Trens atrasados no Rio metropolitano– há décadas

O vídeo também demorou

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Trem antigo, ainda em uso, junho 2014

Muitos meses atrás, o RioRealblog viajou de trem em parceria com o capítulo Rio de Janeiro do Instituto dos Arquitetos do Brasil, para ver e sentir de perto como é a peregrinação dos passageiros da SuperVia.

A cobertura da Copa do Mundo atrapalhou bastante a elaboração da reportagem. Aos parceiros, leitores e espectadores, pedimos desculpas pela demora.

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Trem mais novo não suscita sorriso

Confessadamente, faltou coragem  para andar de trem na hora do rush, como fazem diariamente centenas de milhares de pessoas no Rio de Janeiro. Mas fomos duas vezes, de manhã e de noite. Filmamos e fizemos fotos; conversamos com passageiros.

A estação Central do Brasil, imortalizada no filme homônimo de 1998, vencedor do Oscar, faz parte de um conjunto eclético e movimentado de estações de teleférico, ônibus e metrô. Do outro lado da rua, o Comando Militar do Leste, no palácio Duque de Caxias.

Apesar da proximidade de soldados do Exército e a despeito de a sede da Secretaria Estadual de Segurança Pública estar localizada num prédio adjacente à estação, a área, ocupando um quarteirão enorme da ampla avenida Presidente Vargas, não transmite segurança constante (foi bem frente à estação que um cinegrafista morreu no começo deste ano, atingido por um rojão durante o que veio a ser a última grande manifestação de rua) . E, em partes dos ramais de Santa Cruz e Belford Roxo, o passageiro fica a mercê de traficantes de droga que supostamente tomaram vários territórios.

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A Estação Central, que data dos anos 1930: viagem no tempo, não tão agradável

A maior queixa são os longos intervalos entre os trens, a espera. O passageiro dificilmente sabe quanto tempo irá demorar para chegar no trabalho ou em casa; às vezes gasta horas na viagem. A qualidade dos trens também deixa muito a desejar. “O barulho é ensurdecedor,” comentou Eduardo Cotrim, conselheiro do IAB-RJ, depois de um de nossos passeios. “Se a pessoa quer ler alguma coisa, conversar ou falar no telefone, é praticamente impossível.”

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Poucas mulheres, à noite

Cotrim apontou o enorme potencial do sistema de trens do Rio de Janeiro — cuja infraestrutura já está implantada — lembrando que Sérgio Magalhães, presidente do IAB, recomenda transformar os trens em linhas de metrô.

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Câmeras vigiam algumas das estações, já

RioRealblog descobriu, numa visita ao moderno Centro de Controle Operacional da concessionária SuperVia, inaugurado em 2012, que é mais ou menos isso que está a caminho. A companhia recebe novos trens e encurta os intervalos, progressivamente. “O objetivo é que tenhamos um metrô de superfície,” disse João Gouveia, diretor de operações. Ano que vem, ele promete, todos os trens serão refrigerados. Um sistema moderno de sinalização vem aí, também. No mês passado, a empresa submeteu um pedido para recursos do governo federal, para melhorar a segurança nas estações.

A rede ferroviária do Rio metropolitano, que passa pelos municípios de Duque de Caxias, Nilópolis, Mesquita, Nova Iguaçu, Queimados, Japeri, São João do Meriti, Belford Roxo, Paracambi, Magé e Guapimirim, além de a capital do estado, foi privatizada em 1998. Gouveia concordou com o RioRealblog que demorou muito para que se tivesse boas notícias sobre a SuperVia.

Trata-se de “um passivo de décadas, uma falta de investimento,” diz Clarisse Linke, diretora do Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento (ITDP) no Brasil. No nosso vídeo, mostramos um pedaço de um mini-documentário dos anos 1950 que, se não fosse em branco e preto, quase poderia ter sido rodado ontem. Só faltam os surfistas de trem, que brincavam com a morte nos anos 1990.

De fato, a transformação só começa a ser sentida após o ano de 2011, quando a Odebrecht TransPort, que também opera os teleféricos do Rio (e tem uma participação na nova linha de bondes -VLT – sendo implantada no centro da cidade), assumiu o controle do sistema. Desde então, cresce o número de trens e o número de passageiros também. A SuperVia marcou um recorde de passageiros transportados no dia 5 de setembro passado: 649.672 pessoas. É o mesmo número de pessoas que utilizavam os trens nos anos 1950.

Desde as manifestações de 2013, desencadeadas por aumentos em tarifas de ônibus no Rio e em São Paulo, a palavra “mobilidade” está, enfim, nos corações e nas mentes dos brasileiros. A falta de atenção ao assunto até então — ou seja, a prioridade dada aos automóveis, opção dos cidadãos de melhor situação financeira — era tanta que nem se mantinha adequadamente o relativamente pequeno e querido sistema de bondes em Santa Teresa.

Pelo que o RioRealblog pôde apurar, os trens suburbanos realmente passam por uma revitalização significante. Vamos ver como ficam até os Jogos Olímpicos. Agora, mais do que nunca, é hora de acompanhar de perto alguns aspectos do sistema, além do próprio funcionamento:

  • o fato de termos poucas empresas atuando no setor de transportes públicos, quase todas com origem na área de construção civil. Existem transparência e competição adequadas para as necessidades dos passageiros?
  • a atuação da agência reguladora, a Agetransp. Representa plenamente os interesses dos passageiros?
  • a natureza da revitalização das estações de trem. Será de acordo com um dos preceitos mais modernos do urbanismo, o “desenvolvimento orientado ao transporte“, para que bairros e estações estejam integrados, movimentados e seguros?

Para mais informações sobre a SuperVia, clique aqui.

Será que a ideia do transporte público está finalmente mudando no imaginário do povo, de todas as classes sociais, na metrópole? Veja nosso vídeo, de poucos minutos:

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Contrastes grandes em toda parte: relógio antigo no novo Centro de Controle da SuperVia

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About Rio real

American journalist, writer, editor who's lived in Rio de Janeiro for 20 years.
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