Cai a casa no estado do Rio: dia três

Momento histórico ou passageiro? Relógio na sede da SuperVia (cujos trens ainda atrasam)

Vai colar?

O presidente da assembleia legislativa, Jorge Picciani, fez quarta-feira seu depoimento coercitivo e saiu da Polícia Federal um homem livre. As prisões dos cinco conselheiros do Tribunal de Contas do Estado são preventivas; a não ser que sejam prorrogadas pela justiça, eles podem muito bem voltar a sentar, semana que vem, na corte.

Pouca gente sabe que a rede de favores delatada pelo ex presidente do tribunal, Jonas Lopes, cresceu no terreno fértil de um sistema de nomeações para a banca que julga as contas do parlamento, do governador e dos gastos estaduais em geral.

Três conselheiros do TCE são indicados pelo governador e quatro, pela Assembleia Legislativa, a Alerj. O conselheiro que tem menos chance de ser dobrado pelos políticos que fiscaliza é aquele único, nomeado pelo governador, que tem que ter feito carreira no Ministério Público estadual. Não por acaso, há uma conselheira apenas, entre os sete atuais, até hoje intocada pelas investigações em curso: Marianna Montebello — que veio do MP.

Enquanto já esquenta a corrida para ocupar a cadeira daqueles que dormem, pelo menos por algumas noites, em Bangu, O Globo de ontem trouxe a notícia de que a OAB propõe mudar esse sistema.

O sistema de nomeações é um adubo tão proveitoso  para atos ilícitos que o delator Lopes saiu do país há alguns dias com a família toda, por ter sido, alegadamente, alvo de uma ameaça de morte. O Supremo Tribunal de Justica aprovou uma estadia de 40 dias.

Talvez esse período seja lembrado, pelos históriadores, como o tempo da conscientização do povo brasileiro sobre a institucionalização dos privilégios para ricos e das barreiras aos pobres.

Para quem quiser viver, ao contrário, no momento, é oportuno apostar sobre a corrupção ainda a ser oficialmente revelada. O presidente da Federação das Empresas de Transportes de Passageiros do Estado do Rio, Lélis Teixeira, também foi levado a depor, coercivitamente, na Polícia Federal. Reportagens locais apontam acordos e propinas entre o TCE e a Fetranspor.

Anúncio no Globo de hoje. A Odebrecht também se defendeu assim

Hoje, a federação publicou um anúncio de meia página, negando qualquer crime, admitindo a existência de uma “investigação dos crédito expirados do RioCard” (a Fetranspor teria embolsado R$ 90 milhões em créditos expirados), com a matéria “sob apreciação do Poder Judiciário”.

E os ônibus municipais? Um antigo funcionário da Câmara Municipal contou ao RioRealblog ter visto, nos anos 1990, uma lista de deputados estaduais e vereadores municipais que recebiam “salários” das empresas de ônibus, muita vezes maiores do que os proventos do serviço supostamente público.

Foi por causa de um aumento na tarifa, de vinte centavos, que milhares de pessoas foram para a rua protestar, em 2013. Fatos estranhos se sucederam: abortou-se uma CPI dos ônibus da Câmara Municipal e sumiu uma auditoria independente das empresas, prometida em 2014. Até hoje, não se sabe os receitas e gastos reais das empresas de ônibus, nem os motivos pela falta de transparência — enquanto a tarifa sobe todo ano. Tudo isso na gestão de Eduardo Paes, hoje residente em Nova York. Ele é citado, supostamente, em uma delação da Odebrecht, das investigações Lava Jato.

É bom lembrar, falando em transportes, que um dos filhos de Jorge Picciani, Rafael, foi secretário de transportes muncipal durante parte do governo de Eduardo Paes, presidindo a mal conceituada e implementada racionalização dos ônibus muncipais de 2015 e 2016, transtorno para milhares de passageiros.

Outro filho, Leonardo, é ministro dos Esportes no governo Temer.

