Prédios desabam no centro do Rio de Janeiro: onde está a infraestrutura da infraestrutura?

Equipe de resgate no centro da cidade, anteontem à noite

Click Downtown buildings collapse in Rio: where’s the infrastructure infrastructure? for English

Quando um botijão de gás proibido explodiu um dia de manhã em outubro passado no restaurante Filé Carioca no centro da cidade, matando quatro pessoas e fazendo ruir grande parte do prédio onde ficava, a fragilidade do sistema de fiscalização da segurança municipal se revelou aos cariocas. “Os bombeiros não têm condições de fiscalizar todos os prédios,” disse o comandante dos bombeiros, coronel Sérgio Simões ao jornal O Dia. “A fiscalização nesse caso é feita através de denúncias”.

Depois daquela tragédia, o prefeito e os bombeiros prometeram mudanças.

Na quarta-feira à noite um prédio de vinte andares, também localizado no centro da cidade, desabou em cima de mais dois prédios,  levando-os junto ao chão. Dezessete corpos já foram encontrados e há pelo menos cinco desaparecidos. Até o momento,  parece que reformas irregulares desestabilizaram de alguma forma o prédio mais alto.

Construção em toda parte

Ontem nas conversas de mídia social, surgiu uma verdade estarrecedor: no Rio de Janeiro (e talvez no Brasil todo?), qualquer reforma é a responsabilidade total do engenheiro da obra e do proprietário do edifício. Não acontece nenhuma fiscalização governamental– exceto na hora da construção inicial do prédio.

“Precisaria de milhares de fiscais, pagos com o imposto do cidadão. Aceitam pagar mais imposto para isso? Ou uma taxa de fiscalização?” perguntou um participante de conversa no Facebook.

Na mesma conversa, um arquiteto mencionou que o município teria a responsabilidade de manter a planta original de toda nova construção, para a utilização como fonte de referência durante qualquer reforma– porém frequentemente, quando a pede, ele recebe a resposta de que a planta não está disponível.

Em muitos países, cobra-se mesmo uma taxa de fiscalização no caso de reforma, tanto para a construção comercial como para reformas caseiras. Envolve burocracia, mas a fiscalização é prerrequisito para as seguradoras. A fiscalização funciona como salvaguarda para o público em geral, e, no caso de acidente, facilita a investigação, a ação judicial, e as decisões jurídicas sobre culpa e compensação.

Quem vai pagar os danos e pelo sofrimento, no caso trágico desta semana? Por enquanto, a Secretaria Estadual de Assistência Social disse que vai custear os enterros das famílias que não têm como pagar, e o CREA mencionou que o engenheiro encarregado da obra não registrada pode perder o credenciamento. Pode até ser que a obra carecia de engenheiro responsável. Não se fala de qualquer seguro– e nem o nome do proprietário do imóvel nem do engenheiro se tornou público.

Esta matéria do jornal O Globo de hoje entra em algum detalhe sobre a situação jurídica da obra irregular, mas o que está mais claro é a confusão sobre a mesma.

Não olhe para cima

Até a instituição de corredores exclusivos para ônibus alguns meses atrás, o Rio de Janeiro era um cidade onde era possível parar um ônibus municipal ao levantar um dedo. Coisa de vilarejo, mais do que de cidade.

Mas o vilarejo é uma cidade de de doze milhões, acenando planos para grandeza, com martelos, perfuradores e escavadeiras por toda parte. Ao passo que a construção avança , que  o investimento aumenta, e os turistas chegam, surge uma demanda desenfreada pelos serviços e a fiscalização municipais.

Talvez ela não seja sempre expressada explicitamente por empresas e cidadãos, mas queremos todos uma cidade world class, livre de acidentes e problemas preveníveis. Faz-se um Google das palavras inspeção de obras Rio de Janeiro e é  isso que aparece no topo da página.

Tente o mesmo em inglês or francês.

No último ano o Rio de Janeiro passou por tampos de bueiro que explodem, acidentes de bonde, barca e ônibus, paralisações de metrô e apagões, entre outras catástrofes.

Entulho em Ipanema

Enquanto isso a Câmara de Vereadores tem praticamente papel nenhum na elaboração de políticas públicas e desde 2009 o prefeito Eduardo Paes tem se focado num choque de ordem constante, além dos preparativos para as Olimpíadas. Com a expansão e treinamento especial da Guarda Municipal, ele priorizou o estacionamento irregular e os camelôs.

Mas pode ser que tenha chegado a hora de criar uma força tarefa para repensar o código de construção e as normas de zoneamento antiquados da cidade– e a fiscalização desses. Se não, a grandeza pode muito bem ficar no plano das ilusões.

Nem olhe para baixo

Advertisements

About Rio real

American journalist, writer, editor who's lived in Rio de Janeiro for 20 years.
This entry was posted in Brasil, Brazil, Transformation of Rio de Janeiro / Transformação do Rio de Janeiro and tagged , , , . Bookmark the permalink.

One Response to Prédios desabam no centro do Rio de Janeiro: onde está a infraestrutura da infraestrutura?

  1. Maria Helena Zamora says:

    Muito bom artigo. Já roubartilhei para o meu Face. Abraço, MH

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s