Rio de Janeiro in 2019

Is the horizon beautiful or threatening? Depends on who you are

A thorough cleaning expected

It would be easy to predict Rio de Janeiro’s future if the world were divided into good guys and bad guys. Since it isn’t, we find ourselves amid conflicting trends and data, hard to analyze via panoramic mode. Yes, Rio de Janeiro is keeping up with the world when it comes to confusion.

Para português

Who is Wilson Witzel, our new governor? Will he be able to keep his promises of less corruption, more public safety, less financial crisis? Will Rio in fact become a safe and sustainable tourist destination — its natural vocation (along with its cultural role) for the local economy?

It’s not easy to get deep into the man’s nature and true capabilities. He made promises and named secretaries (almost all men), decided to do away with the Public Safety secretariat and claimed he’ll have killed all those bearing rifles. He admires Israel.

Allan de Abreu, Piauí magazine reporter, analyzed the governor-elect’s court decisions, made when he was a judge (he left the post of federal judge in early 2018 to become a candidate). A large percentage of his decisions were reversed on appeal, indicating a questionable ability to produce justice.

But we need more information on each decision and its circumstances, on the environment he was working in (for safety reasons he requested a transfer out of the state of Espirito Santo in 2011) and his personal relationships at the time. We also need to know more about the years he spent as a judge in Rio de Janeiro. How did he decide to run for office, how were his ideas on public policy shaped, who were and are the people with whom he exchanges ideas?

In the area of public safety, Witzel follows the Bolsonaro line: more shooting —-> less crime. Coincidence or not, the  Rio Federal Intervention (which ends as he takes office) results support this recipe.

fairly complete summary on the UOL site includes official data and statements, as well as those of the independent Observatório da Intervenção. On the one hand we see increases in police abuse, shootouts ( up 56% compared to last year) and mass slayings  — and of course, in the number of deaths resulting from police activity:

“Since 2007 the Rio police forces had not killed as much as they did in the year of the federal intervention. There were 1,185 victims from March to November (almost 40% more than the previous year) and everything indicates that [2018 will be a record year] in the historical series of the ISP (Instituto de Segurança Pública). The institute has compiled this data since 2003.”

On the other hand, robberies and homicides fell significantly, as did police deaths.

Hence the official explanation of these numbers, which point to a future by no means less violent than now: “In relation to crime statistics, the Public Safety Secretariat says that ISP’s initial analyses ‘point to the increase in [the number of deaths] being related to the recovery of the police forces’ operational capacity, to security forces’ activity in high crime areas and the irrational behavior of criminals when they choose confrontation’.”

Irrational criminals. Rational, one hopes, are those benefitted by a decree the new president has announced, facilitating weapon ownership. In other words, we are in a new era (which oddly, harks back in time). Before, it is believed, everyone’s lack of security was caused by bad people. Now, the security of some will depend on the insecurity of others. May the criminals put away their rifles.

In addition to hunting down bad guys, the new governor promises no mercy for the corrupt. He’s not alone. After the removal from public life of governors, state representatives (and federal representative for Rio, Eduardo Cunha) and state accounting court councillors, there remains one big piece in the state jigsaw puzzle, whereby companies and politicians kept each other in the money, with lots of people blinded by bribes: the judiciary. Impetus for this comes from jailed former governor Sérgio Cabral (he’s been talking about coming clean in this regard), as well state public prosecutors.

This phase of the local Lava Jato investigations, a sea of mud swept by a variety of currents, merits close attention. On one hand there’s popular support and support from Brasília for continued cleansing; we have the promises and intentions of the governor and of state prosecutors. On the other, politics is unlikely to cease to be an exchange of favors. Can these be kept legal? It’s hard to think of the name of a politician elected on a promise to drain a swamp who didn’t end up joining its reptile population. Nothing against real snakes and alligators.

The backdrop to all this is the state’s financial situation, which stays on its fiscal recovery regime track. Though Witzel wants distance from oldtime politics, it will be tough to move forward without them. The public pension system weighs on the shoulders of almost all the country’s elected executives. The challenge is to create a pact with legislators and society as a whole. Meanwhile, oil prices are falling (as are our royalties), yet important investments must be made in health, education and again, public safety. The Intervention was just getting started.

The day-to-day financial prognosis is not heartening, and yet there is another challenge– metropolitan public policy. The lack of a metropolitan perspective is at the root of the pollution of Guanabara Bay, chaotic public transportation and the spread of crime beyond the state capital. Just before yearend, state legislators and Governor Dornelles — three years late — finally approved a law officially creating the legal framework for this. Now all that’s missing, in the midst of a financial crisis, is to work on transportation, environment and public safety (among other areas) with a metropolitan outlook.

