Rio de Janeiro avançou, mas a crise não vai nos poupar: uma conversa com Alfredo Sirkis

Extensão do metrô

A extensão do metrô faz parte de uma gama de avanços que o Rio logrou nos últimos anos

De revolucionário estudantil a secretário de urbanismo, vereador, deputado federal e hoje, ativista dedicado às mudanças climáticas, Alfredo Sirkis é fonte de considerações valiosas sobre o passado, presente e futuro da metrópole. Será que é visionário? Considera-se “pai das ciclovias“, pois foi ele quem levou a ideia ao então prefeito Marcello Alencar, em 1992. Hoje temos por volta de 400 quilômetros de ciclovia.

RioRealblog sentou com ele no centro da cidade, semana passada, para uma conversa instigante.

Político experiente que já viu um pouco de tudo, Sirkis contabiliza muitos pontos positivos dos últimos anos no Rio de Janeiro. Avisa, porém, que, mesmo antes da abertura dos Jogos Olímpicos, a festa acabou: “O governo de estado em breve não vai poder pagar a folha. Vai para o buraco rápido.” Vai ser um quadro “tipo Saturnino”, avalia.

Saturnino Braga foi o primeiro prefeito eleito do Rio de Janeiro, após o fim do governo militar, em 1985. Decretou a falência do município em 1988; o livro A Casa da Gávea conta que o prefeito, dispensando o carro oficial, dirigia um Fusca. A casa oficial caía aos pedaços. Só dá para imaginar a crise de funcionalismo público, da manutenção de infraestrutura e de investimentos, na época.

Enquanto o leitor reflete sobre a possibilidade de tal futuro sombrio, seguem as partes mais quentes da entrevista com Sirkis.

RRB: Como você avalia o prefeito Eduardo Paes?

“Eduardo teve sete anos de circunstâncias razoavelmente generosas. Houve o alinhamento político — municipal, estadual e federal — coisa que no Rio de Janeiro não é muito habitual acontecer. O Rio ter sido escolhido para os Jogos Olímpicos permitiu atrair grandes investimentos para a cidade”, diz Sirkis, lembrando que o projeto Porto Maravilha teve origem na gestão dele como secretário de urbanismo, quando César Maia era prefeito, no início dos anos 2000.

Sirkis ficou feliz de ver o projeto implementado, mas diz já ter comentado com Paes que “o projeto depende, para o sucesso ou fracasso, do uso residencial de classe média na área portuaria. Se não tiver isso, vai virar apenas um prolongamento do downtown do Rio de Janeiro da forma com que ele existe hoje”. Sirkis também se preocupa com “os aspectos não urbanísticos da revitalização, notadamente o lado econômico-social em cima da economia local, ou seja, revitalização não é apenas construção e obra pública, é também processo social e econômico, de dinamização da economia local.”

Do mesmo jeito, Sirkis aprova, com restrições, a remoção da Perimetral, permitindo maior acesso à baía de Guanabara, sobretudo para o pedestre. Diz que no lugar de Paes teria deixado um pedaço do viaduto (da Barão de Tefé em diante, indo em direção ao Caju) em vez de trocá-lo por uma via expressa, que continua como barreira à baía. “No futuro, acho que [a nova via expressa] também vai ter que ser incorporada à revitalização”, prevê.

A extensão do metrô, obra do estado com recursos federais, e a implantação dos BRTs, diz Sirkis, são importantes legados do recente período de transformação do Rio de Janeiro. A favor do adensamento e contra o espraiamento, ele concorda com os críticos de Paes que pregam menos foco na Zona Oeste e mais na Zona Norte e o centro da cidade. Afirma, porém, que a superlotação dos BRTs demonstra o êxito deles. “O fato mostra que há densidade suficiente para alimentar economicamente esse sistema de transporte”, diz.

Ele não acredita que o fato de um número grande de ônibus estar constantemente em manutenção, por causa do asfalto irregular, seja um fator importante na superlotação.

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Na área portuária, potencial a se realizar

RRB: Então, terá valido a pena hospedar os Jogos Olímpicos?

Sirkis responde à pergunta com uma calma que muitos jovens críticos não sentem. Ele, que ajudou a elaborar uma candidatura anterior, propondo a Ilha do Fundão como local para as competições, lembra que ela “foi para o espaço, praticamente foi ridicularizada, a proposta”.

É sabido que a candidatura na Barra teria superado a da Ilha do Fundão (ou a de qualquer outra parte da cidade) no quesito segurança, já que a Barra oferecia espaços de rala ocupação, de acesso fácil.

“Sou favorável a uma cidade densa e acho o problema do espraiamento um problema sério”, prossegue. “E gostaria de ver esses investimentos todos feitos na Barra feitos na Zona Norte, no centro da cidade. Mas a verdade nua e crua […] é que ou você quer ganhar as Olimpiadas ou você não quer ganhar as Olímpiadas”.

