Ao perder o bonde, perderíamos muito mais

“Sobraram apenas a Prefeitura Municipal e um punhado de prédios circundantes, relíquias arquitetônicas da gloria do município de Barnsley no século XIX, que os visitantes identificavam seguindo placas que fingiam ser antigas. Enquanto isso, bancas de livros, no mercado local, vendiam antiguidades aos próprios residentes da cidade (Barnsley não constava de qualquer roteiro turístico) – fotos em tom sépia, [gravuras] e livros com título do tipo Os Anos Dourados de Barnsley ou Memorias da Velha Doncaster (vilarejo vizinho): lembranças de um mundo recentemente perdido e já meio esquecido.”

— Tony Judt, historiador inglês, em Pós-Guerra, uma história da Europa desde 1945

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Roberto Marques, presidente da Central, entidade estadual responsável pelo bonde; e o Secretário estadual de Transportes, Carlos Osório, enfrentam uma sala repleta de moradores

Teremos o bonde de Santa Teresa de volta, algum dia?

Há 15 meses, as ruas estão tomadas por obras, engarrafamentos, poeira e lama. Nesse tempo, completou-se apenas 20% da substituição da infraestrutura do bonde. Os ônibus – solução “temporária” — não atendem às necessidades dos moradores. A volta do bonde foi prometida, inicialmente, a tempo para a Copa de 2014.

Ou seja, ninguém sabe a resposta a essa pergunta.

 

No último dia 22 de abril, uma reunião entre moradores e o recém instituído Secretário estadual de Transportes, Carlos Osório, trouxe a informação alentadora de que, apesar de atrasos e despesas inesperadas e a situação lastimável das finanças do estado, ainda sobra dinheiro.

“Gastou-se 30% do valor da obra,” disse Osório. Os recursos para a troca de trilhos, vias áereas e uma subestação elétrica totalizam R$ 58,6 milhões. Para 14 bondes novos, o orçamento é de R$ 52 milhões. O total é irrisório, comparado com a obra atual da Linha 4 do Metrô, por exemplo, atualmente a maior obra de infraestrutura urbana da América Latina, com um orçamento de R$ 8,7 bilhões.

De acordo com o presidente da Associação de Moradores e Amigos de Santa Teresa, AMAST, Jacques Schwarzstein, o atraso na obra do bonde deve-se a questões que fugiram ao planejamento, como muros de contenção e a troca das tubulações de água, esgoto e gás, que correm por baixo dos trilhos.

O problema mais recente são paralelepípedos que atrapalham o funcionamento do imprescindível quarto freio dos bondes novos, que é magnético e portanto precisa atingir, plenamente, o metal do trilho. O fabricante dos bondes é a TTRANS, empresa localizada em Três Rios, especializada em equipamento de trens e metrô. Ela já construiu bondes para Santa Teresa (apelidados por moradores de Frankensteins), cujo projeto não levou em conta as curvas nas ruas do bairro.

O grupo responsável pela obra, o Consórcio Azvi-Elmo, está no momento empenhado em serrar os paralelepípedos rebeldes.

Por esses e outros motivos, vários participantes na reunião do dia 22 portavam cartazes, grampeados à roupa, perguntando: “Cadê o projeto executivo?” Um projeto executivo teria previsto os imprevistos, inclusive o fato de que não existia um mapa das tubulações subterrâneas.

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O AMAST é uma das associações de moradores mais ativas do Rio de Janeiro

Nunca houve um projeto executivo, informou o Secretário, acompanhado durante a reunião por Roberto Marques, presidente da Central, entidade estadual responsável pelo bonde.

Os bondes de Santa Teresa pararam de vez em agosto de 2011, após um trágico acidente causado por décadas de falta de investimento em manutenção e peças de reposição.

