Pacificação em risco no Rio de Janeiro?

Somente se existisse uma máquina do tempo.

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O Rio está em plena fase de pavimentação de suas ruas, parte da revitalização na expectativa de todos aqueles megaeventos. Tampos de bueiro (explodindo ou não) são um desafio para qualquer cidade. Sempre ficam em um nível mais baixo do que a rua que acabou de ser pavimentada.

Retoque bagunçado

Arestas como essas são comuns no Rio, onde, depois de um hiato de um ano, ressurgem a violência e tumultos. Em setembro de 2010 houve uma onda de arrastões, seguida por um crescendo de incêndios a veículos, o que levou à ocupação militar em novembro último, das  favelas do Complexo do Alemão e da Vila Cruzeiro. Depois ficou tudo relativamente calmo– até agora.

Contudo, o que surpreende nesta semana não são os tumultos de três noites seguidas entre moradores do Complexo do Alemão e o Exército brasileiro, ou o ataque pós-baile-funk na UPP de Cidade de Deus— mas que demorou tanto tempo para que a violência voltasse à cena. Os cariocas são notórios pela irreverência e o descumprimento das leis, mas muitos brasileiros se curvam facilmente perante a autoridade, ou pelo menos escondem seus delitos. Tal é o legado da escravidão.

E o que não surpreende são as comparações sendo feitas por cariocas, entre as forças da ordem pública e as forças do domínio criminoso. Entre alguns moradores de favela, ouve-se “pelo menos, quando os traficantes mandavam, a gente sabia as regras”.

Isso, numa sociedade altamente autoritária, é uma mera variação do “Tudo era melhor quando os generais estavam no poder”, frequentemente repetido depois de 1985 pelos que temiam as forças soltas pelo regime democrático.

E forças soltas– não os males da repressão– estão no cerne desta história.

Pois o que a pacificação está fazendo — com suas muitas falhas— é integrar os territórios formais e informais do Rio de Janeiro. A integração faz parte de uma irreversível tendência de longo prazo no Brasil. Os pobres do país estão arrebentando as portas de uma festa até então restrita àqueles com Quem Indica, abençoados com uma capacidade nata para o jeitinho, o GPS de uma burocracia criada com a pérfida intenção de barrar os menos afortunados.

A eleição de Lula em 2002 foi um sinal claro da tendência, e ele acelerou o processo.

Aqueles que pensam que a pacificação é apenas mais um zigue num extenso ziguezague de ignorar as favelas para depois daí invadi-las e então ignorá-las novamente, ou que os traficantes e milicianos serão os vencedores, podem estar praticando uma forma perversa de wishful thinking.

Os dados de censo indicam que quase 40 milhões entraram na classe média nos últimos oito anos. Isso quer dizer que temos menos peões, e mais competição. Quer dizer lavar a própria roupa e focar nos estudos.

Novos comportamentos são a ordem do dia para todos: exército, polícia, moradores de favela, membros da classe média tradicional, a elite, políticos, empresários, e muitos outros.

[A pacificação] é um processo de educação recíproca: força de segurança e comunidade. É um aprendizado diário. Há ainda resquícios de um viés de aparato violento, no caso das forças de segurança, e da cultura do poder paralelo, no caso das comunidades. Mas isso é minoria. É um processo de aprendizado que não tem fim e que vai melhorar a cada dia.

Quem disse isso foi o governador Sérgio Cabral, na terça-feira. Talvez ele esteja metido em amizades e finanças questionáveis, e pode ser que tenha administrado questões trabalhistas de maneira incompetente, mas a colocação mostra inteligência e uma apreciação pela complexidade da vida carioca.

Nesta semana, um seminário estava programado para avaliar as UPPs, com participação inicial dos agentes de segurança e posterior de moradores. Uma recente pesquisa de opinião entre moradores de favelas com UPP mostra apoio significativo, apesar de problemas.

Uma obra e tanto

A crescente classe média (alguns membros da qual hoje em dia se encontram em favelas) faz parte de uma tendência global. O Rio de Janeiro certamente pode agradecer aos Jogos Olímpicos e à Copa do Mundo para seu makeover, mas uma verdade já vinha se anunciando: o simbiótico apartheid socioeconômico deixa de ser opção.