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O Rio de Janeiro de 2019

Horizonte belo ou ameaçador? Depende de quem você seja

Limpeza geral é a expectativa

Seria fácil prever o futuro do Rio de Janeiro se o mundo se dividisse entre bons e maus sujeitos. Como não é o caso, nos encontramos no meio de tendências e dados conflitantes, difíceis de analisar de forma panorâmica. Sim, o Rio de Janeiro acompanha o mundo todo, no quesito confusão.

Quem é Wilson Witzel, nosso novo governador? Conseguirá cumprir suas promessas, de menos corrupção, mais segurança pública, menos crise financeira? O Rio de fato se tornará um destino turístico confiável e sustentável — vocação natural (além de pólo cultural) para a economia local?

Difícil aprofundar a natureza e as verdadeiras capacidades dele. Fez promessas e nomeações (quase todas homens), resolveu extinguir a Secretaria de Segurança Pública e afirmou que mandará abater quem carregue fuzil. Admira o Israel.

Allan de Abreu, repórter da revista Piauí, analisou as sentenças do governador eleito, de quando era juiz (deixou o cargo de juiz federal no começo de 2018, para se tornar candidato). Grande porcentagem de suas decisões foram revertidas em instâncias superiores, o que indicaria, enfim, uma questionável habilidade de produzir justiça.

Precisamos, porém, de mais informações, sobre cada decisão e suas circunstâncias, sobre o ambiente no qual trabalhava (por motivos de segurança em 2011 pediu transferência para fora do estado de Espirito Santo) e suas relações na época. Precisamos saber, também, mais sobre os anos que passou como juiz no Rio de Janeiro. Como foi que decidiu se candidatar, como chegou a formar suas ideias sobre políticas públicas, quais eram e quais são, hoje, seus interlocutores?

No âmbito de segurança pública, Witzel segue a linha Bolsonaro: mais tiros —-> menos crime. Coincidência ou não, os resultados da Intervenção Federal, que termina na hora que ele assume o cargo, batem com a receita.

Um balanço bastante completo, do site UOL, inclui dados e declarações oficiais e do independente Observatório da Intervenção. Vemos, por um lado, um aumento de abusos policiais, tiroteios ( 56% comparado com o ano anterior) e chacinas  — e, claro, no número de mortes por atuação policial:

“Desde 2007 as polícias do Rio não matavam tanto como no ano da intervenção federal. Foram 1.185 vítimas de março a novembro (quase 40% a mais do que o ano passado) e tudo indica que, após dezembro, terá sido o recorde da série histórica do ISP (Instituto de Segurança Pública). Os dados são compilados pelo órgão desde 2003.”

Por outro lado, os roubos e homicídios diminuiriam de forma significativa, como também aconteceu com as mortes de policiais.

Aí vem a explicação oficial do quadro, que assinala um futuro não menos violento do que o atual: “Em relação aos índices de criminalidade, a Secretaria de Segurança afirmou que análises iniciais dos dados do ISP ‘apontam que o aumento [do número de mortes] está relacionado à recuperação da capacidade operacional das polícias, à atuação das forças de segurança na mancha criminal e ao comportamento irracional dos criminosos quando escolhem o enfrentamento'”.

Irracionais os criminosos. Racionais, é de se esperar, aqueles beneficiados pelo decreto já anunciado pelo novo presidente, facilitando a posse de armas. Ou seja, estamos numa nova era (que, estranhamente, remete ao passado). Antes, acredita-se, a insegurança de todos era fruto da “segurança” de alguns maus elementos. Agora, a segurança de alguns depende da insegurança de outros. Que os bandidos escondam seus fuzis.

Além de caçar esses, o novo governador promete clemência nenhuma aos corruptos. Não estará sozinho nesse compromisso. Após a eliminação de vida pública de governadores, deputados estaduais (e do deputado federal do estado do Rio, Eduardo Cunha) e de conselheiros do Tribunal Estadual de Contas, falta mais um grande pedaço do quebra-cabeças estadual, no qual empresas sustentavam políticos que sustentavam empresas, com muita gente cegada por propinas: o judiciário. Há impeto nesse sentido tanto do encarcerado ex governador Sérgio Cabral (falou recentemente em delação) como do Witzel e do Ministério Público.

Essa fase da Lava Jato local, um mar de lama varrido por correntezas diversas, merecerá bastante atenção. Por um lado, há apoio de Brasília e também popular pela limpeza continuada; temos as promessas e intenções do governador e o MP estadual. Por outro, a política dificilmente deixará de ser uma troca de favores. Não se sabe se há jeito de manter tais favores dentro da legalidade. É difícil lembrar o nome de algum político que se elegeu prometendo drenar um pântano que não tenha se juntado à população réptil ali abrigada. Nada contra cobras e jacarés de verdade.