Onde mais borbulha lama? Não seria surpresa se a corrupção explicasse boa parte das dificuldades dos governos no Brasil em atender às necessidades básicas do cidadão: saúde, educação, segurança pública, moradia. Ou seja, praticamente tudo.

Os grandes eventos e a bonança do petróleo exacerbaram um comportamento habitual; até o Maracanã foi entregue aos barões da malvadeza.

Ontem, Jorge Picciani já presidiu a Alerj. Foi aplaudido; disfrute de relações excelentes com políticos de todo estirpe. “O Picciani nunca te abandona e não te deixa faltar nada”, diz um prefeito fluminense, no marcante perfil por Malu Gaspar, na revista Piauí, agora aberto para não assinantes.

Malu continua a apurar a execrável sujeira da política estadual. “Quem conhece os detalhes das transações feitas no governo estadual com o aval do TCE aposta que virão à tona revelações sobre reuniões secretas, de que participavam integrantes do tribunal, realizadas com o objetivo de liberar recursos para fornecedores afetados pela crise financeira do estado. Deve ficar mais claro, também, como a poderosa federação das empresas de ônibus exerce influência sobre o mundo político do Rio”, escreveu num post online da Piauí, publicado quarta-feira.

A lama vai subindo à superfície e os cariocas e fluminenses medem confiança contra desconfiança, exercício típico aqui. Por um lado, Adriana Ancelmo, mulher do ex governador Sérgio Cabral — que estaria elaborando uma delação (de quem, afinal, muitos perguntam)– foi para casa na quarta-feira para cumprir prisão domiciliar, ao lado dos filhos (que não podem usar nem internet nem telefone celular, parte da sentença). Por outro, o juiz Sérgio Moro condenou o ex deputado Eduardo Cunha a mais de quinze anos de prisão, em apenas uma das ações contra ele.

Será que tudo isso se trata de uma mera dança de cadeiras, com novos corruptos a substituir os antigos? Que o pouco caso para o bem maior esteja no DNA do povo inteiro? Muitos brasileiros, desgostosos, fazem as malas.

Pode ser, porém, que os emigrantes percam o impacto positivo e de longo prazo de um sistema judiciário que começa a funcionar como nunca antes. Pode ser que estejamos testemunhando um momento divisor de águas. Alguns brasileiros — como os fundadores do novo movimento Agora — ficam aqui, para se dedicar ao aprofundamento da democracia e do capitalismo responsável.

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Today’s arrests reveal web of interests, vacuum


The state assembly, presided over by a suspect politician: can state finances ever be straightened out?

The recent news that earthquakes may be caused by a large number of seemingly unconnected faults, is a wonderful metaphor for Brazilian politics right now.

Clique aqui para português. 

Today’s arrest of five Rio de Janeiro state accounting court councillors, together with the forced deposition of state assembly president Jorge Picciani, is part of a larger rupture that leaves practically bankrupt Rio without leadership or direction.

Governor Luiz Fernando “Pezão” de Souza has kept a low profile, appearing only to propose surreal plans, given the situation, such as extending the metro from Barra to Recreio.

Making predictions is dangerous at the national level but there is a possibility that the Dilma/Temer electoral slate will be judged next week to have been elected on the basis of criminal acts — removing Temer from office. At very least one can say that personal and institutional survival in Brasília will trump any thought of helping Rio state to achieve solvency.

According to the O Globo newspaper, “The plea bargain of former accounting court president Jonas Lopes de Carvalho Filho led to the arrest of the five councillors for their parts in at least two bribery schemes regarding wrongful acts committed by construction and bus companies that operate in the state. Targets of preventive arrest include councillors Aloysio Neves (current president); Domingos Brazão, José Gomes Graciosa, Marco Antônio Alencar and José Maurício Nolasco.”

Today’s sweep left out one remaining councillor, Marianna Montebello. According to old press reports, Montebello, daughter of municipal accounting court president Thiers Montebello and wife of electoral court judge Flávio Willeman (who judges politicians),  is said to have been elected to her post with Picciani’s support.

