Violência no Rio: perguntas que não são feitas

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For Rio violence: unasked questions, click here

No meio do tsunami de notícias ruins no Rio de Janeiro dos últimos dez dias, o prefeito Eduardo Paes disse que os dois jovens acusados pela morte do cinegrafista Santiago Andrade, durante um protesto contra um aumento na passagem de ônibus, eram  filhinhos de papai mimados que “precisam ficar na cadeia por muito tempo”.

Talvez o êxito político do Paes seja devido, parcialmente, à capacidade dele para dar voz aos pensamentos dos seus eleitores. Já chamou os argentinos de  cucarachas, afinal.

Um dos dois jovens que mofa hoje em Bangu, Fabio Raposo, seria desempregado e descontente, membro da classe média brasileira. O outro, Caio Silva de Souza, vem, de acordo com reportagens, de uma família pobre de migrantes nordestinos. Trabalhou num hospital como auxiliar de serviçõs geraisAqui se pode assistir a uma entrevista exclusiva que ele deu ao “Jornal Nacional”, da TV Globo.

Independente destes serem filhinhos de papai mimados, a utilização do termo por parte do prefeito, junto com as reportagens e comentários na mídia brasileira, deixaram intocada a questão dos motivos da violência. Uma análise da violência poderia ser entendida, aparentemente, como legitimação.

A prioridade é manter a paz — e não há nada de errado com isso.

Porém, tal prioridade levou à negligencia do papel dos meios de comunicação como auxílio ao cidadão que busca fazer sentido do mundo e de seu lugar nele.

Portanto, seguem algumas perguntas sem resposta que surgiram nos últimos dez dias:

  • Por que Jonas Tadeu, advogado dos dois jovens, deu a entender que eles receberam dinheiro pela participação nas manifestações? Foi para pleitear uma sentença menor? Ou para sujar as reputações de políticos de esquerda? Ou por ambos motivos?
  • Por que a mídia focou nos partidos de esquerda como fonte dos supostos pagamentos? Por que quase ninguém mencionou, nem deu seguimento profundo, a uma matéria de novembro passado em O Globo,  sobre o suposto “ativismo profissional”, de parte de pessoas ligadas ao ex-governador Anthony Garotinho, que não é esquerdista? Por que não houve debate sobre os protestos e a violência no contexto da eleição de outubro próximo, para governador?
  • Jonas Tadeu permitiu que seu cliente desse uma entrevista exclusiva à TV Globo na noite de sua prisão, na Bahia. Isso foi aconselhável, do ponto de vista de seu cliente? Por que não temos notícia de nenhum grupo civil ou ONG, inclusive a OAB, ter tomado a inciativa de questionar a atuação de Tadeu ou de oferecer uma defesa alternativa aos acusados? A OAB já monitorou manifestações e prisões, ajudando os presos, nos últimos meses.
  • Por que os acusados estavam na manifestação? Por que alguns manifestantes, pagos ou não, acreditam ser aceitável atacar propriedade e polícia, arriscando a vida e bem-estar de outras pessoas?

A prioridade de manutenção da paz deixa muita coisa à margem, intacta.

É como se os brasileiros conseguissem digerir a realidade em doses, apenas. O programa Mais Médicos, da presidente Dilma Rousseff, independente de seu êxito em transplantar cubanos temporariamente, finalmente demonstrou o fato de que existe uma falta de médicos nos redutos afastados e bairros pobres deste país. Mesmo em locais nem tão fora do mapa mental, como recentemente descobriu esse colunista português.

Há tanto ainda a ser digerido.

O foco em violência urbana ligada às manifestações — nosso assunto mais quente, já que está em jogo a paz durante a nossa Copa — eclipsou, na última semana, outros casos de derramamento de sangue e turbulência. Com polícia e traficantes de droga em confronto nas zonas Norte e Oeste, e relatos conflitantes dos eventos, moradores enfurecidos queimaram ônibus e até destruiram um canteiro de obras da Transcarioca, a pista dedicada para ônibus que, até o começo dos jogos olímpicos, deve ligar a Barra da Tijuca ao aeroporto internacional.

Ontem à noite e hoje, houve confrontos violentos na favela da zona Sul, a Rocinha, com uma suposta batalha pelo território entre dois traficantes, apesar da presença de um UPP.

A maioria quer paz, sim. Mas o medo da violência — e o medo das opiniões ofensivas dos outros, também — pode nos cegar. O cidadão que pensa é requisito para uma democracia saudável. Alguns usuários do Facebook estão excluindo aqueles cujos opiniões consideram inaceitáveis, criando bolhas. Um comentarista exortou os leitores a optarem por apoiar ou denunciar os black blocs, dizendo que agora não existe mais uma posição intermediária.

Porém, se não tentamos colocar as perguntas mais duras — e respondê-las –, arriscamos ganhar mais daquilo que tememos.

Pode ser que se definir politicamente ou atribuir a culpa corretamente não seja o ato dos mais difíceis. Talvez o que demanda coragem verdadeira seja ouvir quem é diferente. Constantemente repensar nossas suposições e crenças. As bolhas costumam estourar.

Clique aqui e aqui para ler editoriais do jornal O Globo, a respeito do dever de um  jornal.

Clique aqui para ler um artigo no Globo, na página de opinião, do deputado estadual Marcelo Freixo.

Clique aqui para assistir a um vídeo do Rafucko, criticando o “Jornal Nacional”.

Se você tiver sugestão de outros questionamentos, independente de tribo, por favor coloque-a nos comentários.

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About Rio real

American journalist, writer, editor who's lived in Rio de Janeiro for 20 years.
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