Tiroteios por todo lado, exército na Rocinha: o que acontece?

Buraco muito mais em baixo

Relíquia do lado de fora da secretaria de Segurança Pública: sinal dos tempos?

Fracasso das UPPs resulta de gestão questionável

Segurança é um serviço que, diferente de moradia, saúde e educação, não se presta a soluções diferentes, uma para ricos, outra para pobres.

Isso porque ao construir muros, pagar milicianos, comprar armas, contratar segurancas, escurecer vidros e viver em bolhas acabamos por esbarrar no fato de morarmos num lugar só, a cidade. Os fenômenos sociais e políticas envolvem a todos, sejamos ou não conscientes disso. A parálise da metrópole ontem é a maior evidência atual disso.

Só que o Rio de Janeiro até hoje agiu como se fosse possível tratar a segurança com a mesma abordagem dupla com a qual tratamos os outros serviços das quais dependemos.

Feudos 

Ontem o Rio de Janeiro — sobretudo a Rocinha— fervilhava de tiroteios, suscitando muitas perguntas. O que está acontecendo? Onde foi o erro? Há conserto?

Portanto, sua blogueira resolveu compartilhar informações que vem reunindo, no preparo de um post redondo, mais adiante, sobre gestão policial. O assunto veio à tona nas entrevistas para o livro que agora ficou pronto*. De acordo com o professor Ignacio Cano, consultor e pesquisador em reforma policial, coordenador do Laboratório de Análise da Violência, um fator grande no fracasso das UPPs foi a decisão de trazer o programa — até então independente–  para dentro da administração geral da Polícia Militar, no fatídico ano de 2013 (Agora, diz Cano, a decisão de levar as UPPs para dentro das batalhões, deu o golpe mortal num programa que propunha espalhar o policiamento comunitário).

Dentro de pouco, o blog trará informações mais detalhadas, com mais pontos de vista. Por enquanto, a hipótese é de que as polícias são colchas de retalhos compostas de pedaços dissonantes e mal costurados. Especialistas e ex policiais dizem que muitos desses pedaços funcionam como feudos para diversos oficiais, terrenos férteis para a corrupção. Afirmam que falta controle nas forças policiais, que o poder do secretário de Segurança Pública reside apenas na capacidade de trocar os comandantes da Polícia Civil e da Polícia Militar.

Nesses terrenos, há adubo de sobra para desvios. Se a Procuradora Geral da República, Raquel Dodge, aprovar o pedido de ontem do ministro da Justiça Raul Jungmann, para que seja criado uma força tarefa para investigar o crime organizado no Rio, podemos ter mais uma onda de revelações impactantes no território fluminense.

Segurança sem sistema de segurança para si mesma

De acordo com Sílvia Ramos, também consultora à polícia e coordenadora do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania, CESeC, as salas em que a Polícia Militar guarda suas armas não contam com câmeras de segurança. As munições são distribuídas com pouco controle: pedidos constantes não são questionados. A entrada de veículos nos batalhões é registrada em papéis impossíveis de serem consultadas, no caso de querer saber, posteriormente, quem frequentou o local. Até os boletins de ocorrência, preenchidos na rua, não passam por controle adequado.

“Se as Lojas Americanas funcionassem assim”, conclui Sílvia, “iriam à falência”.

Os policiais não contam com tratamento psicológico adequado e não há, praticamente, um departamento de recursos humanos. Lembremos que os policiais das UPPs, mesmo nos tempos aúreos, trabalhavam em contêineres quentes, com difícil acesso a banheiros.

Nem se fala de salários atrasados, mortes policiais, armas disfuncionais ou dos desencontros infantis e repetitivos entre os governos federal e estadual, mais o longo silêncio do prefeito Marcelo Crivella.