O pano de fundo disso tudo é a situação financeira do estado, que continua em regime de recuperação fiscal. Será difícil mesmo agir sem os recursos da velha política, da qual Witzel tanto diz querer se distanciar. A previdência pesa nos ombros de quase todos os executivos eleitos no país. Eis o desafio: como criar um pacto com o legislativo e a sociedade como um todo? Também, o preço de petróleo cai (e nossos royalties também), porém há investimentos importantes a serem feitos nas áreas de saúde, educação e, de novo, segurança pública. A Intervenção apenas iniciou o trabalho.

O quadro do sustento dia a dia do estado desanima; o que dizer de políticas públicas metropolitanas? A falta destas é grande fator na poluição da baía de Guanabara, no caótico transporte público e no crescimento do crime para fora da capital. No apagar das luzes de 2018, legisladores estaduais e o governador Dornelles — com um atraso de três anos — finalmente aprovaram uma lei que cria, oficialmente, o arcabouço legal para isso. Agora só falta — em situação continuada de crise —  trabalhar mobilidade, meio ambiente e segurança pública (entre outros temas) de forma metropolitana.

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Security or danger: what awaits us in Rio?

Gym trainer exhorts man to relax. I can’t, he shouts; this is Brazil!

“This is the last dance… of the Titanic” said one of the participants at a public safety seminar last week, making indirect reference to the infamous luxurious last dance of the Ilha Fiscal, which took place in Rio just before independence, in 1889.

Português aqui

Dialogue has always been faulty between government officials and public safety experts, even in the good old days of pacification (2009-2013). Police resisted the changes experts recommended. Despite the drop in crime and violence statistics, it wasn’t easy to relinquish the “good criminal is a dead criminal” mindset; military police nicknamed pacification police “Smurfs”. The latter, initially newbies on the force, got special training and uniforms with blue shirts.

The abyss is bigger than ever now. Regardless of proof against its results, collected in dozens of cities around the world, including Rio de Janeiro, the newly-elected heads of state and the nation, persist in the belief that we need more violence to combat crime.

Information from the Observatório da Intervenção (Intervention Observatory) made available yesterday (with a full report coming in February), supports its conclusion that  the “Armed Forces’ federal intervention didn’t solve Rio’s structural public safety problems. What we saw was the reaffirmation of the armed conflict strategy, expenditures focused on large [military-style] operations and the absence of public safety structural reform.”

The data show increases in violent deaths and street theft, while the only crime that dropped significantly was cargo theft, indicating more emphasis on goods than lives.

Costs of the intervention, decreed in February of this year, set to end Dec. 31

Of even greater concern in Rio are signs of growing paramilitary power. Are milicianos in fact taking over the metropolis, as this article, published yesterday, indicates?

In it, author Washington Fajardo (former aide to former mayor Eduardo Paes and former president of the city’s Rio Humanity Heritage Institute) explains that given the “longtime incapacity of the Brazilian state to order urban territory, foment housing policy and provide public safety, a criminal, terrorist parallel power force developed. The milícias responded to people’s fears, offering order; they supplied pirated cable TV, providing information; met transportation needs, controlling mini-vans; then they sold basic consumer goods such as water and cooking gas.”

The deaths of city council member Marielle Franco and her driver Anderson Gomes nine months ago point to such forces’ power and brazenness. How can an investigation take so long? And when action is taken to seek evidence and arrest suspects, as was the case last Thursday, it results in huge confusion (and the possibility that targets were forewarned). Despite the activity we still don’t know who killed them or why. Names of alleged milicianos appear most in the media; Franco’s opposition to llegal milicia West Zone real estate development is said to be at the root of the crime.

Last week we saw the (almost chance) revelation of a miliciano plot to assassinate PSOL congressman-elect Marcelo Freixo (now a state legislator).

Governor-elect Wilson Witzel’s decision to abolish the state public safety secretariat raises enormous concern. Can the two police forces be managed without it? The job was tough enough with the secretariat, weaked as it was by corporatism, longtime feuds (even within each force) and corruption. Specialists –including the military folk with nine months here under their belts, carrying out the Federal Intervention — agree that we need more integration and cooperation between the Civil and Military Police forces, not less. Here’s why former secretary José Mariano Beltrame created RISPs, which helped reduce crime by encouraging cooperation and information sharing.

In a tweet, Witzel barely explained his management plans: “The end of the Public Safety Secretariat is a necessary measure. We will optimize activity, bring the forces, including the Federal Police, closer together, to effect deep investigation and get to the “drug barons”, the crime bosses, breaking apart these gangs.” In another tweet, he said that “cooperation between Civil and Military police will be a new page in the fight against organized crime in Rio de Janeiro.”

