Um chamado pelo fim da geografia do túnel

For Don’t forget Rio’s “suburbs”, click here

Fred Coelho– historiador da contracultura brasileira, blogueiro, DJ e professor de literatura– sugere novos encontros

Primeira de uma série de pepitas conversacionais, sobre a transformação da vida cultural na cidade maravilhosa.

Com 18 UPPs instaladas na cidade de Rio de Janeiro nos últimos dois anos e meio, o modo de vida carioca está mudando. Os que moram no asfalto sobem o morro para bailes e festas, enquanto os residentes de favela descem aos bares do asfalto. Trata-se de uma espécie de troca passageira– em parte, o slumming, que os vips de Nova York faziam nos anos 20, subindo para Harlem para escutar jazz?

Não, diz Coelho, que há muito tempo  acompanha a  música popular e as artes visuais no Rio de Janeiro. Porém, ele acrescenta, é preciso ir além. Literalmente.

Fred Coelho

“Sempre houve encontros entre a favela e a cidade formal,” ele diz. “Já se conheciam, de certa maneira. O que é preciso acontecer agora é um encontro entre a Zona Sul e o subúrbio, o fim da geografia do túnel.”

Poucos brasileiros de classe média ou alta já pisaram em uma favela. Pode-se dizer que tradicionalmente o contato entre o asfalto e o morro se restringia a trocas entre patrões e empregados, a compras de droga no morro, e ao consumo de música. Uma fascinante fase nova de permeabilidade e de relações mais igualitárias pode estar em curso. Informações adicionais sobre isso virão em posts futuros.

Mas é também verdade que, há muito tempo, bairros como Olaria, Engenho Novo, Meier e Cordovil estão fora do mapa mental. Coelho lembra que seu pai nunca socializou com seus colegas em um órgão de fomento à exportação no centro da cidade, o que pode ter prejudicado sua carreira. “Eles ofereciam uma carona para casa, pensando que ele morava em Copacabana ou algo assim. Quando ele dizia Penha, eles se desculpavam.” Para moradores da Zona Sul, ir à Penha requer passar pelo Túnel Rebouças, longo e escuro, para chegar em território desconhecido; ou andar pela cada vez mais decadente Avenida Brasil– ou as duas coisas.

No subúrbio, abrigo de famílias de classe trabalhadora, a vida social tem pouca conexão com a Zona Sul, onde as relações começam nos melhores colégios particulares da cidade. “Na Zona Sul, os laços sociais servem para a projeção,” diz Coelho. “No subúrbio, são para a proteção.” Os túneis funcionam de barricada entre os dois mundos, e a violência dos anos 80 e 90 intensificou a separação. Coelho observa que os moradores da Zona  Sul se limitavam a cruzar a cidade apenas para ensaios de escola de samba, e para jogos de futebol no Maracanã.

No ambiente novo de mais segurança, os sulistas começam a expandir seus horizontes. Visitam, por exemplo, o Cadeg, um mercado de flores e produtos portugueses na Zona Norte que aos sábados hospeda dança folclórica portuguesa. Em face à frequência incrementada, o número de restaurantes no mercado aumentou,  e alguns criaram cardápios sofisticados.

Quando Paul McCartney se apresentou em maio num estádio do bairro nortista de Engenho de Dentro, parte da novidade para muitos fãs foi o passeio de trem SuperVia, saindo do Central do Brasil– um malcuidado reduto de moradores da Zona Norte, que diariamente fazem o trajeto de ida e volta ao centro.

Coelho lembra que o bairro de São Cristóvão começa a passar por um boom imobiliário, pela sua proximidade ao centro, sua quase intocada arquitetura eclética de século XIX, e o aumento de segurança. A região ostenta muita história imperial, o que no século passado deu lugar a fábricas – e, em seguida, ao abandono.

Tal boom pode mexer bastante com os cariocas suburbanos que tendem a fugir para a Zona Sul logo que possível. Coelho, criado na Penha no começo dos anos 80 (onde ele jogava bola com garotos do vizinho Complexo do Alemão), se mudou para a Barra de Tijuca (onde muitos pequenos comerciantes da Zona Norte tinham apartamentos de fim de semana) e Jacarepaguá, antes de aterrissar no Jardim Botânico. “A primeira vez que vim à Zona Sul foi com meu pai, para ir a uma festa. Foi quando vi meu primeiro jogo de Atari.”

A Zona Norte é lugar de botecos, padarias, pequeno comércio, quitandas, e shoppings, diz Coelho. Não há galerias, cafés, butiques, cinemas, ou museus. “Pede para alguém de lá para produzir cultura. Com que referência? É um lugar onde é programa lavar o carro na rua e beber cerveja.”

Toda cidade tem bairros desse tipo. Mas Coelho acredita que o governo deve investir em equipamentos que possam criar referências, como os novos cinemas 3D que têm chegado em algumas favelas. A nova prosperidade do Brasil também põe o consumo de cultura da Zona Sul ao alcance dos suburbanos.

O subúrbio, Coelho assinala, recebeu em silêncio o impacto maior da violência relacionada com o narcotráfico. Os moradores construíram muros e puseram grades, se ajudaram uns aos outros, e, sempre que possível, se mudaram. Enquanto isso, foi a Zona Sul com sua sofisticada rede social que engendrou a política estadual de pacificação. “[O governador] Sérgio Cabral é um típico ‘playboy’ de Zona Sul” diz Coelho. “Ele utilizou sua rede social para se eleger e implementar a política. É por isso que tenho medo que não dure, suas alicerces institucionais são fracas.”

Independente da opinião de Coelho sobre isso, uma coisa está certa: andar pela cidade é bem menos estressante do que antigamente. Vamos aproveitar.

Algumas coisas boas o Rio nunca experimentou

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About Rio real

American journalist, writer, editor who's lived in Rio de Janeiro for 20 years.
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2 Responses to Um chamado pelo fim da geografia do túnel

  1. hal michlewitz says:

    nao tenho tempo para traducir entao eu continuo in ingles. It is an exciting future that is contemplated, I remember the transformation in NYC. It started slowly and built upon its self like an avalanche. can’t wait to return and feel the changes.I am wondering whether similar changes are occurring in places like Salvador.

    • Rio real says:

      Hal, yes, it feels like it could go the way NY did. Hope so! From what I hear, the city of Salvador is not on the same path, though I’m sure the population is more prosperous than before– the new middle class is cropping up all over Brazil. But more money in one’s pocket is only part of the solution…

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