Nolasco was president of the much-criticized water and sewage company CEDAE in the 1990s, when state company privatizations were being carried out by the brother of one of the councillors arrested today — Marco Antônio Alencar– Marco Aurélio de Alencar, when he was state Finance Secretary at the time that Marcello Alencar, their father, was governor.

Tectonic plates are shifting and faults, large and small, appear. While the Rio state and federal governments shake, it’s more than ever up to civil society and public institutions working in the areas of monitoring, information, citizenship and justice to pick up the pieces — so we can all move forward.

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Prisões hoje no Rio revelam alto grau de conluio, deixam vácuo

A Alerj, presidida por um político suspeito: como sanear as contas estaduais?

A notícia, há dias, de que terremotos podem ter como causa um grande número de falhas, sem aparente conexão, espelha o momento político atual no Brasil.

A prisão hoje de cinco conselheiros do Tribunal de Contas Estadual do Rio de Janeiro, junto com a condução coercitiva do presidente da Assembleia Legislativa do estado, Jorge Picciani, faz parte de uma ruptura maior — que deixa o Rio, ainda sem fundos adequados, absolutamente sem liderança nem rumo.

O governador Pezão aparece pouco e quando aparece, é para propor planos surreais, como a extensão do Metrô da Barra para o Recreio.

Previsões são perigosas no quadro nacional, mas existe a possibilidade, semana que vem, da cassação da chapa Dilma-Temer. No mínimo, pode-se dizer que, em Brasília, a dedicação pessoal e institucional à sobrevivência deve ofuscar qualquer tentativa de levar a cabo o plano para ajudar a sanear as contas do estado do Rio.

De acordo com o jornal O Globo, “A delação premiada do ex-presidente do órgão Jonas Lopes de Carvalho Filho levou à ação contra cinco conselheiros em pelo menos dois esquemas de arrecadação de propina para fazer vista grossa para irregularidades praticadas por empreiteiras e empresas de ônibus que operam no estado. São alvos de prisão preventiva os conselheiros Aloysio Neves (atual presidente); Domingos Brazão, José Gomes Graciosa, Marco Antônio Alencar e José Maurício Nolasco”.

A ação de hoje deixou de fora uma única conselheira, Marianna Montebello. De acordo com reportagens antigas, ela, filha do presidente do Tribunal de Contas do Município, Thiers Montebello e mulher do desembargador Flávio Willeman, membro do Tribunal Regional Eleitoral (que julga políticos),  teria sido eleita ao posto com o apoio de Picciani.

Nolasco foi presidente da CEDAE nos anos 1990, época das privatizações no estado do Rio, administradas pelo irmão do conselheiro preso hoje — Marco Antônio Alencar– Marco Aurélio de Alencar, quando Secretário de Fazenda no governo Marcello Alencar, pai deles.

Placas tectônicas estão em movimento e falhas, grandes e pequenas, aparecem. Enquanto se chacoalham o estado do Rio e o governo federal, cabe mais do que nunca às instituições de fiscalização, informação, cidadania e justiça — tanto públicas como as da sociedade civil– o papel de juntar os cacos, para que possamos seguir em frente.

 

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Rio may be “melted” but it’s still cooking

At the Casa Pública journalism center, yesterday: the state’s numbers have been worrisome for a long time, said Paulo Lindesay. Few were interested

Anti-corruption demonstrations are taking place in Brazil today. There’s not much enthusiasm for them in Rio, where by now there’s widespread déjà vu even though the Car Wash investigations are being targeted by the very politicians under scrutiny.

Clique aqui para português

What really gets locals into the street are the state government’s proposals to reduce spending: cutting wages, increasing pension contributions for state employees. (Former governor Sérgio Cabral’s wife Adriana Ancelmo’s expected departure from jail to Leblon house arrest may also bring out protesters.)

Yesterday, Casa Pública hosted a conversation on the state’s broken finances, organized with Piauí magazine. Participants included Adriano Belisário, author of an Agência Pública piece on corporate tax credits in Rio; Paulo Lindesay from the Núcleo da Auditoria Cidadã (Citizen Audit Nucleus) and Malu Gaspar, a Piauí journalist, who recently profiled Rio state legislature president, Jorge Picciani.