According to the G1 site, Witzel “is looking at the creation of a kind of security bureau connected to the governor’s office. The bureau will house the data-collecting Instituto de Segurança Pública (ISP), the Subsecretaria de Inteligência (intelligence subsecretariat) and the Corregedoria Geral Unificada (CGU, the internal police corrections office )”.

In his interview published today in Globo, interventor General Walter Braga Netto claims that the future governor himself will have to manage intra-police force issues (which lessened during the intervention, according to Braga Netto).

Corporatist feuds may end up less problematic than other issues. Who will be responsible for police behavior in favelas, now that the future governor has encouraged them to kill anyone carrying a rifle? How to ensure that each officer has adequate training to target (and hit) armed criminals only? Or that the shooting drones Witzel has proposed won’t be hacked, sold or themselves brought down, for improper use?

It’s worth remembering that, according to the Intervention Observatory, Military Police munitions rooms keep only paper records, using no security cameras.

Reducing the formal police forces’ management structure can dangerously increase their autonomy. We may see less transparency and accountability to society as a whole. Existing police problems — largely due to inadequate wage, work and equipment conditions (as reported in the blog) — led us to partial “solutions”, such as private security companies (many of which are owned by police), the mini-“Centro Presente”-type forces and milícias.

In other words, a worn patchwork of holes and mismatches, with weak results for all of society.

For now, we see few official proposals to create a public safety policy based on data and best practices. Meanwhile, specialists — facing closed government doors — propose, among other ideas, coming together as a united group and a focus on the protection of public school favela students.

It may also be time to work, somehow, for greater dialogue.

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Segurança ou insegurança: o que nos aguarda no Rio?

“Isso aqui é o último baile… do Titanic” disse um dos participantes de um encontro de especialistas em segurança pública, semana passada.

Sempre faltou diálogo entre governantes e estudiosos de segurança pública, mesmo nos bons tempos de pacificação (2009-2013). Policiais resistiam às mudanças recomendadas pelos especialistas. Apesar da queda nos índices de crime e da violência, continuava difícil mudar a cultura de “bandido bom é bandido morto”; policiais militares chamavam os policiais de pacificação, inicialmente novatos na corporação, com treinamento e uniforme diferenciados, de “Smurfs”.

Hoje, o abismo é maior do que nunca. Apesar de provas contra a efetividade, colhidas em dezenas de cidades pelo mundo, inclusive no Rio de Janeiro, os novos governantes, do estado e da União, persistem na ideia de precisarmos de mais violência para combater o crime.

Informações do Observatório da Intervenção, disponibilizadas ontem (virá um relatório completo em fevereiro), apontam que a “intervenção federal pelas Forças Armadas não resolveu os problemas estruturais da segurança pública do Rio. O que vimos foi a reafirmação da estratégia de confrontos armados, gastos concentrados em grandes operações e a ausência de uma reforma estrutural da política de segurança”.

Os dados mostram que mortes e roubos de rua cresceram, enquanto o único crime que diminuiu sensivelmente foi o roubo de cargas, o que demonstra uma prioridade maior para bens do que para vidas.

Preocupam mais ainda, no Rio, indícios de crescimento do poder miliciano. Será que está de fato tomando as rédeas da metrópole, como indica este artigo, publicado ontem?

Explica nele o autor Washington Fajardo, ex assessor do ex prefeito Eduardo Paes e ex presidente do Instituto Rio Patrimônio da Humanidade, que na “ausência histórica do Estado brasileiro para ordenar o território urbano, fomentar políticas habitacionais e prover segurança pública, um poder paralelo, criminoso e terrorista, foi montado e se desenvolveu. As milícias deram respostas ao medo da população, ofertando ordem; forneceram TV a cabo pirata, dando informação; resolveram a mobilidade, controlando vans; depois venderam bens de consumo básico, como água e gás.”

As mortes da vereadora Marielle Franco e de seu motorista, Anderson Gomes, há nove meses, apontam o poder e a ousadia desse setor. Como pode uma investigação demorar tanto tempo? E quando acontece uma ação para buscar evidências e prender suspeitos, como foi o caso na quinta-feira passada, surge uma grande confusão (com a possibilidade dos alvos terem sido avisados). Não sabemos ainda, apesar dessa ação, quem os matou. Nomes de supostos milicianos são os que mais aparecem na mídia. A oposição da Marielle a negócios imobiliários de milicianos na Zona Oeste teria levado ao assassinato dela e de Gomes.

Na última semana, tivemos a descoberta (quase por acaso) de um plano de milicianos para assassinar o deputado federal eleito pelo PSOL, Marcelo Freixo (hoje deputado estadual).