Quem sabe, o exercício físico faça bem 

Fique sabendo, leitor, que os elevadores na secretaria de Segurança Pública, acima do Central do Brasil, estão parados. Pela lei, não podem funcionar sem contrato de manutenção. E nenhuma empresa se interessou em assinar um contrato, pois é grande demais o risco de ficar sem receber. (Para piorar, como veremos num post mais adiante, o Plano de Recuperação Fiscal do estado é bastante frágil)

Esse é o ambiente em que se propõe trabalhar com inteligência, em conjunto com as forças armadas — para prender criminosos e baixar os níveis de violência.

Há saída? Um cenário bonito porém improvável seria a aceitação da segunda denúncia da Procuradoria Geral da República contra o presidente Michel Temer, com a acensão temporária de Rodrigo Maia, deputado do Rio, à presidência. Quem sabe, ele resolveria se destacar, já no cargo, no papel de salvador da Cidade Maravilhosa. Maia já se mostrou interessado no assunto, por assim dizer.

De outra forma, a solução tomará vulto a longo prazo, com a renovação da política e o convencimento lento da população de que a segurança pública precisa ser um único guarda-chuva para proteger a todos.

*Sua blogueira terminou de escrever o livro que a ocupou nos últimos três anos (Rio Real: quem manda e como manda numa cidade em transformação, os anos Cabral-Paes) e está de volta aqui a todo vapor. Posts a caminho: polícia, gestão/corrupção; jovens de periferia hoje, orfãos de editais; a viabilidade do Plano de Recuperação Fiscal; Câmara dos Vereadores, novo papel no âmbito metropolitano? — e muito mais.

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Old Cidade Nova is new again

Owner of a restaurant, one of many abuzz at lunchtime in Cidade Nova, in downtown Rio de Janeiro

Rio is done for… Except it’s not!

With so many new skyscrapers built in the last ten years, you’d think that the downtown neighborhood of Cidade Nova (New City) was actually new. But the name harks back to the nineteenth century!

The new-not-newness is lucky for people who work in the skyscrapers. They were plunked down in the midst of some very old streets, until recently left on the margins of urban life (aside from Carnival, as they border on the Sambadrome, where the parades take place).

Restored townhouses on Salvador de Sá Avenue

In the midst of the economic downturn, we bet on the simpler things of life: coffee among friends. It happens that the Astúcia Coffee entrepreneur, Australian Daniel Hobbs, introduced this blogger to a longtime neighborhood resident, retired Swiss diplomat Ferdinand Isler.

By no coincidence, American urban activist Jane Jacobs (author of Death and Life of Great American Cities) immediately popped up in the conversation, fueled not only by coffee but also a delicious (and inexpensive) banana cake, baked by Ferdinand’s neighbor. He’s one of those residents whose existence strengthens the urban fabric– he knows everyone. He embodies the “eyes on the street” that Jacobs identified as vital to urban health.

Ferdinand with the owner of a café whose back room contains a surprise

Thus ensued a visit in the best Swiss-Brazilian style: a race to see cafés and restaurants before the lunch hour noon rush, punctuated by hugs, smiles and comments on soccer and Fernando’s clothing. Apparently he usually dresses more casually.

In the café’s hindmost room, a clothing business, making novela and samba school costumes

This blogger was initially confused between the Portuguese words confeitaria (bakery) and confecção (clothing factory). The confusion dissipated with the walk back into the depths of the narrow townhouse, past cakes and pies in various stages of preparation. At the end, two sewing machines chugged away.

Impossible to forget samba in Cidade Nova, where the Estácio samba school is located. Nearby is Praça Onze, “cradle of the samba”, practically razed by Getúlio Vargas in 1941.

For decades, Cidade Nova was known as Rio’s red light district. Once the “Teleporto” office building was finished in 1996, then-mayor César Maia transferered hundreds of sex workers to Vila Mimosa, near the Praça da Bandeira.

Cidade Nova retains a sort of transgressive spirit. Today, a Middle Eastern restaurant comes up with all kinds of delicious mixtures.

