A força do outro começa a ser reconhecida

Segunda de uma série de pepitas conversacionais, sobre a transformação da vida cultural na cidade maravilhosa.

Pedro Rivera, arquiteto e sócio da Rua Arquitetos, professor da PUC-Rio e diretor do Studio-X Rio / GSAPP Columbia University, diz que muito mais gente precisa de misturar muito mais.

“Se você abrir uma rua, vai atrair comércio,” diz Rivera, cujo projeto Potência Informal, desenvolvido em conjunto com os também arquitetos Pedro Évora e Pedro Araújo, foi um dos 40 selecionados no fim do ano passado pelo concurso MorarCarioca.

Considerado parte do legado dos Jogos Olímpicos, MorarCarioca é um programa municipal que pretende urbanizar praticamente todas as favelas do Rio até 2020, com um investimento total de R$ 8 bilhões, em parceria com os governos estadual e federal, e com recursos também do Banco Inter-Americano.

Pedro Rivera

De acordo com Rivera, a maneira de pensar essa urbanização já passou por uma transformação fundamental, desde a última intervenção nas favelas cariocas, pelo programa Favela-Bairro, dos anos 1990.

“A casa de favela é uma casa em processo,” ele explica. “É um erro de conceituação esquecer a força do outro. Os projetos [de urbanização] precisam levar em conta e conduzir esses processos.” A introdução de infraestrutura, como um sistema de esgoto, ou uma rua, pode atrair novos moradores e novos investimentos.

Agência bancária na favela Pavão-Pavãozinho

O projeto vencedor Potência Informal, dos três arquitetos de nome Pedro, pretende contar com a participação comunitária, para desenvolver uma urbanização que leve em conta o jeito de um lugar “reagir aos investimentos realizados através de influxo populacional e pressão por adensamento; investimento por parte dos moradores; e apropriação dos espaços, infraestruturas e equipamentos propostos”.

O projeto mostra duas fotos da mesma rua na favela Rio das Pedras, antes e depois do programa Favela-Bairro abrir uma rua.

Não foram as UPPs que desencadearam a integração atualmente em curso no Rio de Janeiro, diz Rivera. “O filme Cidade de Deus [de 2002] foi muito importante. Pela primeira vez, colocou a favela na grande mídia. Todo mundo já viu filme da Segunda Guerra Mundial. Ninguém tinha visto um filme de guerra daqui. E disputou o Oscar!”

Sete anos depois, a queda da violência decorrente das UPPs foi crucial. As pessoas começaram a vislumbrar perspectivas para as favelas, lembra Rivera. Agora, ele observa, “A força da cultura brasileira vai estar dentro desse limite desses dois mundos que começam a se descobrir. A divisão começa a se diluir. Muita gente da nova classe média esta na favela.”

O crescimento economico e os eventos esportivos por vir se traduziram em dinheiro para empreender melhorias, explica Rivera. “As favelas ficaram muito densas, e aí são precisos equipamentos como o teleférico [do Alemão] e o elevador [de Pavão-Pavãozinho]. Agora ninguém fala ‘que absurdo’, quando veem que os recursos estão sendo investidos dessa maneira.”

Lapa, um local central já em transformação e com várias favelas próximas

O Rio de Janeiro tem mais de 600 favelas, abrigando aproximadamente 20% de sua população. Se o programa MorarCarioca realmente conseguir urbanizar todas elas, como será nossa cidade em 2020? É interessante imaginar uma topografia de densidades variadas, conectadas por teleféricos, monotrilhos, planos inclinados, escadas, e grandes elevadores, com hortas nas lajes, praças verticais e horizontais, esgoto tratado, lixo reciclado e rios e bacias despoluídos.

Teríamos acesso a tantas opções de experiência de vida– algo bem mais suave e pacífica do que as representações cinematográficas das cidades do futuro. Assim, será fácil e extremamente prazerosa a mistura de gente que Pedro Rivera recomenda.

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About Rio real

American journalist, writer, editor who's lived in Rio de Janeiro for 20 years.
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