Suscita desconfiança enorme a decisão do governador eleito do Rio, Wilson Witzel, de extinguir a secretaria estadual de Segurança Pública. Como administrar as polícias sem ela? Já era difícil a gestão com a secretaria, enfraquecida pelo corporativismo, rixas históricas (até, inclusive, dentro de cada corporação) e a corrupção. Especialistas –inclusive os militares já com nove meses de experiência aqui, da Intervenção Federal — concordam que precisamos de mais integração e cooperação entre as polícias, não menos. Para tanto, o ex secretário José Mariano Beltrame instituiu as RISPs que, ao incentivar a cooperação e compartilhamento de informação, por um tempo contribuíram à redução do crime.

Num tuíte, Witzel pouco explicou como fará, em termos de gestão: “O fim da Secretaria de Segurança é uma medida necessária. Nós vamos otimizar as ações, aproximar as polícias, inclusive com a Policia Federal, para investigar a fundo e chegar aos “barões da droga”, aos executivos do crime, desarticulando essas quadrilhas.”  Em outro, disse que a “cooperação entre as polícias Civil e Militar será uma nova página no combate ao crime organizado no Rio de Janeiro”.

De acordo com o site G1, Witzel “estuda criar uma espécie de gabinete de segurança, que será ligado à Casa Civil. O gabinete irá abrigar o Instituto de Segurança Pública (ISP), a Subsecretaria de Inteligência e a Corregedoria Geral Unificada (CGU)”.

Na sua entrevista publicada hoje no Globo, o interventor general Walter Braga Netto afirma que, na ausência de uma secretaria, quem terá que administrar diferenças entre as polícias (reduzidas, de acordo com o general, durante a intervenção) será o futuro governador.

Rixas corporativas podem chegar a ser menos preocupantes do que outras questões. Quem se responsabilizará pelo comportamento de policiais em favelas, agora incentivados pelo futuro governador ao “abate” de quem carrega fuzil? Como se certificar de que cada policial terá o treinamento adequado para mirar (e acertar) somente traficantes armados? Ou que os drones atiradores propostos pelo Witzel não serão hackeados, vendidos ou abatidos, eles mesmos, para uso impróprio?

É bom lembrar que, de acordo com o Observatório da Intervenção, os depósitos de munição da Polícia Militar hoje contam com controles na base de papel apenas, sem câmeras de segurança.

A diminuição da estrutura formal de gestão para as polícias pode aumentar, de maneira perigosa, a autonomia destas. Podemos ver menos transparência e responsabilidade direta à sociedade como um todo. Os problemas existentes nas polícias — em grande parte, decorrentes da falta de condições adequadas salariais, de trabalho e equipamento (como já reportado no blog) — levaram a “soluções” parciais, como empresas de segurança particular (muitas das quais pertencem a policiais), as mini-forças tipo “Centro Presente” e milícias.

Trata-se de uma colcha de retalhos cheio de buracos e padrões destoantes, com resultados fracos para a sociedade como um todo.

Por enquanto, vê-se poucas propostas oficiais para criar uma política de segurança pública baseada em dados e práticas já comprovadas. No meio tempo, os especialistas — diante de portas governamentais fechadas — propõem, entre outras ideias, criar uma entidade em conjunto e lutar pelo resguardo de alunos de escolas públicas em favelas.

Talvez seja a hora de lutar, também, por mais diálogo.

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Proposal for a safer Rio: technology — or flight from human contact?

Can this work?

Boys from one of the Complexo do Alemão favelas listen to Mothers’ Day testimonies about the loss of sons to police bullets

Governor-elect Wilson Witzel declared in an interview published Sunday in O Globo that he’s never been to Rocinha favela. “I passed nearby, never went up. But you don’t need to go up to know it’s really bad there,” he said.

Para português

Witzel did nothing to soften the message; didn’t say if he has personal knowledge of any other favela. Neither did he state what exactly is bad about Rocinha. He also promised to open streets in Rio’s ten biggest favelas.

In the 2010 census we learned that more than two million people out of the state’s then-total population of 16 milllion lived in “subnormal agglomerations”, i.e., favelas. That’s 12.5% of the population. With the recession, this number may be higher today.

It’s hard to say if the new governor has ever set foot in an alley of one of the hundreds of informal areas of the state he’ll rule over (bumping into him at a restaurant last week, where he was dining at a male-only table, this blogger asked for an interview; Witzel swore half his secretaries will be women and said he was prioritizing the transition). Not that alleyways serve to fully understand favelas nor the lives of their residents, as the blog discovered in 2014.