Picciani, a veteran PMDB politician, brings Gaspar’s article to a close with a Shakespearean comment sent to the writer via WhatsApp: “The country is melting and the state has already melted down”.

Yesterday Gaspar pointed to a good chance of federal intervention here. The only thing is, the federal government may not be around much longer. Online only for subscribers, her article concludes that Picciani, nicknamed “Cattle King” may also face a finite number of days as a free man.

What’s seems infinite in Rio is violent crime. For years, the most quoted source for crime data here was the state Instituto de Segurança Pública (Public Safety Institute). As of last week, we now have a nationwide crime data tool, DataCrime, created by the Rio de Janeiro Getúlio Vargas Foundation’s Diretoria de Análise de Políticas Públicas (Public Policy Analysis Directorate). At last week’s launch, Cecília Olliveira also described her app Fogo Cruzado (Crossfire) useful both for researchers and those who put up with frequent shootouts.

The more data the better — especially given the daily shooting across greater Rio. Effective public policies to reduce violence need data, as well as the will to change a situation quickly reverting to pre-pacification days.

Though the state of Rio may be melting, there are those who will not give up. Tomorrow, March 27 at 6:30 PM, Casa Fluminense will be in the City Council’s Salão Nobre to demand that mayor Marcelo Crivella obey the law requiring a municipal Strategic Plan, with goals to be monitored. The mayor has until June 29 to present goals for his term (2017-2020).

Rio, even with a broke state government, remains at the center of national debates. Yesterday this blogger had the chance to watch Helena Solberg’s new documentary, Meu Corpo Minha Vida (My Body my Life). The story of the young West Zone resident Jandyra, her family and her church serves to examine the complex issue of abortion in Brazil. Jandyra died in a clandestine abortion clinic in 2014. The film premieres on the GNT cable channel Thursday March 30 at 11:30 PM. One hopes for lots of reruns and much debate.

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Novidades ainda, num Rio de Janeiro “derretido”

Na Casa Pública, ontem: as contas andam mal há muito tempo, disse Paulo Lindesay. Poucos se interessavam

Hoje acontecem manifestações contra a corrupção no Brasil. No Rio, não se sente grande entusiasmo pelo ato, com cara, a essa altura, de mais do mesmo (apesar de a Lava Jato ser alvo repetido de políticos alvos dela).

O que realmente incita alguns fluminenses a irem para a rua são as propostas do governo estadual para diminuir despesas: cortar salários, aumentar a taxa previdenciária dos funcionários estaduais. Talvez a saída da ex primeira dama do Rio, Adriana Ancelmo, da cadeia para a prisão domiciliar, aguardada para em breve, leve a protestos no Leblon.

Ontem na Casa Pública, houve uma conversa sobre a falência do estado, organizada em conjunto com a revista Piauí. Participaram Adriano Belisário, autor de uma matéria da Agência Pública sobre isenções fiscais no Rio, Paulo Lindesay do Núcleo da Auditoria Cidadã, e Malu Gaspar, jornalista da Piauí, autora de um recente perfil do presidente da assembleia estadual do Rio de Janeiro, Jorge Picciani.

Picciani, político veterano do PMDB, fecha o artigo da Malu — com palavras shakespearianas, proferidas à jornalista pelo WhatsApp: “O país está derretendo e o estado já derreteu”.

Malu apontou, ontem, uma probabilidade alta de intervenção federal aqui. Só que… qual governo federal? Acessível online apenas para assinantes, o artigo leva à conclusão de que são contados os dias de liberdade do chefão, apelidado de “Rei do Gado”.

Contados também são os tiros, tiroteios, homicídios e outros atos violentos. Durante anos, a fonte mais citada sobre crimes era do Instituto de Segurança Pública, do estado. A partir da semana passada, contamos também com a ferramenta de âmbito nacional, DataCrime, criada pela Diretoria de Análise de Políticas Públicas, da Fundação Getúlio Vargas no Rio. No evento de apresentação, semana passada, Cecília Olliveira também descreveu seu aplicativo de grande utilidade, tanto para quem pesquisa como para quem convive com tiroteios, Fogo Cruzado.