Funny pictures bring welcome lightness to lunchtime

Of course Cidade Nova was revitalized during the boom years of the Eduardo Paes and Sérgio Cabral administrations. Today, new businesses do all they can to attract and keep clients: events, deliveries, cooking classes, catering, breakfast, baskets.

Camels from the desert approaching the Lapa Arches, which used to be an aqueduct!

Another restaurant allows clients to post notices, right

Small-town feeling

Despite tight budgets, it might be worth it to burst the bubble so many people stick to, in the South Zone and downtown. How about expanding your personal geography and checking out Cidade Nova, next time you plan coffee or lunch? More photos:

This blogger ate too much banana cake …

Ferdinand shows a charming detail of the old architecture, a fountain, perhaps for horses?

Rio or Paris?

Not Botafogo, Humaitá or Lapa

This spot has an explanatory beer menu, almost an encyclopedia

Restored townhouses; now just to get those wires underground…

Rua Correia Vasques

Mini and maxi sweets

Another townhouse, retro style

Variety of architectural and décor solutions, as well as menus

Life does go on, despite the recession

Jars for light; tiles bring the past to the present

Open kitchen

Ceilings made for giants

Really truly old-fashioned

Another sort of retro

There’s a restaurante behind the church!

These ladies sell the banana cake in front of #5, Rua Viscondessa de Pirassinunga

 

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A velha Cidade Nova se renova

O proprietário de um restaurante, entre muitos, que fervem na hora do almoço na Cidade Nova, centro do Rio de Janeiro

O Rio acabou… só que não!

Por causa da abundância de arranha-céus novos, erguidos nos últimos dez anos, poderia se pensar que a  Cidade Nova fosse mesmo nova. O nome do bairro, porém, remete ao século XIX!

É a sorte de quem trabalha nesses prédios essa condição de nova/não-nova. Pois os escritórios estão fincados pertinho de ruas tradicionais, até há pouco tempo na margem da vida urbana (exceto no Carnaval, por serem vizinhas ao Sambódromo).

Casarões restauradas, na avenida Salvador de Sá

No meio da crise, valorizamos as experiências mais simples da vida: um café entre amigos. Acontece que o empreendedor do Astúcia Coffee, o australiano Daniel Hobbs, apresentou à sua blogueira um morador de longa data do bairro, um diplomata suiça aposentado, Ferdinand Isler.

Não por acaso, o nome da urbanista amadora, a norte americana Jane Jacobs (autora de A vida e morte das grandes cidades americanas) logo surgiu na conversa, alimentada não apenas por café, mas também por um delicioso (e barato) bolo de banana, assado por uma vizinha do suiço. Ferdinand é um daqueles moradores cuja existência fortalece o tecido urbano: conhece todo mundo. Incorpora os “eyes on the street” (olhos para a rua) os quais a Jacobs identificou como sendo vital à saúde urbana.

Ferdinand com o dono de um café cujos fundos abrigam uma surpresa

Logo começou um giro no melhor estilo suiço-brasileiro: uma correria para conhecer os cafés e restaurantes antes do rush do meio-dia, pontuada por abraços, sorrisos e comentários sobre futebol e a indumentária do guia, Fernando. Aparentemente, ele costuma se vestir de maneira mais informal.

Nos fundos do café, uma confecção, de figurinos de novela e fantasias para escolas de samba

Sua blogueira ficou confusa, inicialmente, entre as palavras “confeitaria” e “confecção”. A confusão se desfez quando adentrou o casarão estreito, passou por bolos e tortas em vários estágios de elaboração, e chegou nos fundos, onde duas máquinas de costura estavam em plena ação.

Impossível esquecer do samba na Cidade Nova, onde fica a quadra do Estácio. Ali perto encontra-se a praça Onze, berço do samba, praticamente destruída por Getúlio Vargas em 1941.

