“Crime, Preços de imóveis, e desigualdade: o efeito das UPPs no Rio de Janeiro”

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Esse é a tradução do título de um novo paper econômico apresentado ontem na Fundação Getúlio Vargas no Rio de Janeiro. O estudo será de grande interesse aos pesquisadores de gentrificação em favelas e territórios próximos a elas, entre outras áreas de estudo.

Os autores formam uma parceria inusitada.

Benjamin Mandel é um jovem economista norteamericano que trabalha com bastante autonomia no Federal Reserve Bank de de Nova York. Economista Claudio Frischtak é presidente da Inter. B – Consultoria Internacional de Negócios, com foco em serviços de consultoria econômica, estratégica e financeira, ao setor privado e a governos. Juntos, eles analisaram dados sobre 3,3 milhões de imóveis do site Zap Imóveis, do mercado imobiliário de vendas no Rio de Janeiro, em conjunto com estatísticas de crime do Instituto de Segurança Pública.

Ben Mandel apresenta o paper na FGV

O paper que resultou conclui que entre 2008 e meados de 2011, “as UPPs explicam aproximadamente 15% dos aumentos de preço nos mercados formais de imóveis no Rio de Janeiro, uma observação que ligamos à contribuição das UPPs à queda das taxas de crime”.

Os economistas também descobriram que a queda de crime pós UPP levou a maiores incrementos de valor para os imóveis mais baratos, reduzindo a desigualdade de preço no mercado como um todo. Após a instalação de uma UPP na região, os imóveis, por exemplo, nas duas pontas da rua Saint Roman, que passa pela favela do  Cantagalo em Copacabana e continua até a favela Pavão-Pavãozinho em Ipanema, provavelmente tiveram maiores altas de preço do que os apartamentos na Avenida Atlântica.

Essa redução, dizem os autores, significa menos desigualdade de riqueza, porque em todas as classes sociais, o imóvel configura um elemento chave do patrimônio.

Os resultados para a versão deles do índice Gini de desigualdade de renda, eles ressaltam, ilustra “uma nova dimensão de importância potencial das políticas públicas que visam ou reduzir a criminalidade ou a desigualdade. As tentativas atuais de melhorar disparidades econômicas tendem a focar em transferências de renda, e são raras as políticas capazes de reformatar a distribuição de riqueza de maneira significativa.”

Tal resultado, eles acrescentam, pode ser útil em outras localidades.

O estudo não incluiu dados de preços dos imóveis de favela. Se os dados fossem incluídos, comentou o economista da FGV Marcelo Neri, ambas conclusões seriam ainda mais fortes.

Quem é proprietário de imóveis em ruas do Rio de Janeiro como a Saint Roman não precisa de economista para saber que a UPP é benvinda. Durante décadas, muitos imóveis se degradaram ou foram subutilizados. Agora, há gente cavando e martelando pela cidade toda. Na Zona Sul, bares de tapas e albergues se espalham na mesma medida que os pé sujos somem.

Enquanto os donos de elefantes brancos finalmente se juntam ao mercado, o boom cria problemas para outros cariocas. Comprar um imóvel, e especialmente alugar um apartamento, viraram missões quase impossíveis em grande parte da Zona Sul. E, fora o fato de que os proprietários em favela raramente detém título ao patrimônio recém-valorizado, que até certo ponto inibe a liquidez, não existe uma política para proteger aqueles que sofrem pressão para sair de seus bairros, em função do boom, tanto na favela como na cidade formal.

Claramente a nova política de segurança pública está transformando a geografia do Rio de Janeiro, e arquitetos, construtores, engenheiros e empresas de mudança estão surfando a onda. Resta saber exatamente quem vai morar onde.

A cobertura sobre esse paper no Estado de São Paulo está aqui.

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About Rio real

American journalist, writer, editor who's lived in Rio de Janeiro for 20 years.
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