Mais dados, melhor — sobretudo num ambiente de tiroteios diários, por toda a região metropolitana. Para que tenhamos políticas públicas eficazes na diminiução da violência, precisamos de dados, além da vontade de mudar um quadro que se reverte rapidamente para a vida pré-pacificação.

Mesmo que o estado do Rio esteja derretido, há gente que não desiste. Amanhã, segunda-feira, dia 27 de março,  às 18:30, a Casa Fluminense levará até o Salão Nobre da Câmara Municipal do Rio uma demanda para que o prefeito Marcelo Crivella cumpre com a lei que requer um Plano Estratégico municipal, com metas a serem monitoradas. O prefeito tem até o dia 29 de junho deste ano para apresentar as metas para os próximos quatro anos do mandato (2017-2020).

O Rio, mesmo falido, continua palco de debates nacionais. Sua blogueira teve a oportunidade de assistir, ontem, ao novo documentário Meu Corpo Minha Vida, de Helena Solberg. A história da jovem moradora da Zona Oeste, Jandyra, sua família e sua igreja serve para examinar a complexa questão do aborto no Brasil. Jandyra morreu numa clínica clandestina de aborto, em 2014. O filme estreia na GNT quinta-feira, dia 30 de março, às 23:30. Tomara que seja bastante veiculado.

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Tiros que não acertam: há vida pós UPP?

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WhatsApp de Mariluce Mariá Souza, professora comunitária de arte no Complexo do Alemão: no dia 5 de fevereiro, por causa de tiros, não pôde distribuir kits de escola

No meio de múltiplas crises, tiroteios prolongados no Complexo do Alemão e em outras partes da metrópole

Por que você deve ler esse post

O Rio de Janeiro (capital) passou por um período de paz relativa entre 2009 e meados de 2013. Até pouco tempo atrás, mesmo que as UPPs andassem mal, parecia impossível que voltássemos a certos comportamentos pré pacificação. Contudo, em várias partes do Rio, centenas de cidadãos ficam encurralados pela violência. Alunos sem estudo e funcionários sem trabalho afetam a metrópole toda: tiroteios rompem com a rotina, desafiam as normas, perturbam as instituições e quebram a sensação de ordem da qual toda cidade depende para a vitalidade urbana. Diminuem a produtividade e o aprendizado. Traumatizam e, volta e meia, se alastram para além da cidade informal.

O que realmente acontece? Devemos ou podemos nos repensar?

A situação geral é grave no Grande Rio. De acordo com o site e o aplicativo para registro de tiros, Fogo Cruzado, o mês de janeiro passado viu “grande incidência de tiroteios/disparos de arma de fogo em regiões com UPPs. De acordo com informações da imprensa e PMERJ, ao menos 16 regiões com Unidade de Polícia Pacificadora estiveram sob tiros no mínimo 40 vezes”. Morreram 13 pessoas, das quais três policiais militares; houve 16 feridos, sendo seis policiais militares. São Gonçalo, Penha e três shoppings ganharam destaque no relatório mensal do site.

No estado do Rio, neste ano, já morreram 23 policiais militares — nem todos em serviço.

I don't want to die, I want to go to school

Protesto infantil, numa manifestação de julho 2016

O Complexo do Alemão figura nesse quadro. Desde o começo do mês de fevereiro, lá houve três mortos e 12 feridos, de acordo com Raull Santiago, diretor do coletivo Papo Reto, que acompanha, confere e registra os conflitos no Complexo (números oficiais do mês de fevereiro, do Instituto de Segurança Pública, somente em março). No primeiro dia de aulas do ano letivo, dia 2 de fevereiro, a região entrou num inferno particular.

