Treinamento policial: revolução nas fileiras, e acima

Por que não ir até o fim?

For Police training: revolution in the ranks, and above click here

Na semana passada, o jornal O Globo reportou que diariamente, o chorume do moderníssimo aterro sanitário de Seropédica, — que finalmente viabilizou o fechamento do aterro Gramacho ( imortalizado no filme do artista Vik Muniz, O Lixo Extraordinário) — está sendo transportado para uma estação de tratamento a 150 quilômetros de distância.

Acidentes com vítimas fatais estão ocorrendo com uma frequência assustadora, no novo BRT Transoeste. Segundo O Globo, especialistas afirmam que a sinalização é inadequada.

As novas faixas exclusivas de ônibus na Zona Sul? Taxistas afirmam que as câmeras não estão funcionando e que os motoristas infratores, tanto de ônibus como de carro, não estão levando multas.  Como era de se esperar, mais e mais motoristas de ônibus retomam o comportamento perigoso de antes.

Pedindo perdão pela obsessão com o transporte (que é um tanto central à saúde geral da cidade), é preciso relatar também que os novos trens chineses de metrô, entregues com um atraso de oito meses, não se encaixam direito nas nossas estações. Quem fez o pedido e porque as medidas não estão certas?

Grande parte da transformação desta metrópole envolve desafios que ainda precisam ser plenamente enfrentados.

Arquitetura faux-alemão num antigo estábulo

No mês passado, uma visita ao quartel general do Batalhão de Choque, e uma conversa com a Subsecretária de Ensino e Programas de Prevenção, Juliana Barroso, ilustraram o período alentador, porém difícil pelo qual o Rio de Janeiro está passando.

O Batalhão de Choque é a parte integrante da Polícia Militar estadual especializada em controle de multidões. Seu gigantesco quartel general — localizado em uma decadente área central próxima ao Sambódromo — é um antigo estábulo, construído em uma época indefinida quando vigas e escadas importadas de ferro fundido, tetos de madeira e a falsa arquitetura colonial alemã estavam na moda.

Em Nova York ou em Paris, um local como esse seria chamariz para  urbanistas dedicados à reforma de edifícios de modo sustentável e criativo

Mercado, moradia, centro cultural…?

No entanto, apenas a fachada de concreto está tombada; e, ainda por cima, a sede principal da Polícia Militar está programada para ser transferida do local atual na rua Evaristo da Veiga, com planos para demolir  e substituir todas as estruturas internas.

Juliana Barroso está conduzindo outro tipo de reforma, na força policial em si. Resta saber quanto das entranhas e da cara da força policial ainda estará em existência por volta de 2015, quando o próximo governador assumir o cargo.

“O desafio é transformar a cultura da polícia carioca, tanto da polícia militar quanto da civil” diz ela. Durante os últimos doze meses, Barroso e sua equipe de trinta pessoas estiveram reformulando o treinamento da PM do Rio para o efetivo atual de 44.000 policiais, que deve alcançar 60.000 até 2016.

Ao ler o  recém-publicado estudo de impacto sobre a polícia pacificadora, Barroso diz que “chorou”. Uma das nove recomendações finais era de que o treinamento deveria ser intensificado e aprimorado. A Polícia Pacificadora faz parte da Polícia Militar. Atualmente, os cadetes recebem cerca de uma semana de treinamento especial sobre o policiamento de proximidade.

Fazendo-se de morto para uma câmera presa à cabeça

O estudo encontrou muitos dos problemas advindos do fato de que até abril passado, o treinamento policial era, no mínimo, inconsistente. Por exemplo, os instrutores eram voluntários não remunerados, membros da força policial.

“O currículo era muito teórico e não incluía competências para orientar o comportamento policial — conhecimento, procedimentos, atitudes,” explica Barroso.

Chamada para vir de Brasília e mudar tudo isso, ela passou meses analisando o quadro e criando uma proposta de currículo, com a ajuda do Comitê Internacional da Cruz Vermelha, de universidades e de outras secretarias. Uma mudança fundamental foi incluir material sobre direitos humanos em todos os cursos em que o assunto fosse relevante. Antes disso, os alunos apenas se informavam sobre os tratados internacionais dos quais o Brasil é signatário.

O novo currículo também utiliza estudos de caso e a experiência pessoal dos alunos, com a expectativa de que eles busquem material complementar.

Subsecretária Juliana Barroso, à direita, em entrevista com repórter de O Dia

O valor de R$65 por hora/aula foi estabelecido para os instrutores, e 14.000 candidatos se inscreveram. Desse número, 355 profissionais foram escolhidos e treinados. Os instrutores são observados e avaliados e eles também fazem cursos de reciclagem.

Apresentações feitas na corporação e feedbacks contribuíram para a revisão do currículo de janeiro a abril deste ano, quando o novo sistema foi implementado para os cadetes e oficiais da Polícia Militar. O currículo deve ser revisado a cada dois anos.

“Minha maior preocupação é a internalização deste processo,” diz Barroso.

Em seguida, ela transformará o currículo da academia da Polícia Civil, responsável pela investigação policial.

Não tem cara de batalhão

Sob a orientação de Barroso, a Polícia de Choque  está agora fazendo cursos de reciclagem de uma semana nos fundos do portentoso e decadente quartel general. Em uma sexta-feira no início do mês passado, num bunker moderno além  de um canto surpreendentemente bucólico, pequenos grupos do Batalhão estavam sendo testados quanto aos conceitos de letalidade das armas que eles haviam estudado naquela semana.

Pirâmide de armas

“Há uma pirâmide de armas, a advertência verbal é a base,” disse o instrutor, capitão Gilberto Martins. O curso de uma semana é direcionado a policiais que tenham entre um e dez anos de serviço. Até o final deste mês, 400 homens terão aprendido a pensar cuidadosamente sobre qual arma é adequada a cada tipo de situação.

O teste consistia em uma encenação, com alguns alunos se fazendo de bêbados arruaceiros. Sentados ao redor de uma mesa de madeira, eles cantavam e batucavam – até que um homem ameaçou esfaquear o outro. Após escolher as armas, era para os policiais entrarem em ação e trazer a situação sob controle.

 

Uma equipe se deixou intimidar demais ao aproximar-se do grupo de arruaceiros, armando-se de escudos, além de armas. Outro grupo acertou ao destacar um policial armado com um rifle para isolar a área; em seguida, eles cobriram outro policial enquanto se aproximava do suspeito até que conseguiu imobilizá-lo com um taser.

Após cada intervenção (filmada com uma câmera presa na cabeça, para discussão posterior), o instrutor fazia uma breve avaliação do exercício.

Certo e errado

Assistir a isso suscitou, novamente, reflexões sobre  o trabalho necessário para superar plenamente os desafios envolvidos na transformação da cidade. “Eu pago o salário de vocês, são um bando de vagabundos,” um “suspeito” berrou ao ser levado pela polícia – imitando o que ele explicou mais tarde ouvir frequentemente de civis da Zona Sul.

Enquanto isso, neste ano 6.000 policiais receberão treinamento sob o novo currículo. Então sobram apenas 54.000 (supondo que todos estejam sujeito a cursos de reciclagem), até 2016.

“Pago seu salário!”

Tradução por Rane Souza

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About Rio real

American journalist, writer, editor who's lived in Rio de Janeiro for 20 years.
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