As many UPP police must have learned, setting foot in a favela isn’t enough to bring about a definitive drop in crime and violence levels. Pacification, as implemented in some Rio favelas, never was actual proximity policing, as originally planned back in 2008.

Yes, there were soccer games and débutante balls. There were friendships and happy exchanges between residents and police. Yet we saw no protocols or lasting structures for working towards peaceful problem solving — to prevent violence and institute just and democratic behaviors for both police and residents. There were no exchanges nor collaborative projects to build trust. Residents ended up avoiding contact with UPP police.

This blogger watched and heard enough over the last eight years to conclude that “pacified” favelas lacked orientation on how to fill the power vacuum left by drug traffickers. In general, commanders and those under them improvised to fill this regulatory space. Frequently, instead of involving communities to create new, democratic problem-solving methods, they reproduced the traffickers’ prior pattern  — of maximum, unquestionable authority. Weapons topped all else.

Proximity policing implies a loss of control, some might think. Not true, if there are suitable protocols, training, and monitoring. If we’d had the chance to experience true proximity policing (as seen in many of the world’s cities), pacification would not have failed. It would have innovated, reducing crime in sustainable fashion, opening the way to other public policies that bring people together, with a range of positive results for all of society. Low-income folks suffer crime the most.

Proximity policing doesn’t solve everything. Witzel is right to say we need a stronger hand against crime. But the Rio police are ill-equipped, as this post describes. Actually, the recipe for making Rio safer is no secret. Specialists recommend sophisticated measures such as better training, equipping, paying, controlling and managing police forces; effectively using intelligence and information; integrating the judiciary and penitentiaries as actors in public safety policy and increasing the role of federal government in controlling and funding this key area of national life. One hopes the Federal Intervention has progressed in some of these areas (despite an increase in deaths). We don’t know if this is the case nor if the future governor has spoken with the generals here.

If Witzel has never been to Rocinha, intermittent locus for decades of battles among trafficking gangs and between these and police, who’s advising him on favelas and public safety? Sílvia Ramos, a key specialist in this area, doesn’t know. The  Igarapé Institute, normally part of any such conversation, isn’t involved, according to co-founder Rob Muggah. Ignacio Cano, a scholar who’s carried out important consulting projects for the state Military Police isn’t in the picture, either: “I think he has ideas of his own and a group of police likeminded officers,” he adds.

A Rio public safety specialist who preferred anonymity explains that some judges in fact are often surrounded by police officers. Police assigned to the judiciary, this person adds, sometimes build close relationships with the judges they protect. They solve problems, exchange ideas, honor them with medals, invite them to shooting ranges and to take courses with elite squad members. “At best, we’re talking about a lobby,” the person said.

Witzel’s technological approach — sharpshooters and drones flying over favelas, targeting anyone carrying a rifle — suggests advisers with limited vision. As they did during pacification, won’t traffickers adapt to the new reality of being walking targets? Back then, they went low-profile with their businesses or fled to other cities in the state, spreading violence to the West Zone and the Itaguaí-Angra dos Reis-Paraty coastal area. Nor will police bring all of them down. What happens if traffickers use residents as human shields to move around their territories?

The decision to implement such high-tech proposals, if taken, puts the responsibility on favela residents for the risks they live with daily. It will be as if the rest of Brazilian society has nothing to do with the poverty that led two million people (in Rio state) to live in informal areas, supplying cheap labor to large cities. Residents as wartime civilians, collateral damage, will have such status made formal.

Authoritarianism limits and blocks relations among people. It reinforces bubbles, minimizing the need to get one’s hands dirty, to connect with people and places that are different from one’s norm. Witzel risks, with his territorial ignorance, yet another failure for Rio de Janeiro’s public safety. He may encourage, as seen in Los Angeles and Paris, more violence, more rage and more deaths.

What about repressing the drug trade? The focus has to be on intelligence: illegal acquisition and transportation of weapons and drugs. In other words, corruption within the state’s own institutions. There, drones and sharpshooters will be of little use.

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Proposta para um Rio seguro: tecnologia — ou fuga do contato humano?

Será que dá certo?

Meninos de uma das favelas do Complexo do Alemão assistem, no Dia das Mães, a testemunhos de mães que perderam filhos a tiros de policiais

O governador eleito Wilson Witzel afirmou desconhecer a favela da Rocinha, numa entrevista publicada no jornal O Globo deste domingo. “Passei perto da Rocinha, nunca subi. Mas a gente não precisa subir para saber que lá realmente é ruim”, disse.

Witzel não amenizou a fala: deixou de dizer se conhece pessoalmente alguma outra favela. Não disse o que, exatamente, seria ruim na Rocinha. Declara também que vai abrir ruas nas dez maiores favelas do Rio.

