Trocas policiais no Rio de Janeiro: balanço

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Luta pelo poder?

Há consenso no Rio de Janeiro de que é preciso reduzir a corrupção e a criminalidade da polícia. O que não sabemos é até qual grau se consiga fazer isso, num ambiente onde as autoridades tomam posse e daí chamam pessoas próximas para ocupar cargos de confiança. Não que a política não seja suja em países de língua inglesa, mas é um contraste marcante que nesse idioma officials (oficiais) são sworn in (fazem juramento) e depois fazem political appointments (nomeações políticas).

A ampla corrupção e a pouca confiança na sociedade brasileira criam a necessidade de interpretar cada ato e cada palavra, especialmente os que proveem de autoridades, com o afinco de um estudioso talmúdico. Nem se pode confiar na mídia, cujas necessidades podem divergir das de seus leitores e espectadores.

Pois vemos tweets tais como esse, do ex Secretário Estadual de Segurança Pública, Marcelo Itagiba: “Novo comandante muda tudo outra vez. Sai uma patota entra outra. Instabilidade institucional. Não ha um linha de acao. Apenas troca da guarda.” Itagiba serviu o estado no governo de Anthony Garotinho, acusado de corrupção e  recentemente julgado culpado por uso ilegal de mídia para fins eleitorais.

Já que se gasta muito tempo para ler nas entrelinhas, a maioria das pessoas desconfia de toda a informação que não venha de um amigo próximo ou parente– ou desenvolve uma preferência por teorias de conspiração. Igual às fofocas, as teorias são fáceis de inventar e espalhar. E, ocasionalmente,  uma teoria de conspiração acerta.

Então pode ser que, como acreditam o Itagiba e muitos outros observadores, essa nova política de segurança pública seja mera maquiagem para a ganância do governador $érgio (é assim que Itagiba grafa o nome dele) Cabral. Pois há meses algumas conexões duvidosas dele, há muito tempo alvo de comentários desconfiados, se revelaram.

No seus tweets, Itagiba sugere que o atual Secretário Estadual de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, seja participante pleno de sua teoria. Outras pessoas dizem que Beltrame tenta trabalhar direito mesmo, mas briga com o governador. Assim, a troca de chefe de polícia na quinta-feira passada levantou especulação sobre qual homem teria sido ou seja atualmente partidário do secretário ou do governador.

Depois vieram as notícias de sexta-feira e sábado, de que o novo chefe de polícia Erir Ribeiro Costa Filho está trocando mais de 13 cargos de cûpula, inclusive o posto chave de comandante das UPPs. Isso criou novas dúvidas e trouxe novas informações. Se é tudo maquiagem, deve ser das mais chiques. Ou, como diz a manchete de O Globo, é crise.

Transformação longo-prazo?

O coronel Mário Sérgio Duarte foi chefe de polícia por tanto tempo– dois anos!– que é fácil esquecer que Beltrame já trocou de chefe várias vezes. Em janeiro de 2008, ele substituiu um que cometera o erro grave de se juntar a uma marcha de protesto sobre salários, por um especialista em inteligência. Na época, é provável que se elaborava a estratégia da pacificação policial. Em julho de 2009, saiu o especialista de inteligência e entrou o coronel Mário Sérgio Duarte.

Duarte teria durado mais tempo, se não tivesse escolhido  um commandante de batalhão que acabou por ser o suposto mandante do assassinato de uma juiza que estava punindo milicianos em São Gonçalo. Duarte teria durado mais tempo também se, ao contrário de muitas outras autoridades, não tivesse assumido a responsabilidade pela escolha do comandante e de tudo que isso acabou por implicar.

O coronel Ribeiro Costa Filho, quarto chefe de polícia militar do Beltrame (e é fácil se esquecer de que o próprio Beltrame está firme e forte no seu cargo desde janeiro de 2007, quando o governador Cabral iniciou seu primeiro mandato), mora em uma casa de classe média baixa na Baixada Fluminense. Em 2003, ele foi exonerado de seu cargo de comandante do batalhão de São Cristóvão, depois de acusar o então Secretário Estadual de Esportes de ter lhe pedido para dar trégua nos traficantes de droga da Mangueira. Naquele ano, Ribeiro Costa Filho ganhou o prêmio “Faz Diferença” do jornal O Globo, pela denúncia.

Notávelmente, o secretário em questão, conhecido pelo apelido personalista de Chiquinho da Mangueira, está para ser nomeado novamente ao mesmo cargo. Pode ser que Ribeiro da Costa Filho se esbarre com seu ultor nos corredores do poder. Mas rivalidades e inimizades são frequentadores comuns naqueles cantos.

Em todo caso, as decisões de recursos humanos do novo chefe de polícia militar indicam que ele e Beltrame estão aproveitando dessa oportunidade inesperada para escolher seus companheiros nas tarefas de redução de corrupção e criminalidade policiais, além da de reduzir os crimes cometidos por civis.

Uma matéria do dia 2 de outubro na página 23 de O Globo, não disponível online, escrita pela veterana repórter policial Vera Araújo, descreve como acontece a seleção: “Foi no curso de administração de empresas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul [… ] que Beltrame tirou conceitos de gestão para escolher a nova cúpula da Polícia Militar […] recrutamento, seleção, liderança e motivação.”

Veja o que você quer ver

É impossível saber exatamente o significado de todas essas mudanças, e será muito interessante acompanhar os desdobramentos da troca de comando das UPPs. De acordo com um observador da área policial, o novo comandante, coronel Rogério Seabra, “tem o perfil completo do policial comunitário, acredita nas relações com a sociedade, e é excelente ‘relaçoes públicas’ “.

No correr do tempo, será útil lembrar que o quer que seja a atuação da polícia do Rio de Janeiro, para melhor ou pior, é basicamente reflexo da sociedade em geral. Ao passo que a polícia mudar seus valores e comportamentos, como manda o Beltrame (com base no consenso), todos nós talvez tenhamos que rever os nossos.

Não vemos as coisas como são. Vemos as coisas como somos.

                                                                            — o Talmude

Clique aqui para uma análise dos nomes novos da polícia militar, pelo blogueiro de O Globo, Jorge Antonio Barros.

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About Rio real

American journalist, writer, editor who's lived in Rio de Janeiro for 20 years.
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