Eventos parecem ser caóticos, mas não são

E agora, um pouco de contexto histórico

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Julio Ludemir, à esquerda, e Écio Salles, à direita, durante a FLUPP de 2015, acompanhados no palco por uma jovem escritora, na favela de Chapéu Mangueira, no morro atrás do Leme

Imagine um tempo em que as favelas do Rio de Janeiro ocupavam espaços em branco nos mapas da cidade e discutia-se a conveniência de manter crianças de favela na escola em período integral, propósito do antropólogo Darcy Ribeiro para suas escolas CIEP, criadas nos anos 1980 e 1990.

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Não há nada como bater um papo no fim do dia com dois sábios em matéria de jovem de favela, na mesa de um café, lanchando sanduíches quentes, água e suco.

O RioRealblog fez exatamente isso, anteontem (como parte das pesquisas de livro) no Leme, com Julio Ludemir e Écio Salles. Após décadas de experiência entre jovens de favelas e de outras periferias, em 2012 Julio e Écio criaram a FLUPP, uma festa literária com uma série de workshops, de grande vitalidade, para conectar e apoiar escritores de origem popular.

Eliane Sousa Silva, director of Redes da Maré, and Valéria Pero, researcher at IETS

Eliane Sousa Silva, diretora de Redes da Maré, e Valéria Pero, pesquisadora de desigualdade no IETS, berço do Observatório das Favelas

Não há nada igual a visão de longo prazo. Estamos habituados a pensar na eleição do Lula em 2002 como ponto de inflexão para o Brasil. É verdade, o Partido dos Trabalhadores colocou, pela primeira vez, a pobreza nos holofotes. Contudo, dizem Julio e Écio, a inclusão social já acontecia ao longo do tempo — pelo menos desde a Segunda Guerra, quando pobres do campo sairam de casa para se instalar na cidade grande.

O fim dos anos 1980 e os anos 1990, apontam, são lembrados como uma era de colapso urbano no Rio. Foram realmente anos terríveis, com massacres, guerras de drogas, sequestros e arrastões. Bancos e empresas se mandaram da Cidade Maravilhosa; até a Bolsa se mudou para São Paulo.

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René Silva, morador do Complexo do Alemão que, com 17 anos, foi pioneiro ao enviar notícias da favela durante a invasão militar de 2010, pela conta Twitter de seu jornal, Voz da Comunidade

Muitos cariocas deixaram o Rio ou se puseram a viver atrás de grades e muros. Diferente da maioria, alguns poucos indivíduos se mobilizaram, criando grupos culturais e de ação, tais como a Viva Rio, CUFA, Afroreggae, Nós do Morro e o que veio a ser o Observatório de Favelas.

Julio lembra que esses grupos eram precedidos por outros, como a FASE and o IBASE, e a obra da igreja católica e organizações com raíz na teologia da libertação.

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Raull Santiago, cujo coletivo Papo Reto publica um fluxo contínuo de informações e protestos, através de vídeos, fotos e textos, sobre o comportamento policial no Complexo do Alemão

Sempre houve a luta pelo poder no Rio, entre grupos de interesses já estabelecidos e moradores de favela, dizem os criadores da FLUPP — com idas e voltas. Eles acreditam, porém, que a “voz da rua” torna-se cada vez mais forte e com mais chance de influenciar os acontecimentos.

“Havia organizações que vinham de fora, que contavam com interlocutores locais para trabalhar em favelas”, lembra Julio. “Depois, havia o líder que fazia um esforço pessoal, talvez vinte deles, que você podia mapear facilmente”. Agora, acrescenta Écio, há tantos ativistas locais que fazer a tentativa de listar os cem mais importantes seria uma tarefa perigosa. “Eles talvez nos atropelem”, um desdobramento bem vindo, diz Julio.

Ouvindo atentamente

Binho Cultura, ativista da Zona Oeste e candidato a vereador neste ano, ao ombro de um policial, durante um encontro amplo de diálogo sobre a violência, em 2015

Sem a revolução de informação, o boom de ativismo não seria o que é hoje. Os jovens podem, agora, acessar mídias plurais, dialogar e atuar de forma contundente. Melhoras na qualidade do ensino médio também contribuem, diz Julio, assinalando que a atual crise está forçando filhos da achatada classe média a dividir, com moradores de favela, salas de aula, currículo e professores. Ele acredita que a convivência seja saudável para todos.

Além disso, os governos de Lula e Dilma ampliaram o acesso ao ensino superior. As cotas raciais (que existiam antes de Lula, mas expandiram durante os mandatos dele) levaram afro-brasileiros a, pela primeira vez, declarar a raça por um motivo postivo.

Jailson da Silva and Celso Athayde, favela pioneers, trade thoughts after their presentations

Jailson da Silva (Observatório de Favelas) e Celso Athayde (CUFA), pioneiros de ativismo de favela

No meio da confusao política e econômica, tão desanimadora, a sociedade brasileira se torna mais democrática, de acordo com Julio e Écio. Apontam a lei do ano passado, que, enfim, extendeu plenos direitos trabalhistas às empregadas domésticas.”Para muitas famílias, ficou caro demais manter uma empregada”, Julio diz. “Os pais vão ter que ensinar os filhos a fazer as coisas dentro de casa”.

Aqui, vale a pena lembrar que as manifestações de 2013 focaram na má qualidade dos serviços públicos. No sistema tradicional, duplo, as classes médias e altas pagam por serviços particulares, deixando os pobres a se virarem para educar os filhos, manter a saúde, ter segurança e andar pela metrópole. Essa divisão fica cada vez menos aceitável, sobretudo porque os 40 milhões que deixaram a pobreza nos anos Lula tiveram um gosto de outra qualidade de vida.

Urban agitators Jailson de Souza e Silva and Marcus Faustini

Agitadores urbanos Jailson de Souza e Silva (Observatório de Favelas), do Complexo da Maré, e Marcus Faustini (Agência Redes para Juventude), que cresceu num conjunto habitaconal em Santa Cruz

Écio cita os nomes de quatro jovens que conhece, interessados em se eleger a cargos públicos — uma ótima notícia, vista a baixa qualidade da maioria de nossos representantes políticos. “Há um acúmulo maior [de mudança social]”, diz, assinalando também que os jovens de hoje estão diante do desafio de criar espaços de ocupação cultural numa cidade cada vez mais asséptica, onde a diversidade e a cultura popular perdem para a padronização.

Como demonstram os estranhos eventos de segunda-feira, no Congresso, as atuais mudanças nacionais de valores e de poder  — político, social, econômico– apresentam-se como caóticas, são dolorosas de viver e abalam tanto nativos como estrangeiros. Contudo, é útil se lembrar, no meio da turbulência, que os alicerces desse país são, em vez de ideais democráticos, a escravidão e todas as suas ramificações. Rio de Janeiro é uma metrópole onde se trabalha duro para mudar isso.

Troféus dos pés à cabeça

Craques do passinho, na volta dos Jogos Paralímpicos de Londres em 2012, onde levaram ao palco uma dança que nasceu de Lan Houses e telefones celulares e conectou jovens de toda a cidade

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About Rio real

American journalist, writer, editor who's lived in Rio de Janeiro for 20 years.
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