Rio: a nova Veneza?

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A sustentabilidade requer política

A areia da praia do Arpoador começou a sumir no verão passado, bem antes do encolhimento sazonal de inverno. Os vendedores de salgadinhos e cerveja, permissionários do município para trabalhar em um local sumido, demandavam um novo ponto.

Não se sabe se conseguiram, mas na era de aquecimento global o Rio de Janeiro certamente terá que lidar com esse tipo de problema, e com muitos de maior gravidade, no futuro próximo.

“O mínimo vai subir”, disse o economista Sérgio Besserman durante um debate recente do grupo Rio de Encontros , “e isso quer dizer que a dengue vai crescer, porque não teremos as temperaturas baixas para matar os mosquitos. Teremos mais leptospirose, por causa de enchentes, e o índice de mortes pelo calor vai crescer. Vai chover mais forte e vai chover mais forte mais vezes”.

Nuvens carregadas no litoral carioca

Qualquer carioca dirá que  o futuro que Besserman descreve já chegou; tanto a vida como a topografia urbana se pontuam pelos dias em que as enchentes paralisam a cidade.

“O Rio de Janeiro é a maior metrópole litorânea do Brasil”, disse o geográfo Paulo Gusmão, que fez uma apresentação no mesmo evento. “É um polo de petróleo e gás, com uma população regional de 11,5 milhões. O risco é rotina. Não há uma entidade metropolitana para pensar isso e se planejar para ele. Como as cidades contíguas competem por recursos, a cooperação entre elas não é provável”.

As indústrias de petroquímica e aço se encontram nas baixadas cariocas -áreas de risco- com cerca de R$ 93 bilhões já investidos em seus projetos. Gusmão disse que terão que lidar com enchentes.

Boas ondas

Neste momento mágico para o Rio de Janeiro, não se fala muito sobre meio ambiente. Poderia-se dizer que a Cinderela está focada em achar uma bolsa que combine com o sapato de cristal, enquanto ela e o príncipe deveriam estar calculando o transbordamento da fossa.

Aproveitando o mau tempo

“Os holandeses vão fazer propaganda dizendo ‘Vocês estão precisando de uma coisa que a gente sabe fazer,'”, disse Besserman . Toda obra terá que levar isso em conta, gastando dez, vinte, trinta por cento a mais porque o nível do mar vai subir.

Poucas pessoas estão pensando a vocação energética da cidade, tampouco. Como se a economia global fosse continuar a se alimentar sempre de combustíveis fósseis, os governos e a mídia tendem a se concentrar em novas descobertas de petróleo e em um debate que começou no ano passado, sobre a permanência ou não dos royalties de petróleo no estado. Mas o quadro já mudou.

Um futuro inteligente?

O potencial do Rio é o ponto principal de um ensaio imprescindível no livro recém-publicado Rio: a hora da virada, organizado por economistas André Urani e Fabio Giambiagi  (o livro inteiro é leitura obrigatória para quem quer entender o que está acontecendo no Rio e quais são os desafios em todas as esferas da existência urbana).

“Há um novo deslocamento do centro dinâmico. O dinamismo da economia brasileira, para além dos fatores conjunturais, dependerá de sua capacidade de enfrentar a mais ampla e acelerada transição tecnológica da história econômica: aquela que irá levar as sociedades desenvolvidas do planeta da civilização dos combustíveis fósseis  à economia de baixo teor de carbono nas próximas décadas”, escrevem Sérgio Besserman, Rodrigo Rosa e Clarissa Lins em Sustentabilidade é competividade: para o Rio e para o Brasil.

Os autores afirmam que a cidade do Rio de Janeiro está muito bem posicionada na conjuntura dessa transição global: “[…] no mundo e no Brasil existem cidades mais avançadas do que o Rio de Janeiro em políticas e práticas sustentáveis. Mas não há cidade com 6,2 milhões de habitantes, cerca de 12 milhões na sua região metropolitana, vasto espaço construído e com três grandes florestas urbanas, duas grandes baías, um sistema lagunar e um extenso e oceânico litoral”, ressalta o ensaio. Não é por acaso que em 2012 o Rio de Janeiro, eles acrescentam, será anfitrião da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20,U.N. , que dará seguimento à ECO-92, também acolhida aqui.

Um estudo da Economist Intelligence Unit, patrocinado pela Siemens, coloca o Rio entre as cidades mais verdes da América Latina, quando elencadas por sustentabilidade ambiental.

Saneamento falho agora, -- mas daqui a alguns anos essa favela pode virar o pedaço mais chique da cidade

“Há razões muito fortes para que a agenda da sustentabilidade seja um dos eixos, senão o principal eixo, das grandes transformações pelas quais a cidade do Rio de Janeiro está passando”, dizem Besserman, Rossa e Lins. Com a ajuda do setor privado, a cidade já definiu uma meta de emissões de gases do efeito estufa, está expandindo o sistema de transportes públicos, trocou o antigo aterro sanitário de Gramacho por um novo, de tecnologia avançada, em Seropédica, e está efetuando a limpeza da Lagoa Rodrigo de Freitas e da baía de Guanabara.

Ainda falta muito. De acordo com o ensaio, um modelo novo de desenvolvimento sustentável e de governança é um projeto de alta prioridade. Em apenas 30% dos domicílios existe saneamento público. Precisa-se de educação ambiental para ajudar a mudar os hábitos dos cidadãos. O programa de urbanização de favelas Morar Carioca poderia incorporar painéis de energia solar e a reutilização de água da chuva. Os reguladores precisam de ferramentas melhores para medir custos ambientais e sociais, o setor privado deve ser induzido a contribuir mais com a cidade, e deve haver uma maior participação comunitária na elaboração e implementação de políticas públicas.

De olho na zona oeste

A grande preocupação desses e outros ambientalistas é o desenvolvimento que ocorre nos entornos e dentro da baía de Sepetiba, na zona oeste.  O ensaio sugere um modelo de governança baseado na criação de uma poderosa agência apartidária e técnica, para ajudar na formulação de metas e na monitoração de desempenho dos que utilizam a costa e as águas da baía.

E ao menos um ambientalista, o sociólogo e cientista político Sérgio Abranches, que também fez uma apresentação no debate Rio de Encontros, acha necessária uma avaliação mais radical da vocação do Rio de Janeiro. O foco atual em aço e petróleo leva ao retrocesso, diz ele; o futuro não está num retrovisor que reflete os chaminés industriais dos anos 50, e sim à frente, nas atividades baseadas em conhecimento, tais como os biocombustíveis, a nanotecnologia e a neurociência.

Dar uma guinada em direção ao futuro talvez seja a tarefa mais difícil de todas para o Rio de Janeiro. “É preciso valorizar o conhecimento”, disse Besserman. “As pessoas pensam que o problema no Brasil é o acesso à educação, dos pobres. Mas nós, a elite, não temos valorizado o conhecimento porque nunca precisamos dele para competir”.

Os cariocas devem deixar de utilizar sacos de plástico e andar mais de bicicleta, para ajudar o Rio a se tornar mais sustentável? Sim, disse Besserman. Mas precisamos também nos envolver mais- de “fazer política com P maiúsculo”.

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About Rio real

American journalist, writer, editor who's lived in Rio de Janeiro for 20 years.
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