Durante décadas, Cidade Nova era conhecida como zona de prostituição. Depois de ficar pronto o prédio empresarial “Teleporto”, em 1996, o então prefeito César Maia transferiu centenas de trabalhadores do sexo para a Vila Mimosa, perto da praça da Bandeira.

Um certo espírito transgressor ainda reina na Cidade Nova. Hoje, um restaurante de comida árabe faz uma mistura deliciosa em todos os sentidos.

Os quadros engraçados dão um toque bem vindo de leveza à hora do almoço

Cidade Nova se renovou, é claro, em função do boom dos anos Paes-Cabral. Hoje, os empreendimentos fazem de tudo para atrair e manter a clientela: eventos, entregas, aulas de culinária, buffet, café da manhã, cestas.

Camelos de um deserto, justamente nas proximidades dos Arcos da Lapa, um antigo aqueduto!

Outro restaurante oferece um quadro de avisos para os clientes, à direita

Ar de cidade de interior

Apesar do aperto no bolso, pode valer a pena furar a bola na qual tantos convivem, de Zona Sul/Centro. Que tal expandir a geografia e dar um confere na Cidade Nova, a próxima vez que marcar um café ou almoço? Veja mais fotos, a seguir:

Sua blogueira havia exagerado no bolo de banana …

Ferdinand mostra um detalhe cativante da arquitetura antiga, uma fonte — ou bebedouro para cavalos?

Rio ou Paris?

Não é Botafogo, nem Humaitá ou Lapa

Esse local tem um cardápio explicativo, praticamente uma enciclopédia, de cervejas

Casarão restaurado; só falta enterrar os fios…

Rua Correia Vasques

Doces mini e maxi

Outro casarão, estilo retrô

Variedade de soluções arquitetônicas e de decoração, além de cardápios

A vida continua, apesar da crise

Vidros iluminam; azulejos trazem o passado para o presente

Cozinha aberta

Pé direito para gigantes

Como antigamente, mesmo, ainda

Outro retrô

Existe um restaurante nos fundos da igreja!

O bolo de banana é daqui, dessas senhoras, em frente ao número 5 da rua Viscondessa de Pirassinunga

 

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Trecho adaptado de livro inédito de sua blogueira!

Texto longo, porém leve e engraçado, com várias supresas.

Leia aqui, na Revista Trendr:

https://trendr.com.br/olimpiadas-algo-podre-na-dinamarca-o-destino-das-figuras-chaves-da-candidatura-rio-2016-a22fbce33d27

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Real life in Rola Um, West Zone

A two-hour journey from the South Zone, by metro and BRT

Thais Santos and her aunt Edmar, who loves to travel with the women of her church

The spread-out one-story houses in Rola Um aren’t a favela. Thais Santos, who grew up there, calls Rola Um a comunidade, or community. The Instituto Pereira Passos, which analyzes municipal data, calls it a loteamento, or urban allotment. Homeowners purchased their land on the formal real estate market.

Whatever the label, Rola Um has changed a great deal, according to people who’ve lived there quite a while.

“It was all scrub,” says Eugênia Luisa de Boa Morte, 94 years old, recalling her arrival, so many years ago that when she mentions ten or 20 years her granddaughter Thais corrects her: “I think it’s 40, Grandma. I’m 25 and you already lived here when I was born.”

“Now we have everything,” continues Eugênia, who already has a great-great-grandchild. “Even criminals, lots of ’em.”  Her children, she says, — and she’s the mother of nine living offspring, out of 12, total — “are scared to death of coming here.”

Terminal Alvorada, Barra da Tijuca: crux of the Transoeste and Transcarioca BRTs, stopoff on the way to Santa Cruz

Both of Thais’ grandmothers live on land large enough for a second home, for relatives who ease the difficulties of aging.

Thais, who now lives in Campo Grande, studies phys ed and is part of a theater troupe. On an August Saturday, she took this blogger to see Rola Um. Actually, to see her quite large family.

