Violência policial no Festival do Rio: o documentário “À queima roupa”

From the UPP police facebook group page: "Congratulations to all those who think of themselves as having been born like this. I think of myself this way"

Da página da polícia das UPPs no Facebook, em 2012: “Parabéns a todos que se consideram nascidos assim. Eu me considero assim”

Veja o trailer aqui. O filme, que conta com crowdfunding do site Catarse, estará nos cinemas a partir do dia 16 de outubro.

A memória fica curta, face ao dia a dia movimentado de notícias sobre o crime e a polícia do Rio de Janeiro.

Na semana passada, no rastro de uma investigação que resultou na prisão de 24 policiais no dia 15 de setembro, um policial preso declarou em depoimento, com o intuito de diminuir sua sentença prisional, que o comando da polícia militar demandava de cada batalhão o repasse mensal de R$ 15 mil em propinas. Ou seja, se for comprovada a denúncia, a corrupção policial e a atividade paramilitar, apesar de esforços para combatê-las, ainda estariam bastante difundidos na corporação.

Assim, o corajoso documentário À queima roupa, dirigido por Theresa Jessouroun, faz um enorme favor ao público, relembrando, com detalhes verídicas e encenações dramáticas, a  violência policial na área metropolitana desde 1993, ano do massacre do Vigário Geral. Ao entrevistar familiares e sobreviventes, autoridades e o informante Ivan Custódio Lima, sobre vários episódios de violência policial, Jessouroun aponta fatores que até hoje contribuem para a dor e para a injustiça, perpetradas por pessoas que deveriam proteger a população e prevenir o crime:

  • o pouco valor associado à vida do morador de favela
  • a atividade criminal por parte dos policiais, que extorquem criminosos e revendem as armas e drogas apreendidos
  • o mau preparo e falta de adequado acompanhamento psicológico dos policiais
  • a impunidade

O filme traz cenas extremas, de sangue e de morte — e do trágico espanto do filho da juiza Patrícia Acioli, morta na porta de casa por policiais em 2011 porque mandara prendê-los.

Photo by Taylor Barnes

Foto: Taylor Barnes

Duas das cenas mais marcantes do filme são a lágrima solitária que escorre a face de um barbeiro que sobreviveu um tiro no cérebro e hoje sofre de paralisia cerebral, mal conseguindo se comunicar verbalmente; e a declaração do informante Ivan de que os policiais responsáveis pela chacina do Vigário Geral, inclusive ele, deveriam ter ficado mais tempo na prisão. “Você acha que seis anos vale uma vida?” ele pergunta.

O filme termina quase nos dias de hoje, com cenas de moradores e policiais de UPP na favela de Jacarezinho, em abril de 2013, quando um jovem transeunte morreu baleado. A conclusão do documentário suscita a sensação de que nada mudou desde 1993: as balas continuam voando, destruindo as vidas dos moradores em favelas (para essa blogueira, tal sensação foi reforçada poucas horas depois do fim da sessão de cinema, com a notícia de mais uma conturbada morte de jovem morador, desta vez no Complexo do Alemão).

Mas o que mais emociona, nas cenas finais do filme, é a coragem e convicção dos moradores, na hora da morte do jovem de Jacarezinho, que supostamente comia um cachorro quente na hora de ser atingido. Juntos, eles protestam veementemente a morte, gritando em coro a palavra “justiça!”. E isso serve para lembrar ao espectador que tenha acompanhado os fatos dos últimos anos no Rio de Janeiro que, mesmo que perdurem a corrupção e a violência policial, alguma coisa mudou sim desde 1993. Como lembra o informante Ivan no filme, houve poucas provas no caso da chacina de Vigário Geral, onde a maioria dos moradores tinha medo de testemunhar contra os policiais.

Veja também:

http://oglobo.globo.com/rio/laudo-do-icce-confirma-que-policiais-militares-tentaram-fraudar-investigacoes-do-caso-amarildo-13796143

http://oglobo.globo.com/rio/apos-nove-mortes-policia-promete-investigacao-exemplar-na-mare-8803420

http://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2014/04/08/reconstituicao-de-mortes-em-operacao-do-bope-mare-mobiliza-140-policiais.htm

http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2014/09/nove-pms-condenados-por-morte-de-juiza-patricia-acioli-sao-expulsos.html

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About Rio real

American journalist, writer, editor who's lived in Rio de Janeiro for 20 years.
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