“Isso que me corta o coração”, postou no Facebook Mariluce Mariá Souza, fundadora do projeto social Favela Art, cujas mensagens de WhatsApp constam acima. “Estou aqui em uma área que não tem como eu ir levar todos os materiais pra lá por causa dos TIROS e as crianças tudo la esperando. Como explicar para a criança que não posso fazer isso hoje pq põe em risco as vidas delas ? Como explicar?”

Pouco papo

RioRealblog pediu entrevistas com o major Leonardo Gomes Zuma, comandante da UPP Nova Brasília (que fica no Complexo),  e com o secretário estadual de segurança, Roberto Sá. Sá não respondeu ao pedido, mas chamou uma coletiva no fim do dia de sexta-feira, ao qual RioRealblog não pôde comparecer. Zuma não estava disponível, mas a assessoria de imprensa das UPPs respondeu prontamente, por email, a uma série de perguntas.

De acordo com a assessoria das UPPs, “Somente uma operação foi realizada no Complexo do Alemão na semana passada. Foi na quarta-feira [dia 1], para a retirada de barricadas em diversos pontos das comunidades que integram o conjunto de favelas. Desde então, policiais em patrulhamento em bases das UPPs vêm sendo atacadas por criminosos e foi necessário o reforço do Bope e do Batalhão de Choque. Nessa segunda-feira, 06/02, a situação é tranquila e não foram registrados confrontos até o momento”.

Apesar da situação tranquila no dia 6, houve tiroteios subsequentes. Não se observa qualquer garantia de que outras barreiras não tenham que ser removidas ou que outras patrulhas não irão ser atacadas por criminosos.

“Com frequência, policiais iniciam encontros que os levam, sem necessidade, para tiroteios”, um especialista norte americano em violência urbana comentou numa conversa via Twitter com RioRealblog. “Por exemplo, policiais aqui nos EUA costumavam bloquear os carros de fuga de criminosos, forçando os agentes a atirarem para dentro do carro, na hora que avançasse. Hoje, são treinados a deixar o carro passar”. O especialista opinou que meio termos — tiroteios aqui e ali, por exemplo– produzem resultados pífios. “Com a força, ou você faz um esforço grande ou faz nada. A força esmagadora aumenta a probabilidade de que o outro lado desista”.

Aqui no Rio, a socióloga e coordenadora do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Candido Mendes, Julita Lemgruber, também questiona a estratégia policial: “A desculpa é sempre de que a policia se defende dos ataques e nunca que a incursão acontece e os tiros começam. Não é possível que continuemos com esta política de confrontos em nome de um suposto combate às drogas. Esta é a questão. Enfim, acho que hoje não há mais como discutir esta questão da violência policial nas favelas sem discutir a insana guerra ás drogas”, disse ao blog, por Messenger.

Ativistas do Alemão não querem saber dessa guerra. Elaboram, continuamente, protestos e pelo menos um abaixo assinado.

“Acredito que as UPPs falharam e governantes e comandantes não assumem isso,” disse Raull Santiago, numa troca de mensagens pelo WhatsApp. “É impossível dar certo algo que se inicia com a lógica de guerra e apenas isso, sem nada mais a ofertar a população, como verdadeiros serviços básicos. Mas mandaram apenas armas e mais guerra. A polícia não pode mediar sozinha um conflito da qual ela faz parte e há tantos problemas envolvidos”. Diz ele que a polícia devia recolher as tropas.

Ir embora do Alemão, de vez?

“Não acho que o estado deve se ausentar e deixar o pobre para ser governado por grupos de criminosos armados”, diz Ignacio Cano, consultor que já avaliou as UPPs e co-autor do livro Determinantes do uso da força policial no Rio de Janeiro. “E se saíssem agora de todas as UPPs o resultado, em algumas áreas talvez seja carnificina”.