No Censo de 2010, soubemos que pouco mais de dois milhões de pessoas da população do estado, na época quase 16 milhões, moravam em “aglomerações subnormais”, ou seja, favelas. Estamos falando de 12,5% da população. Com a crise, é possível que o número seja maior hoje.

Difícil dizer se o novo mandante jamais tenha pisado em beco ou viela de áreas informais do estado que irá governar (esbarrando com ele num restaurante semana passada, onde jantava numa mesa de companhia exclusivamente masculina, sua blogueira pediu entrevista; Witzel jurou que 50% do secretariado será mulheres e deu prioridade à transição). Não que beco sirva para plenamente entender favela nem as vidas de seus moradores, como o blog constatou em 2014.

Apenas pisar em favela, como muitos policiais de UPP devem ter descoberto, tampouco leva à queda definitiva dos níveis de crime e violência. Pacificação, como foi implementada nas favelas da capital, não chegou a ser policiamento de proximidade, como se cogitou originalmente, nos idos de 2008.

Houve jogos de futebol e bailes de debutante, sim. Houve amizades e trocas bonitas entre moradores e policiais de UPP. Faltou, porém, desenvolver protocolos e estruturas duradouras para a resolução pacífica de problemas — para prevenir a violência e instituir formas justas e democráticas de se comportar, tanto do lado policial quanto do lado dos moradores. Faltaram trocas e trabalhos em conjunto que construíssem confiança. Moradores comentaram evitar contato com os policiais de UPP.

Pelo que sua blogueira observou e ouviu nos últimos oito anos de cobertura da área de segurança pública, nas favelas “pacificadas” faltou orientação com respeito ao vácuo de poder deixado por traficantes. Em geral, comandantes e comandados preenchiam esse espaço regulatório da maneira que bem entendiam. Frequentemente, em vez de envolver comunidades na criação de novas maneiras de resolver problemas, mais democráticas, reproduziam o padrão anterior instituído por traficantes — de autoridade máxima e inquestionável. As armas continuaram a mandar.

Policiamento de proximidade implica uma perda de controle, alguns pensarão. Não é o caso, se houver protocolos, capacitação e monitoramento adequados. Se tivéssemos tido a chance de viver o verdadeiro policiamento de proximidade (como acontece em muitas cidades do mundo), a pacificação não seria o fracasso que acabou sendo. Teria sido inovadora, reduzindo o crime de forma sustentável, abrindo o caminho a outras políticas públicas que aproximam as pessoas, com uma gama de resultados positivos para toda a sociedade. Afinal, quem sofre mais com o crime é a população de baixa renda.

Policiamento de proximidade não resolve tudo. Witzel acerta quando diz que precisamos de maior firmeza contra o crime. Mas a polícia do Rio está mal equipada, conforme relata esse post. Aliás, a receita para reduzir a violência no Rio não é segredo. Especialistas recomendam medidas sofisticadas, como capacitar, equipar, remunerar, controlar e administrar melhor as polícias; utilizar inteligência e informação de forma efetiva; integrar o judiciário e as penitenciárias como atores em políticas de segurança pública e aumentar o papel federal no controle e sustento desta questão chave da vida nacional. É de se esperar que a Intervenção Federal tenha avançado em algumas destas áreas (apesar de um aumento no número de mortes). Não sabemos se é o caso nem se o futuro governador já conversou com os generais aqui.

Se Witzel desconhece a Rocinha, palco intermitente, há décadas, de batalhas entre grupos de traficantes e entre esses e policiais, quem o está assessorando sobre favelas e segurança pública? Sílvia Ramos, especialista fundamental na área, não sabe. O Instituto Igarapé, ator de peso em qualquer debate sobre o assunto, não está envolvido, de acordo com Rob Muggah, um dos fundadores. Ignacio Cano, estudioso que fez importantes consultorias para a Polícia Militar fluminense, tampouco: “Acho que [ele] tem ideias próprias e um grupo de oficiais de opinião semelhante às dele”, completa.

Um especialista em segurança no Rio, que preferiu não ser identificado, explica ser comum alguns juízes viverem cercado de oficiais de polícia. Policiais lotados no Poder Judiciário, acrescenta, por vezes constroem relações de familiaridade com os juízes que protegem. Resolvem problemas, trocam ideias, homenageiam com medalhas, estendem convites para visitar estande de dar tiro ou fazer cursos no BOPE ou na CORE. “É uma espécie de lobby, na melhor das hipóteses”, acrescenta.