The interviewees said they coexist peacefully with the aforementioned criminals. In their hearts and minds, however, Thais’ relatives divide the community into good and bad folks; on a daily basis this means keeping children from playing in the street. “Everyone goes inside, we stay at home,” when the cops and robbers start shooting, says Thais’ other grandmother, Ana Ferreira dos Reis, 78 years old, originally from Itaguaí. “I don’t even want to know about it.”

Only two months ago, the community had a day of terror, resulting in the death of an alleged drug trafficker. According to residents, the police appear and bullets fly only when the criminals don’t keep their part of financial deals.

“People leave, there are abandoned homes,” says Thais’ aunt, Edmar Margarida Ferreira dos Reis. According to her and other relatives, the Comando Vermelho moved into Rola Um and Rola Dois long ago, but the violence began to spike in 2014. There’s a little park, center of the Rola Um drug traffic. When members of Edmar’s church went into the community to do missionary work, they lasted ten minutes, deeply upset by what they saw of traffickers and young girls.

A courageous bakery owner, with relatives who’ve returned to Minas Gerais, tells the story of a trafficker who showed up some time ago, ordering coffee. “I don’t serve coffee here,” she answered. “The coffee I have is just for me and my husband.” The unwelcome customer gave up.

On the day of this blogger’s visit, the only sign of criminal activity were CV lettering on some walls and pieces of barricades in the streets. Thais, at first fearful of going into an a trafficking stronghold, took heart. The houses were different from her relatives’. Smaller, without yards, on potholed streets, music emanating from a parked car. A little park, temporarily filled with amusement park rides. A nightclub– the baile funk venue, Thais said. And then we’d come to the avenue, where this blogger got back on the BRT to return to the familiar blocks of the South Zone.

Two hours’ travel, on bumpy, cracked asphalt were enough to note homeless folks sleeping in the lee of BRT stations– and to reflect on how much Rio de Janeiro has changed since this gringa’s first arrival, in 1978 — just about when Thais’ grandmothers were building their homes in Rola Um.

Grafitti at the Alvorada Terminal

Thais with her 94-year-old grandmother, who migrated from Minas Gerais

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A vida como ela é, Rola Um, Zona Oeste

Viagem de duas horas, da Zona Sul, por metrô e BRT

Thais Santos e a tia dela, Edmar, que adora viajar com as mulheres de sua igreja

Não é favela, o Rola Um, local espraiado de casas suburbanas. Thais Santos, que lá foi criada, chama o Rola Um de “comunidade”. O Instituto Pereira Passos, que analisa dados da cidade, chama de “loteamento”. Os proprietários compraram seus lotes pelo mercado imobiliário formal.

Qualquer que seja o rôtulo, Rola Um já mudou bastante, de acordo com moradores de longa data.

“Era tudo mato”, lembra Eugênia Luisa de Boa Morte, 94 anos, sobre os tempos quando ali chegou. Quando menciona estar no Rola Um há dez ou vinte anos, a neta lhe corrige: “Acho que faz 40, vó. Eu tenho 25 anos e a senhora já morava aqui quando nasci”.

“Agora tem de tudo”, continua Eugênia, que tataraneto já ganhou. “Até bandido, à vontade”.  Diz que os filhos — e ela é mãe de nove, vivos, dos doze que nasceram — “Morrem de medo de vir aqui”.

Terminal Alvorada, Barra da Tijuca: ponto de encontro dos BRTs Transoeste e Transcarioca, a caminho de Santa Cruz

Thais, que hoje mora em Campo Grande, estuda educação física e faz teatro. Num sábado de agosto, levou a sua blogueira para conhecer o Rola Um. Para conhecer a família, na verdade — que é grande.

As duas avós moram em terrenos grandes o suficiente para construir uma segunda casa, abrigando parentes que ajudam a amenizar as dificuldades de envelhecer.