Diz ele que comparar o que acontece na Barra com o que teria sido o caso na região portuária, por exemplo, “é um falso dilema […] o mesmo dinheiro não estaria disponível para outras coisas”. Houve um ganho, acrescenta, apesar do custo do espraiamento na Zona Oeste. Tivemos, diz, uma grande melhora no clima de investimentos, com recursos indo também para a Zona Norte e a região do porto.

É impossível saber como teriam sido os últimos anos sem a perspectiva dos Jogos de 2016. Sirkis acredita que só daqui a alguns anos é que poderemos avaliar o impacto do evento na cidade.

RRB: Qual o entrave principal para urbanizar as favelas, conforme prometia o prefeito com o abortado programa Morar Carioca?

Sirkis criou, nos anos 1990, os POUSOs, Postos de Orientação Urbanística e Social, localizados em favelas para “prestar apoio técnico no local para garantir a segurança e introduzir regulamentos na construção nas favelas“. Desde então, ele observe que a questão fundiária é o maior obstáculo à urbanização (e por consequência, à integração urbana).

“O problema”, diz Sirkis, “é que você tem uma situação fundiária caótica, você tem o sistema cartorial brasileiro que é um horror, e você tem decisões que só o judiciário pode de fato bater o martelo, em relação ao usucapião coletivo e uma série de mecanismos e, por outro lado, para você construir legalmente em área de favela, em zonas especiais de interesse social, você teria que ter a licença da prefeitura, que no caso das que têm POUSO é relativamente simples o processo [….] E o problema é que para o setor formal entrar e conseguir credito, tem que dar o terreno em hipoteca. E se a questão da regularização fundiária não se consegue, a gente acaba caindo no mesmo problema anterior. E o problema acaba ficando na mão do construtor informal. Continua o mesmo problema”.

O Brasil está repleto dessas áreas cinzas, resultado de séculos de desigualdade e de justiça irregular, permeada por relacionamentos pessoais e por compensações esdrúxulas — que bloqueiam a capacidade das instituições para tratar cada processo apenas com base em seus méritos. Assim, paralisam-se os governos.

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A zona norte, com uma boa base de infraestrutura, poderia ficar mais densa, encurtando trajetos casa-trabalho

RRB: Como lidar com os grupos poderosos, por exemplo, as empresas de ônibus?

Incremental é a palavra chave, de acordo com Sirkis. Aos poucos…

“Em relação à questão de empreiteiras, empresas de ônibus, acho que elas estão alí, fazem parte da realidade. Você ou desapropria os ônibus — os ônibus foram desapropriados com resultados desastrosos no governo Brizola. Ou então você procura imprimir uma certa regulação, reprimir, mas tem que levar em consideração que eles têm interesses, não são órgãos beneficentes, são empresas. Então é um jogo de equilíbrio complicado, existe o complicador politico que é a influencia que [as empresas de ônibus] exercem sobre […] a Camara dos Vereadores, então é complicado, muitas vezes, você bater de frente com os interesses deles.

Eu acho que o antagonismo constante e de natureza ideológica não ajuda a cidade. Você tem que ver, do ponto de vista de interesse publico, onde estão as falhas, que no caso no sistema de ônibus são abundantes, e pressionar esse agentes”.

Diz Sirkis que, quando estava na Câmara dos Vereadores, “[representantes das empresas de ônibus] tinham uma maioria sistemática. Mesmo naquela época, que a câmara era muito melhor do que hoje. Você naquela época tinha 18 vereadores que não estavam no esquema. Às vezes a gente chegava a 22, e eram [um total de] 42 vereadores. Não eram 51, como agora. Hoje em dia, sei lá quantos tem, mas certamente menos que isso […] Agora, eu acho que nessa correlação de forças, foi até um avanço ter conseguido, finalmente, pelo menos licitar as linhas [em 2010], porque antes não tinha contrato. É incremental.

Ele aconselha que o município trate de reservar parte dos serviços públicos para si, apenas para ter uma noção de custos reais e dos problemas que surgem. Também, essa estratégia serve como ferramenta útil na hora de uma greve.

RRB: Já que você prevê dias difíceis pela frente, como deve o Rio de Janeiro enfrentar a crise econômica atual?

“O Rio de Janeiro tem que buscar vocações econômicas e retirar certos entraves. Rio de Janeiro é um centro de conhecimento, mas a universidade tem que se aproximar mais das empresas”, diz Sirkis, apontando o Porto Digital de Recife como modelo.

Já que acabou o futuro brilhante do pré-sal, nossas obras estão chegando ao fim e a opção de criar empregos por concurso público “está no limite”, Sirkis sugere uma avaliação, bairro por bairro, das atividades econômicas existentes e em potencial. “Tem que incentivar empregos mais permanentes”, acrescenta, e reduzir a burocracia.

Com ou sem crise, uma coisa está certa: não há mais Fusca no futuro do Rio. No mínimo, os anos dourados que hoje chegam ao fim nos propiciaram mais espaço para bicicletas, BRTs e metrô.

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About Rio real

American journalist, writer, editor who's lived in Rio de Janeiro for 20 years.
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