O viés tecnológico das propostas de Witzel — franco atiradores e drones sobrevoando favelas, alvejando quem carrega fuzil — sugere uma assessoria de visão limitada. Como fizeram durante os anos de pacificação, traficantes não irão se adaptar à nova realidade de serem alvos ambulantes? Naquele tempo, continuaram com os negócios, de forma low-profile, ou fugiram para outras cidades do estado, espalhando violência para a Zona Oeste e a Costa Verde. Nem todos irão ser “abatidos” como Witzel gosta de dizer. O que acontecerá se traficantes usarem moradores comuns como escudos humanos, para se movimentar nos seus territórios?

A decisão de implementar as propostas high-tech, se tomada, responsabiliza o morador comum de favela pelos riscos que corre no seu dia a dia. Será como se o resto da sociedade brasileira nada tem a ver com a pobreza que levou esses dois milhões (no Rio) a morar fora do asfalto, suprindo, nas grandes cidades, mão de obra barata. Formaliza-se a condição de morador comum como civil numa guerra, dano colateral.

O autoritarismo limita — e bloqueia — relacionamentos entre as pessoas. Reforça bolhas. Minimiza a necessidade de gastar sola, de criar conexões com pessoas e lugares fora destas. O desconhecimento do território, Witzel se arrisca a descobrir, pode levar a mais um fracasso na segurança pública do Rio de Janeiro. Periga incentivar, como o mundo já viu em Los Angeles e nos subúrbios de Paris, mais violência, mais raiva, mais mortes.

E a repressão ao tráfico? O foco principal tem que ser na inteligência: as ilegalidades na aquisição e no transporte de armas e entorpecentes. Ou seja, na corrupção dentre as próprias instituições de estado. Aí, drones e franco-atiradores serão supérfluos.

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How to prepare, protect? Hard-line is here

A lawyer spoke about the young Morro dos Prazeres resident Willian Preciano, in prison for two months. Neighbors and family say police mistook his identity

If you live in a favela or have friends who do, you know about violence wreaked in them by drug traffickers, milicianos and police. Today, given an upcoming crackdown on crime by formal and informal security agents — though this position has significant support in many favelas — there is worry about the changing climate in Brazilian cities.

In a recent article, Americas Quarterly editor Brian Winter, who for some years has closely followed Jair Bolsonaro (including exclusive interviews)  predicts that “upcoming months will bring an onslaught of death.” He notes this is the PSL candidate’s top priority, i.e. “relaxing laws and rules for security forces, allowing them to shoot first and ask questions later (to an even greater extent than today, considering police already kill 5,000 people per year). The goal is to intimidate or kill drug dealers, thieves and other criminals – and thus reverse the inexorable rise in crime since democracy returned to Brazil in 1985.”

Brazilian society, says Winter, “is in the mood to pound some heads”, though most public safety specialists warn of failure since “Brazilian society has changed since the 1980s and … militarization of security has spectacularly failed in places like Mexico and Central America – and in Rio de Janeiro since February of this year.”

Instead of “pounding heads”, specialists say, crime reduction depends on sophisticated measures such as better training, equipping, paying, controlling and managing police forces; effectively using intelligence and information; integrating the judiciary and penitentiaries as actors in public safety policy and increasing the role of federal government in controlling and funding this key area of national life.

Just as Bolsonaro promises to do, a president leading such an approach would be meeting Brazilian society’s central demand to be able to peacefully live and move about the country.

Charles Siqueira, Morro dos Prazeres resident, also spoke last night

With a less sophisticated public safety policy, Winter claims, the human price will be high. Inocents will die and be tortured. Milicianos, he says, will take advantage of the situation to settle accounts and intimidate enemies. We’ll see more murder cases such as city councilwoman Marielle’s.

Português aqui 

Opponents of Jair Bolsonaro’s PSL, women, journalists, non-whites and non-heterosexuals, already report violent attacks over and above pre-first-round times. Jair Bolsonaro, himself a victim, says he cannot control his supporters. The Mapa da Violência site is receiving and publishing such reports.

Even before the Bolsonaro waveconstitutionally protected human rights were not a given in Rio de Janeiro. Last night, Morro dos Prazeres favela residents held a protest to defend the young William Preciliano, said to be wrongfully arrested two months ago. Such arrests in the favela have occurred twice before.

During the protest, this blogger asked human rights defenders present about strategies for what promises to be a new PSL era. Some, awaiting second-round results, doubt that Rio will actually come to be governed by the ideology of Bolsonaro’s party. Others trust the continued power of denouncing illegalities.

Of course government institutions and NGOs working in this area won’t give up on defending society’s weakest members. Even if the PSL dominates the state legislature as of 2019, we did see the election of five black women to it. Along with colleagues, they’re likely to defend the rights of those suffering the collateral damage of the expected hardline public safety policy. The press, which began covering informal urban territories in a more complete fashion starting in 2008, with pacification, will also play an important role in the clashes and teeth-gnashing that await us.

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