Cano disse, por email, que a polícia, que não o consulta há nove meses, devia avaliar sua presença e cada área. “Se estão num local apenas para atirar e se defenderem, então acho que deveriam sair desse local até poder intervir de forma que cessem os tiroteios. É possível mudar de local na mesma favela, por exemplo, ou até abandonar, temporariamente, certos locais. No caso do Alemão, acho que entraram por motivos errados e sem planejamento adequado, porque era considerado o quartel-geral do Comando Vermelho”. O governo mantém a polícia no Alemão, acrescentou, por achar que uma retirada sinalizaria uma “derrota” na guerra contra o crime.

Cano recomendou, na avaliação de 2012, a elaboração de estratégias e de táticas de acordo com cada momento e cada local. Diz ele que a polícia jamais implementou a recomendação.

A PM não se mostra muito aberta a debater estratégia. Veja essa troca de email entre o RioRealblog e a assessoria de imprensa das UPPs:

4) Qual a visão do comandante [Zuma] sobre os limites e os perigos impostos aos moradores e aos policiais, em função da operação [do dia 2]? É realmente necessário arriscar tantas vidas, em todos os lados? A guerra às drogas tem chance de dar certo?

R: Todas as operações são realizadas com base em informações do Setor de Inteligência da Polícia Militar.

Vou trocar de chip

Moradores reclamam de policiais que invadem suas casas e praticam abusos físicos.

“Coe mano. Papo reto, tu sabe que eu sou trabalhador, tá ligado. Mas ai, fui esculachado ontem. Apanhei pra caralho dos cara. Só fui buscar uma roupa na casa da minha mãe. Me bateram querendo que eu falasse onde que estavam os bandidos. Só sei que apanhei feito marginal, eu pai de família”, lamentou um morador, por WhatsApp, para Raull Santiago, que publicou o relato no Facebook. Segue a continuação:

“Os caras pegaram meu cel, cortaram minha orelha, mas não muito. Apanhei feito um filho da puta, tô cheio de ódio. Pegaram o celular da minha mão e já vieram me batendo, gritando o menor. Eu falando que era trabalhador e eles querendo saber quantos bandidos tinham na Rua 2. Porra mano, tô cheio de medo, papo reto. Caralho, apanhei muito. Falaram que se me pegar de novo vão me matar. Eles iam me matar, mano. Papo reto. Iam chamar outra tropa deles, iam me matar, mano. Os canas pegaram meu celular, mexeram no meu Facebook. Tô aqui cheio de dor. Eles iam me cortar, mas eu comecei a chorar. Aí ele cortou um pouco e disse que é para eu lembrar dele. Nem identidade pediram, saíram me batendo mesmo. Não tive reação, só apanhei. Isso para você ver como eles são. E tudo encapuzado. Bagulho doido, eu virava para tentar ver os nomes, ai que eu apanhava mais […] Mano, vou até trocar de caminho agora, na hora de voltar do trabalho. Porque mano, eles são foda. Minha mae chorou pra crl pq querendo ou nao e mãe né mano e a dor que eu to sentindo, porra, ngm queira sentir. Apanhei de 62(fuzil) no pescoço, na cabeça, na cara, estou traumatizado. Mas mano, só avisei para vocês verem como eles são. Fica com Deus e se acontecer algo comigo vocês já estão avisados Aí mano, mandaram para minha mulher. Mandaram pior para minha irmã, chamando ela de vagabunda. Isso foi eles no meu celular, mano. Quando mandaram mensagem para minha mãe, minha mulher e minha irmã. Vou trocar de chip…”

Alguns observadores perguntam por que os moradores tanto reclamam dos policiais, porém aguentam viver entre bandidos, de certa forma governados por eles. A polícia, dizem, está do lado certo da equação. Para esses, criticar a polícia é igual apoiar aos traficantes.

RioRealblog perguntou sobre isso a Raull Santiago.

“A polícia em teoria é representante do povo, pela lei, então quando o servidor público usa de seu poder para cometer abusos, isso deve ser questionado, até para um melhor funcionamento do serviço”, respondeu. “Nas favelas, o abuso de autoridade e as violações diversas cometidas pela polícia historicamente, somada à ausência de serviços outros diversos, não gera mudança e faz aumentar a revolta e até fortalece a criminalidade”.