Como se vê num vídeo da primeira de três noites de violência no Complexo do Alemão, postado no YouTube, milhões de pessoas possuem agora a capacidade tecnológica para expor seu mundo a todos. Faça uma pesquisa no YouTube por “Complexo do Alemão” você encontrará nada menos do que  5.330 vídeos.  Tente passar direto.

De acordo com o blogueiro do RioRadar  Andrew Fishman, a força ocupadora inicial, composta de patrulheiros veteranos de favelas haitianas, recentemente se substituiu por tropas menos experientes. O vídeo linkado acima mostra soldados do Exército hesitantes e incertos, que acabaram por atirar balas de borracha e lançar spray em moradores. Quatro soldados foram afastados e haverá um inquérito.

“Dois [traficantes] entraram no bar e provocaram toda a confusão,” disse ao Globo o comandante militar do Leste, Adriano Pereira Júnior. “Esse foi o motivo de todo o conflito filmado pela comunidade, e não a história de se pedir para abaixar o som. Ocorre que alguns militares não tiveram a percepção de que aquilo era uma armadilha e acabaram fazendo uma ação errada.”

Não está claro o que aconteceu no Alemão. O Globo dá crédito à posição do Exército e da Secretaria Estadual de Segurança Pública, de que os traficantes insuflaram os moradores a violência contra o Exército, em reação à coibição às vendas ilegais de gás, supostamente um negócio novo para ex-traficantes. Na semana anterior, anunciou-se que o Exército ficará no Complexo até junho de  2012, em vez de sair no mês que vem.

Outros observadores dizem que os moradores do Alemão estão realmente frustrados com a ocupação, com suas revistas, desconfianças, e ordens.

Talvez haja verdade em ambas versões. Talvez os dois lados estejam se adaptando às mudanças de regras, comportamentos e expectativas. Pois a democracia se trata, no fim das contas, de organizar, apresentar, pesar e cumprir ou negar demandas e interesses. Não se trata de obediência cega a uma autoridade maior, seja traficante ou general.

Enquanto se debate a pacificação, cairam de forma significativa os autos de resistência (homicídios praticados por policiais em confrontos) em áreas pacificadas, prendem-se narcotraficantes e milicianos, e as taxas de muitos crimes caem em toda a cidade, apesar de exceções assustadoras como esta e esta , e do fato que ainda exista o tráfico de drogas (em qual cidade não há?).  As milicias persistem, também.

Alguém tem uma ideia melhor do que a política atual de segurança pública, que na quarta-feira aumentou a presença militar? “Eu tenho sido bastante enfático ao dizer que, após 30, 40 anos do abandono de algumas áreas e total domínio do tráfico, ninguém vai resolver isso a curto prazo,” disse o secretário estadual de Segurança Pública José Mariano Beltrame em uma coletiva de imprensa anteontem. “Nós abrimos uma janela para que os serviços públicos e a própria sociedade cumpram o seu papel nessas comunidades.”

Apesar de ser possível instalar uma “riser” de borracha reciclada em uma tampa de bueiro para produzir uma superfície uniforme, as equipes cariocas parecem ter se inspirado com as manicures daqui, que passam esmalte em excesso na unha da gente, para depois fazer uma meticulosa limpeza com um pedaço de algodão molhado em removedor, na ponta de um pauzinho. Em contraste, as manicures vietnamitas passam o esmalte como se estivessem andando em corda-bamba, economizando tanto em esmalte como removedor.

As vietnamitas perfeccionistas talvez não tenham muito a contribuir para a política carioca de pacificação, implementada em 2008 e contando já com 18 UPPs, de um total planejado de pelo menos 40 até 2014. Com poucos países para servir de modelo e uma gama grande de atores e variáveis cujos comportamentos não podem ser plenamente previstos, o percurso é necessariamente tão acidentado quanto a longa e complicada avenida Brasil– que ainda não foi totalmente repavimentada.

Serve?

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About Rio real

American journalist, writer, editor who's lived in Rio de Janeiro for 20 years.
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