Reputação do Rio de Janeiro à mercê da lama

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Tragédia espanta turistas e castiga quem mora no estado do Rio de Janeiro

Como se a Copa do Mundo de 2014  e as Olimpíadas de 2016 não bastassem, a cidade do Rio de Janeiro está prestes a chamar mais atenção e ter mais fama ainda, com o lançamento mundial, no dia 8 de abril, de Rio, um longa-metragem de animação indicado ao Oscar dirigido pelo mesmo brasileiro responsável pelo filme A Era do Gelo,  Carlos Saldanha.

Rio é a história de uma arara azul de Minnesota que vem à cidade para conhecer a única outra arara azul do mundo — uma fêmea “feminista e independente” , conforme a descrição no site da  IMDb. O trailer é lindo, e uma leitora do RioRealblog que já assistiu a vários trechos do filme em uma apresentação particular adorou. De acordo com O Globo,  o filme pode levar a cidade do Rio de Janeiro ao conhecimento internacional num grau cujo único precedente seria o personagem do Walt Disney, Zé Carioca, criado em 1942.

Em Rio, Blu e Jewel voam por paisagens lindas. Mas se o casal fosse levantar voo na região do Rio de Janeiro hoje, o filme não seria um grande chamariz. Na semana passada, o maior desastre natural da história brasileira aconteceu na serra do estado da cidade. Até agora encontraram-se mais de 600 corpos, mortos em consequência de enchentes e deslizamentos de terra na região de Petrópolis, Teresópolis e Nova Friburgo. Essas áreas de turismo onde milhares de cariocas têm casas de férias vão precisar de anos e muitos recursos financeiros para se reconstruírem. Fotos e imagens de vídeo mostram devastação total, e ainda há moradores isolados que aguardam o resgate. Grande parte da área não tem luz nem telefone. E está chovendo de novo. Peritos apontam o desmatamento dos morros para a construção de casas como um fator que contribuiu para o alto grau de destruição causado pelas águas; essas casas abrigavam o número crescente de pessoas que trabalhavam no setor de serviço local.

O custo de reconstrução das três principais cidades atingidas seria de R$ 2 bilhões, de acordo com O Globo.

Ao percorrer a região com o governador Sérgio Cabral, a presidente Dilma disse que a construção de casas em lugares de risco é a regra, e não a exceção, no  Brasil. Catástrofes naturais são comuns em países tropicais, mas a incidência vai aumentando em função das mudanças climáticas. Apesar de séculos de experiência com chuvas torrenciais e seus efeitos, a prevenção e a resposta governamental ainda não atendem às necessidades dos cidadãos. No caso da tragédia da semana passada, as autoridades disseram ter equipamento de previsão do tempo, porém assinalaram a falta de profissionais, treinamento e sistemas para alertar e realocar moradores. As tentativas de remover casas em áreas de risco estão emperradas na justiça. De acordo com alguns observadores, o governo Lula não desembolsou recursos prometidos na região, mas é também possível que os municípios não tenham cumprido os requisitos necessários para recebê-los.

Em novembro último, o estado do Rio de Janeiro e a capital solicitaram recursos federais para melhorias urbanas, inclusive a contenção de encostas e a prevenção de enchentes, como parte dos preparativos para as Olimpíadas. O prefeito carioca Eduardo Paes disse ontem que a capital já identificou 18 mil famílias que moram em áreas de risco e devem ser realocados com assistência do governo. Mais  40 mil famílias moram em situações de risco moderado.

A culpa é de todos, diz o economista André Urani em sua coluna semanal no jornal O Dia. “[As elites] acham muito prático terem seus serviçais por perto e estão pouco se lixando em como estes vivem. Já repararam que todo condomínio de luxo, na serra ou no litoral, é cercado por sua favelinha? Em nosso maravilhoso litoral, tira-se a maior onda em cima dos tais condomínios ecológicos, com privadas a vácuo, água reciclada e painéis solares, mas a praia em frente à casa dos bacanas é infestada pelos coliformes fecais que são nela despejados por seus jardineiros, seguranças, piscineiros e babás que se amontoam na comunidade do outro lado da estrada.”

Como sempre acontece nos casos de enchentes e seus estragos, os residentes do estado e da capital agora conclamam ao governo a melhoria na prevenção e na capacidade de reação. “No dia que um prefeito, olhando as nuvens no horizonte, enxergar a mais remota possibilidade de ir para a cadeia pelas mortes que poderia impedir e incentivou, as cidades brasileiras deixariam aos poucos de ser quase todas como são: feias, vulneráveis e decrépitas”, escreveu o jornalista Marcos Sá Correa na seção de opinião de O Globo na sexta-feira passada.

Pode ser que as críticas hoje tenham uma chance maior de serem acolhidas do que anteriormente. A presidente Dilma apresentou aos seus novos ministros um “choque de gestão”, numa reunião na sexta-feira passada, que seguirá os exemplos da Austrália e da Nova Zelândia, levando aqueles que ocupam cargos federais a serem mais responsáveis pelas suas ações e omissões, e com um foco maior em performance. Um sistema parecido foi anunciado poucos dias atrás em relação ao sistema de educação fluminense. Será que se trata de uma tendência?

Em abril de 2010, a capital do Rio de Janeiro ficou paralisada na ocasião de chuvas pesadas e os estragos subsequentes, com perda de vidas e casas; em outubro de 2007 houve caos na cidade quando toneladas de lama desceram o morro e bloquearam o túnel Rebouças. Os eventos esportivos que estão por vir acontecem na capital no inverno, época seca (de incêndios na mata), então são poucas as chances de termos jogos enlameados. Mas 12 milhões de pessoas vivem o ano todo no Grande Rio,  sujeitas a condições climáticas sempre mais intensas e a paisagens não tão lindas. Espera-se que a cidade e o estado possam se tornar mais seguros tanto para turistas como para a população local, seja ela formada de aves ou humanos.

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About Rio real

American journalist, writer, editor who's lived in Rio de Janeiro for 20 years.
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