos, tempos novos, levando sua blogueira a lembrar de uma notícia que faz parte das nossas tentativas humanas de nadar no meio dessas três ondas que batem e se debatem. Existe uma nova maneira de fazer uma lei no Brasil: o aplicativo Mudamos, desenvolvido aqui no Rio pelo Instituto de Tecnologia e Sociedade. O fato que o Mudamos teve 300 mil downloads em uma semana demonstra uma grande vontade de, justamente, mudar o que não serve mais. Dá uma olhada!

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