De acordo com Schwarzstein, muitos moradores não queriam a substituição dos bondes nem dos trilhos. Para eles, teria sido possível fazer uma simples reforma de ambos. O estado, porém insistiu numa obra maior, que acabou sendo administrada pela Casa Civil — apesar da responsabilidade ser da Central (que hoje recuperou a tarefa).

Um documentário sobre o bonde, rodado pelo cinegrafista e morador Jorge Ferreira, antes do acidente, conta uma longa história de improvisações criativas e corajosas, acima de tudo por parte dos funcionários, que contribuíram diretamente à sobrevivência do bonde de Santa Teresa – face à “modernização” que acontecia no resto da cidade, priorizando pneus acima de trilhos.

Hoje, é triste constatar que a improvisação continua, só que por parte do governo. A troca dos canos da Cedae, a empresa estadual de agua e esgotos, não foi prevista no projeto básico, nem no planejamento, nem no orçamento da Cedae. Então, quem faz o serviço, sem contrato, é uma equipe de manutenção do dia a dia, ausentada de outros serviços da região que a empresa atende. E todo carioca, acostumado a dar volta a poças de esgoto e de água desperdiçada, sabe do acúmulo desses serviços.

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Obra parada, trânsito idem, sem sinalização, sem travessia de pedestres

Durante a reunião do dia 22, o Secretário Osório perguntou aos moradores se queriam que a Cedae continuasse com a troca dos canos, ou se preferiram que ela esperasse a continuação da obra do bonde, hoje parada enquanto o estado e o consorcio negociam os próximos passos.

“Cadê o projeto executivo?” perguntavam, novamente, alguns moradores. “Como podemos nós decidir isso? É uma questão técnica!” Outros, impacientes com os atrasos e as inconveniências da obra, querem que a Cedae continue com sua parte, para terminar quanto antes.

O Secretário lamentou os erros de gestão e aceitou a oferta de trabalhar, daqui para frente, em parceria com o bairro, que reúne conhecimentos valiosos para obra, mesmo que não sejam de ordem técnica.

“Santa Teresa não é Disney,” reconheceu Osório.

Ainda bem que o bairro, apesar de suas lojas de ferragens, padarias e papelarias terem se transformado, nos últimos anos (mesmo sem o bonde) em bares e hostels, não seja visto como um parque de diversão. A era de megaeventos no Rio de Janeiro trouxe consigo o conceito de branding (gestão de marca) com a noção de que as cidades competem entre si por eventos e turistas. A questão raramente debatida, porém, é se um branding, com pouco conteúdo real de vivência e de trocas humanas — do rico dia a dia urbano — pode ser suficiente para atrair o turismo.

Que o diga Tony Judt, acima, falando de um vilarejo inglês. Claro que o Rio de Janeiro dispõe de mais atrativos do que Barnsley, mas ainda assim conseguimos, essa blogueira teme, deixar a Cidade Maravilhosa um remanescente oco do que já foi.

Pelo que disse o Secretário, apesar de obras Brasil afora se tornarem problemáticas justamente pela falta de projeto executivo, não vai haver um projeto executivo para o bonde. Nas últimas décadas, governos e empreiteiras criaram um modus operandi pelo qual a contratação acontece fundamentada em um projeto básico. Ao passo que a obra anda, o projeto é detalhado – e os custos (e oportunidades para o superfaturamento) vão subindo.

Se algumas das grandes obras de construção tivessem o olhar atento que o bonde de Santa Teresa sempre teve, por parte de moradores, funcionários e passageiros, talvez não fossem objetos de má gestão e corrupção.

Mas, por ironia do jogo, talvez não iriam terminar nunca. Quando faltam planejamento, articulação entre diferentes entidades governamentais e o preparo adequado de funcionários e trabalhadores, não basta um olhar atento – e, possivelmente, nem o branding.

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O olhar atento e a lágrima do bonde

 Para ver um vídeo tragicómico sobre a atualidade em Santa Teresa, clique aqui

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About Rio real

American journalist, writer, editor who's lived in Rio de Janeiro for 20 years.
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