Enquanto você assistia à Copa, parte I: a saída do editor da seção Rio do jornal O Globo

Olho na cobertura do Rio de Janeiro, feita pelo seu jornal mais importante

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Gilberto Scofield (foto Marcos Alves)

Deve um jornal refletir o mundo de seus leitores, ou ajudá-los a expandi-lo?

No contexto da negociação constante entre esses dois pólos, realidade de qualquer meio  de comunicação, o RioRealblog conversou recentemente com Gilberto Scofield, ex editor da seção Rio de O Globo. Foi demitido no começo deste mês, após uma desavença interna.

Vale dizer que a negociação constante entre os dois pólos acontece diante de uma história repleta de dificuldades e desafios. Depois da morte do jornalista Tim Lopes em 2002, no Complexo do Alemão, nas mãos de um traficante, os meios de comunicação brasileiros sumiram das favelas do Rio.

As favelas abrigam um quinto da população. Por pelo menos seis anos, os jornalistas e quem mais constituísse os outros quatro quintos evitaram as áreas informais. A falta de conhecimento desta geografia, junto com taxas crescentes de violência, contribuíram para o surgimento de mitos e suposições sobre as favelas e seus moradores, muitos dos quais — apesar da pacificação, desde 2008 — perduram até hoje nas mentes dos cariocas  (inclusive jornalistas), sobretudo os da Zona Sul.

“A Rocinha é nossa”, O Globo estampou em sua primeira página, no dia depois da ocupação policial da favela, em 2011. Nós quem? muita gente perguntou.

Assim, há um ano e meio Gilberto Scofield chegou de São Paulo para a chefia da seção Rio de um jornal que não cita nomes dos grupos criminosos, preferindo chamá-los de “facções”; um jornal que, ao apoiar a pacificação, evita criticar o governo estadual; um jornal que cobre as polêmicas remoções de moradores de favela de maneira superficial; um jornal de foco privilegiado na Zona Sul, a detrimento não apenas das Zonas Norte e Oeste, mas também das cidades que fazem parte da região metropolitana, cada vez mais interligadas com o Rio de Janeiro propriamente dito.

Pouco disso mudou sob seu comando.

Mas a cobertura do Rio melhorou muito. O secretário de Patrimônio Cultural, Intervenção Urbana, Arquitetura e Design da prefeitura do Rio, Washington Fajardo — voz franca, apesar do cargo, sobre uma variedade de assuntos tocante ao Rio — foi um dos primeiros a elogiá-lo depois da demissão, pelo Facebook.

Disse que Scofield ajudou a cidade. “Sua atenção para o campo do planejamento, projeto e design também ajudou a educar e formar leitores e população,” escreveu. “Em especial neste momento de transformação urbana falar sobre cidades como você fez cria um patamar de qualidade de informação que não tem mais possibilidade de regresso. É o seu legado. Parabéns pelas inovações que você trouxe frutos da sua competência e visão avançada.”

De fato, a cobertura do Rio expandiu e se enriqueceu. Temos matérias menos superficiais e tímidas, mais matérias sobre favelas e outras partes da cidade e do estado até então ignoradas. Temos duas novas colunas, uma sobre design (num sentido irrestrito), e uma coluna semanal sobre a vivência local, Panorama Carioca, que Scofield compartilhava com outros comentaristas (veja um exemplo aqui). No ano passado, o jornal instituiu um concurso, entre alunos da UFRJ, para a revitalização das estações de trem. Com grande destaque durante a nova Semana de Design, em parte patrocinada pelo jornal, o concurso seria repetido e ampliado neste ano, diz o ex editor. “Tem que aproveitar esse mar de cérebros,” comenta, falando sobre o mundo acadêmico que costuma ficar fechado em si.

Concursos, porém, mesmo quando patrocinados pelo Globo, nem sempre levam a realizações concretas. Há três anos, o Concurso Morar Carioca — apresentado com alarde no jornal — selecionou 40 projetos de escritórios de arquitetura para a urbanização de favelas. A maioria não saiu da prancheta.

A experiencia de morar em cidades como Washington D.C. e Pequim, como correspondente do Globo, contribuiu para a atuação de Scofield na editoria Rio. Na capital americana, ele observou um nível de participação comunitária bastante rara por aqui. Diante de uma falta de visão e planejamento urbano no Rio, diz ele, é crucial fomentar o debate. “A democracia é um conceito muito jovem no Brasil,” explica. “Precisamos aprender a conviver em comunidade.” Cita a polêmica da praça São Salvador, onde moradores perdem sono por causa do barulho de frequentadores boêmios.

“É preciso decentralizar o debate da Zona Sul”, acrescenta Scofield, criado no Méier, Zona Norte. “Por que não termos uma árvore de Natal que viaje? Por que não colocá-la um ano na Lagoa, um ano na praia de Ramos?”

Se tivesse ficado mais tempo como editor, diz Scofield, teria desenvolvido mais o jornalismo investigativo na área política, pesquisando ligações entre grupos de interesse e o legislativo, por exemplo. Também, teria dedicado mais cobertura à Zona Oeste. O turismo no Rio de Janeiro seria outro assunto a ser explorado.

Do ponto de vista desta blogueira, o jornal muito poderia contribuir para a integração da cidade, reportando mais sobre a realidade do dia a dia em suas partes informais, para desafiar os mitos nas cabeças de quem mora no asfalto — e suscitar o diálogo. Como foi no mês passado de abril, por exemplo, na Rocinha, lidar com a falta de água quase contínua?

O jornal também poderia ajudar o leitor a entender em que medida que ele faz parte de uma área metropolitana de 12 milhões de habitantes — uma região que só poderá limpar a baía de Guanabara, por exemplo, por meio de uma coordenação que vai muito além da capital.

Rolland Gianotti, editor-adjunto de Scofield, o substitui interinamente. Não se sabe ainda o nome do novo editor definitivo. Enquanto isso, os leitores por vezes se vêem espelhados no jornal e por vezes, instigados a se pensarem na metrópole. Veremos, mas adiante, em qual proporção O Globo irá dosar as funções, num ambiente tenso de grande transição entre o jornal impresso e o jornal digital.

Scofield, que agora reflete sobre a vida nova, jura que vai continuar participando do debate. Já confirmou presença nos próximos encontros, por exemplo, do OsteRio. “A cidade está dentro de mim,” diz.

 

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About Rio real

American journalist, writer, editor who's lived in Rio de Janeiro for 20 years.
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