O morro resolve?

E o que diz o Raull aos que sugerem que os próprios moradores deveriam expulsar os criminosos?

“Não é trabalho do morador expulsar o tráfico, em tese esse é o trabalho da polícia.
Acabar com a criminalidade é fácil em médio e longo prazo, basta haver reais investimentos no que realmente constrói avanços, que é a educação, a saúde, cultura, a valorização dos jovens. Ha anos aqui na favela só temos a polícia como única política pública, uma polícia despreparada, violenta, sem educação e corrupta”. Diz Raull que é hora de focar na corrupção policial e elaborar novas políticas de drogas.

Os tempos são difíceis no Rio e no país como um todo. A grande imprensa cobre cada vez menos tais conflagrações. É bem capaz a polícia do estado estar “afogada”, como imagina um ator chave na área de direitos humanos, impedida de se repensar, formar estratégias, atuar com transparência. Apesar disso tudo, não deixa de ser trágico termos que ponderar a ideia de que pouca coisa se aprendeu durante os anos de baixa violência, quando havia mais diálogo, espanto e cobertura jornalística.

Portanto, consta esse post como uma tentativa de levantar algumas perguntas básicas. A essa altura, jogar a toalha não pode ser uma opção. Somos maiores, já, do que isso.

A assessoria das UPPs disse que moradores devem registrar supostos abusos policiais na delegacia. “Cabe ressaltar, no entanto,” acrescentou, “que a Coordenadoria de Polícia Pacificadora (CPP) mantém um canal direto de recebimento de denúncias sobre as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) e também sobre a atuação policial, a Ouvidoria Paz com Voz. O contato pode ser feito pelo telefone (21) 2334-7599 ou pelo site ouvidoriaupp.com.br. O morador pode ainda comparecer pessoalmente na sede da CPP,na Avenida Itaoca, nº 1618, em Bonsucesso. O anonimato é garantindo”.

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O Alemão, de lua cheia, em tempos mais felizes.  Foto de Mariluce Mariá Souza

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Headless Rio? Electoral court annuls 2014 election result

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Cedae workers yesterday: against proposed privatization, part of Rio’s salvation package

Rio’s Governor Luiz Fernando “Pezão” de Souza is likely to hang onto his post, according to Globo columnist Ricardo Noblat. He reported today that Brasília jurists believe Pezão’s planned appeal (presumably along with that of his vice governor) is likely to meet with success.

Yesterday, Rio’s regional electoral court voted on a complaint filed by state representative Marcelo Freixo 3-2 to remove Pezão and his vice governor Francisco Dornelles. If the appeals are rejected, Rio would hold new elections to complete the gubernatorial term ending in 2018. The pair are accused of trading corporate tax incentives in return for campaign donations.

The interim governor, if there is one, would be current state legislature president Jorge Picciani, himself the object of serious corruption investigations.

Pezão’s position as top Rio politician grows weaker with each passing day. Yesterday, the state awarded wage increases to its military police to ward off a strike. The past week has seen chaos and horrific violence in the neighboring state of Espírito Santo, where police have been striking.

Federal banks just weighed in on the rescue package drafted by state and federal officials, saying they would not lend resources for outstanding wage payments, part of the R$ 26 billion deficit the state is now trying to cover.

Meanwhile, state representatives debate the controversial privatization of Cedae, the water and sewage company excluded from the 1998 wave of privatizations. Company workers have been protesting in downtown streets  along with public servants whose wages would be cut as part of the package. There has been an impressive degree of violence, in some cases.

Pezão came to the governorship as vice governor of former Governor Sérgio Cabral, now in prison, accused of taking bribes and spectacular money laundering.

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Police at the ready yesterday, in front of the state legislature

As RioRealblog commented earlier, there is no clear way out of Rio’s tragic situation.

Even if Pezão and Dornelles wiggle out of yesterday’s court decision, they could well be at the end of their careers; the decision also sets a precedent for the annulment of the Rousseff-Temer election in 2014, which may also have involved illegal campaign spending.

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