Os entrevistados disseram conviver pacificamente com os tais bandidos. Na cabeça e no coração, porém, dividem a comunidade entre bons e maus– e, no dia a dia, não deixam as crianças brincar na rua. “Todo mundo entra dentro de casa, cada um se recolhe e fica na sua casa”, quando há tiroteio entre traficantes e policiais, conta a outra avó de Thais, Ana Ana Ferreira dos Reis, 78 anos, que veio de Itaguaí. “Quero nem saber”.

Há apenas dois meses, a comunidade viveu um dia de terror, que resultou na morte de um suposto chefe do tráfico. De acordo com os moradores ouvidos, a polícia entra e os tiros voam apenas quando os criminosos deixam de cumprir acordos financeiros.

“Gente vai embora, há casas abandonadas”, conta a tia de Thais, Edmar Margarida Ferreira dos Reis. De acordo com ela e outros familiares, o Comando Vermelho começou há muito tempo a ocupar pedaços do Rola Um e do Rola Dois, mas a violência cresceu a partir de 2014. Existe uma praça, foco do tráfico no Rola Um. Quando membros da igreja de Edmar chegaram na comunidade para um trabalho missionário, diz ela, correram para casa após dez minutos  — perturbadas pelo cenário de meninas com traficantes.

A corajosa dona de uma padaria, parente de moradores que voltaram para Minas Gerais, conta a história de um traficante que apareceu tempos atrás, querendo um café. “Não sirvo café aqui”, ela respondeu. “O café que tenho é apenas para mim e meu marido”. O freguês indesejável desistiu.

No dia da visita de sua blogueira, os únicos sinais de criminosos eram iniciais CV em alguns muros e restos de barricadas nas ruas. Thais, que inicialmente tinha medo de adentrar uma área onde o tráfico é forte, tomou coragem e expandiu o território do passeio: as casas eram diferentes das de seus familiares. Menores, sem quintal, em ruas esburacadas, música tocando pelo som de um carro estacionado. Uma praça, ocupada, naquele momento, por brinquedos de parque de diversões. Uma boate, local do baile funk, disse Thais. E logo chegamos na avenida, onde sua blogueira embarcou no BRT, de volta aos quarteirões conhecidos da Zona Sul.

Duas horas de viagem, por asfalto ondulado e rachado, foram o suficiente para reparar nos moradores de rua dormindo ao lado de estações de BRT– e para ponderar quanto o Rio de Janeiro mudou desde a primeira chegada dessa gringa no Rio de Janeiro, em 1978 — bem quando as avós de Thais construiam suas casas no Rola Um.

Grafite no Terminal Alvorada

Thais com a avó de 94 anos, que migrou de Minas Gerais

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Active silence

Rio is done for… Except it’s not

Rocinha, seen on a winter afternoon from the Dois Irmãos mountain

It’s tough to read the lack of noise, after years of great activity. But the silence in Rio, both this blogger’s as well as that of many others, is no hollow space. We’re lost in thought. How did we get here? What are the important questions? What works? What gets you nowhere?

Soldiers patrol the deserted Olympic Boulevard, part of the revitalized Porto Maravilha, on a Monday morning

Raull Santiago is an untiring Complexo do Alemão activist, married and father of four. He helped lead the resistance to the police invasion of private homes in the Complexo, which lasted from January to April of this year. At the surface of facts alone, the situation was clear. The police had no legal right to take over the houses.

Every day we perceive that no situation is black or white. The police claimed the invasion was needed to protect its men and fight heavily armed drug traffickers. To occupy territory.

Despite the invasion’s obvious unconstitutionality, it took months for the police to vacate the homes and for the state Public Defender’s office to indict the commander at the state’s Military Justice Board. A decision is pending.

