Vamos discutir a relação

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Sim, temos paz em casa. Mas onde está a atenção e o compromisso, onde estão os serviços urbanos? A dignidade dos cidadãos, diz o Secretário Estadual de de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, é crucial- para que ele possa seguir em frente com a modernização da polícia carioca

O jornal O Globo hoje dedicou uma página inteira a uma entrevista com Beltrame, na qual ele lamentou o ritmo de investimento social nas comunidades pacificadas.

“Hoje, por exemplo, eu tenho policiais que, mesmo estando de serviço, dão aula de esportes”, disse Beltrame. ” […] Mas gostaria que o responsável por esse setor assumisse essa tarefa, me liberando dois ou três policias para exercerem a sua função”.

Com 17 comunidades já pacificadas, de um total de 300 mil moradores, o homem forte da segurança pública no Rio de Janeiro gostaria de focar logo na corrupção policial, e de investir em tecnologia e capacitação. Parece, porém, que o serviço “social” reduz o tempo disponível aos policiais para as tarefas do moderno policiamento comunitário, algo que os especialistas acreditam ser chave à integração urbana e à virada geral da cidade. O policiamento comunitário está no centro da bem-sucedida política de segurança pública praticada desde 2008, de ocupar e pacificar territórios até então dominado por criminosos.

“Já vi esse filme tantas vezes”, disse a bostoniana Liz Leeds, durante uma visita recente ao Rio de Janeiro. Desde os anos 60, Leeds, especialista em reforma policial, acompanha as muitas tentativas da cidade para reduzir a violência.

“Se o policiamento de orientação comunitária não se tornar uma política integrada da polícia em todo lugar, e não apenas em favelas, não irá se enraizar. Ainda há muita resistência. Se a capacitação não mudar de verdade, fugir desse treinamento muito militar e dessa atitude militar sobre o papel da polícia, a falta de respeito pelas comunidades e uma resultante falta de cooperação da parte delas continuarão sendo problema”.

Hora de focar em funções policiais

“Nada sobrevive só com segurança”- Beltrame, em O Globo

“Na Cidade de Deus vi lixão a céu aberto, porco e criança vivendo no mesmo ambiente, que parece Bangladesh. Há muita sujeira, muita desordem na questão habitacional. Fizeram uns conjuntinhos de qualidade muito baixa e entregaram aquilo à população, que hoje começa a fazer puxadinhos. Parece que ali não há ninguém fiscalizando. Aí o que acontece? Nesses lugares, a PM, através do capitão (comandante da UPP), se torna a presença física do Estado, 24 horas por dia. As pessoas vão lá no capitão reclamar do puxadinho, da van clandestina, do piloto de moto que faz transporte e não tem capacete. Isso desgasta o capitão, porque eles vão lá cobrar coisas que não são da competência da polícia”.

O Beltrame não éo único que se preocupa. No último dia 20 de maio, na favela Escondidinho de Santa Teresa, Keila Lima, doméstica desempregada de 43 anos, resmungava. Presente durante um fórum de líderes comunitários e agentes de serviços públicos e privados, ela estava descrente. “É teatro, não vai dar em nada, bem como eu pensei”, ela murmurava.

"Falaram, falaram e foram embora".

Lima disse que sua comunidade não dispõe de um presidente de associação de bairro que poderia comunicar as necessidades e queixas locais: alimentos, saúde, um posto policial, o som alto do vizinho, a canais de TV abertos (em vez de TV a cabo, o que é caro). Na condição de moradora, ela não se sentia à vontade de pegar o microfone do fórum, que fora organizado pela UPP Social.

Criada em 2010 pelo governador Sérgio Cabral, a UPP Social, encarregada de identificar necessidades sociais e coordenar a resposta de atores dos setores público e privado, realmente demorou para deslanchar. Por motivos tanto político como prático, no fim do ano passado o programa migrou do âmbito estadual ao governo municipal. O primeiro semestre de 2011 foi de planejamento e organização.

ONU-Habitat e UPP Social começam a trabalhar

Lima não sabia, – e pode ser que até o secretário Beltrame não saiba- mas o fórum do dia 20 iniciou uma fase nova, mais ativa. A UPP Social acabou de fazer uma parceria com o programa Habitat da ONU, para recrutar 60 profissionais que irão identificar necessidades sociais, intermediar serviços sociais e monitorar resultados em 30 comunidades pacificadas ainda neste ano – três por mês. Planeja-se trabalhar em mais comunidades a partir de 2012.

Uma líder comunitária, lista na mão

De acordo com o diretor da UPP Social José Marcelo Zacchi, a parceria de R$5 milhões paga o recrutamento e os salários de nove equipes. Oito equipes de cinco pessoas, cada uma responsável por de três a quatro comunidades pacificadas, irão se reunir com moradores, líderes, agentes de serviços públicos e políciais, para identificar necessidades. Em seguida coordenam a coordenação de atores públicos, ONGs e o setor privado, para atender essas necessidades. Monitoramento de resultados é a terceira fase do trabalho. Uma nona equipe de 20 irá administrar as outras oito equipes.

Diz Zacchi que em vez de resolver problemas dos moradores, os policiais irão preencher formulários para descrever queixas, e encaminhá-los para os responsáveis. A UPP Social, ele enfatiza, é uma espécie de hub, que se torna obsoleta por definição; as favelas pacificadas terão serviços nem melhores nem piores do que o resto da cidade. “Deixamos para trás a época em que [a favela] era zona proibida”, ele acrescenta.

É bem provável que o secretário Beltrame sabe disso tudo- e que a entrevista que ele deu ao Globo surgiu de um acúmulo de frustrações e impaciência.

Mas Beltrame, herói urbano que no ano passado ultrapassou os limites da própria função e  distribuiu presentes de Natal na recém-liberada Vila Cruzeiro, não está jogando a toalha- ele apenas quer ver mais compromisso, de todos.

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About Rio real

American journalist, writer, editor who's lived in Rio de Janeiro for 20 years.
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