The revelations seen since the Mensalão congressional scandal broke in 2005 aren’t just about corruption and crooked politics. Like never before, the daylight emanating from investigations and plea bargains also shines on social inequality. The great challenge– maybe an impossible mission– is to figure out where to start righting wrongs, which strand to pull first from the Brazilian tangle. The Alemão police invasion was built on drug traffic, which was built on problematic police and politicians and a long tradition of ignoring housing needs. Which was built on slavery. The lack of health and education are in there somewhere, too.

It’s no coincidence that this year’s FLIP, the Paraty literary festival, focused on racism and the life and work of black author Lima Barreto, who lived in Rio de Janeiro during his short life, from 1881 to 1922.

The skein’s knotted tangle feeds polarization. We seek and we come up with easy solutions. We mistrust everything and everyone. “Either you’re on the side of the police or on the side of the criminals,” is the slogan slowly taking the place of the old “a good criminal is a dead criminal.” In this dichotomy, poorer residents are left in the grey area of collateral damage.

That’s how it was July 31, when the state Prosecutor’s Office held a public hearing on public safety. On the plus side, it was a new approach, a chance for dialogue. But the participants divided neatly into two cheering squads, one for order and one for human rights. Security staff had to keep apart a prosecutor and a member of a group defending favela residents’ rights. Another prosecutor, together with some police officers, presented military schools as a public safety solution.

The Carwash investigation has begun to touch those who used to protect themselves in the justice system’s shadowy reaches. But there are still delays, sudden and morally inexplicable twists. This is tiring, to say the least.

Raull Santiago was happy when he heard the news about the Alemão commander and the end of the house invasions. But the Rio environment is so heavily charged that his broken cell phone spurred a Facebook outburst the other day, titled “Crisis”, in which he wrote of:

“… being favela-born and moving to guarantee the right to life and other rights, ending up being categorized as part of some of these labels, such as “periphery social movements”, the way this stuff takes problems to the tenth power or much more. There are thousands of tiny things. All extreme. All serious. All I can do is think of the Racionais (musical group) singing: ‘Every favela resident is a universe in crisis’. And we truly are. And I don’t even know if some day this will end. I only know we’ll keep on trying to change the game of real life. From the bridge to here, not everyone can take it. And lots of people jump off that bridge.”

A person who has worked with youth for years went beyond Raull’s outburst. The person confided to RioRealblog about having doubts regarding the impact of any attempt to work on social issues. Public policies to address social issues are the main demand of those who reject the violence of  “collateral damage” in relations between society and the police.

Cecília Olliveira, who with her Fogo Cruzado app took on the mission of tracking and quantifying shooting across Rio, confessed dismay in a public exchange of messages with RioRealblog, on Twitter: “We’re tired. Very, very tired. we keep trying… but I can’t see a bright horizon,” she wrote.

On the other side of the equation people might not be jumping off bridges, as Raull mentioned, but they’re throwing in the towel. In line at the book signing yesterday for Mais Forte: Olimpíadas seguras em meio ao caos (Fortis: Safe Olympics in the Midst of Chaos, soon available online in English), a 50-year-old retired military police officer said his elderly mother is the only reason he’s not moving to Portugal. He keeps thinking about a friend, also a retired officer, who’s made the move. The conversation was initiated by a carioca asking if Rio’s problem might not be the cariocas themselves. He lives alone in Rio; his family prefers another city.

Meanwhile, federal troops arrived here; last Saturday they carried out a totally new kind of operation, blocking the access to some North Zone favelas for a day. The idea was to reduce cargo theft (which this year has mushroomed) and drug traffic. The results weren’t a huge success, but they caused only two deaths. Unlike as was done with pacification (discredited for at least a year), security officials say they have no intent to occupy favelas or to even stay long in once spot. “We don’t want to merely inhibit organized crime. We want to undo it, destroy it, cut off its ability to function,” said Defense Minister Raul Jungmann.

It would be nice if this happened. But few cariocas have shown confidence in the military or support for the new strategy. They’re worn out and indignant. They are soul searching.

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