Almoço com o chefe da segurança no Rio de Janeiro: pela janela dele

Os traficantes de droga não estão organizados, diz Beltrame; e a polícia está sempre mais

For Lunch with Rio’s security chief, click here

Na parede atrás de uma mesa longa na frente do auditório da Secretaria de Segurançã Pública do Rio de Janeiro, está pendurada uma foto enorme, em branco e preto, de um trem correndo pelos trilhos. Traz um tom de urgência a qualquer afirmação ali proferida, até você se lembrar que a secretaria fica num prédio em cima da Central do Brasil (sim, do filme fabuloso sobre a mulher que escrevia cartas de parte de nordestinos analfabetos, mas guardava-as numa gaveta).

Olhando na direção da avenida Presidente Vargas, com a Praça da República e o coração do Rio ao fundo

No mesmo andar está a sala de conferência da Secretaria, onde nesta semana o Secretário de Segurança Pública José Mariano Beltrame almoçou com 16 jornalistas estrangeiros. As vistas pelas janelas da sala, diz ele, são uma verdadeira fonte de urgência, no quesito corrupção. Ela, junto com a violência policial e falta de mão de obra são provavelmente os desafios mais difíceis do Beltrame, na área de pacificação.

Prédio do Comando Militar do Leste, do outro lado da rua

“Eu não posso deixar de atender a sociedade,” ele disse, em resposta a uma pergunta sobre desvios de conduta policial. “Não posso permitir que as pessoas aqui no Morro da Providência– aqui onde nos vamos almoçar hoje, nós ouviamos tiros na hora do almoço, há crianças indo para o colégio. Seiscentas mil pessoas passam aqui em baixo diariamente, é a chegada dos trens metropolitanos do Rio de Janeiro. Não posso ficar sem apresentar a eles uma solução. Não posso não fazer UPP por medo que os policiais vão se corromper. É igual para a milicia, também. Tem que supervisionar, tentar fazer garantias salariais, prepará-los. Tem muita gente nesse país que ganha muito dinheiro e não para de roubar, de desviar. Não posso garantir que o policial não vai se corromper. O policial que está aqui, é cidadão do Rio de Janeiro, não é de Nova York ou da Itália. A pessoa que passa aqui em baixo na rua, pode fazer concurso e entrar para ser policial.”

Desde 2007,  mais de mil policiais foram expulsos do contingente; os que ainda trabalham são rastreados por GPS nos seus rádios e viaturas.

“Meu único pedido?”

Desde 2007, quando Beltrame foi nomeado secretário e começou a revolucionar a estratégia de segurança pública do Rio, não se ouve mais tiros do Morro da Providência. Existe na favela uma das 23 UPPs atuais, com mais cinco a caminho (no Complexo da Penha e na Rocinha) dentro de pouco tempo. De acordo com o coordenador de comunicação social do Beltrame, Paulo Henrique Noronha, pode ser que o estado aumente a meta original de 40 UPPs até 2014.

Tão importantes quanto as UPPs

Mas as UPPs têm um parceiro silencioso, o Subsecretário de Planejamento e Integração Operacional Roberto Sá contou aos jornalistas, cujo almoço aconteceu tranquilamente entre meras buzinas de carro e freiadas de ônibus: os RISPs.

Essas, ele disse, irão chamar mais a atenção a partir do segundo semestre, quando o primeiro de sete prédios de coordenação regional de polícias vai abrir em Campos de Goytacazes. Esses prédios irão abrigar os coordenadores da nova colaboração entre as polícias civil e militar do estado do Rio. Um oitavo prédio abrirá neste ano perto do novo Centro de Operações da prefeitura, para a coordenação geral de polícias, bombeiros e outros agentes de emergência.

As duas principais forças de polícia nasceram em 1809, quando a família real portuguesa chegou no Rio, fugindo do Napoleão. Era para a polícia civil investigar, enquanto a polícia militar fazia a policiamento em si. Com o passar dos anos, as duas forças competiam e também tinham uma má comunicação; por vezes as parcerias com criminosos acabaram por ser mais prioritárias do que seus deveres originais. Desde os anos 1990, os estudiosos em polícia têm recomendado a unificação das duas forças (e elas não são as únicas; em muitas cidades, as tarefas que aqui são da CET Rio, da Guarda Municipal e da Guarda Florestal seriam da polícia normal).

Beltrame preferiu trabalhar a estrutura existente. Duzentos anos após a chegada de Dom João VI e sua família, Beltrame criou as Regiões Integradas de Segurança Pública, ou RISPs. A responsabilidade por cada uma das sete RISPS do estado é compartilhada entre as forças civil e militar, e cada uma é composta de áreas integradas (do tamanho do território de duas a quatro batalhões) e circunscrições integradas (do tamanho do território de uma delegacia).

Cada unidade funciona na base de “gestão de resultados”, diz Sá, com metas de redução de crime para o estado como um todo e para cada região, área e circunscrição. Desde 2009, os coordenadores de RISP trabalham para analisar as estatísticas de crime, entender a dinámica nas suas áreas, e antecipar o crime. “Não era feito,” disse Sá. Policiais civil e militar participam de reuniões periódicas, trimestralmente ou até diariamente, dependendo do território.

Com base em um sistema de pontos, paga-se bônus semestrais de até R$ 9 mil a policiais que atingem metas para a redução do crime violento. Da próxima vez, por exemplo, policiais e administradores na maior parte da cidade do Rio receberão esse bônus; mais um na mesma quantia irá aos que trabalham em Olaria, Penha e Brás de Pina, mais ao BOPE e a Corregedoria Interna da Polícia Civil. Muitos outros membros das duas forças policiais irão receber bônus de quantias menores.

Beltrame está também trabalhando para prender milicianos e seus mentores, o que é mais difícil do que prender traficantes de drogas por dois motivos. Os milicianos, geralmente policiais ou bombeiros de folga, já infiltraram a política municipal e estadual. Além disso, é difícil reunir evidência de que eles estejam extorcionando moradores com taxas de segurança e serviços como gás, transporte alternativo e tv a cabo, em áreas da Zona Oeste mal servidas pelo município ou por empresas particulares.

Porém as investigações em curso da unidade da polícia civil, DRACO, estão rendendo. Em 2006, prenderam-se três milicianos, o secretário assinalou. Agora há mais de 692 milicianos, entre eles oito vereadores e um deputado estadual, na cadeia.

Rocinha é campeã

“Se há alguma coisa no Rio de Janeiro parecido com o crime organizado, é a milícia,” ele disse. “Nos não temos crime organizado de verdade.” O tráfico de drogas, ele explicou, é capilarizado, baseado em territórios. E, ele enfatizou, a Rocinha, que abriga por volta de 180 mil moradores e está na fase de ocupação desde novembro do ano passado, era “o maior mercado de drogas da América”. Isto seria o motivo pelo qual duas facções têm lutado pelo poder lá, mesmo sob o regime de ocupação.

Beltrame é sincero e humilde; entusiasta da transparência. Fala com o sotaque bem delineado do gaúcho, que soa pouco sofisticado e ingênuo na cidade maravilhosa dos convencidos. Mas aqui ele é muito admirado e apreciado pela inteligência, as estratégias, e a virada na segurança pública que engendrou.

Os cariocas chiam seus esses e gostam de pensar que são espertos, o que quer dizer conhecer as pessoas certas e o que dizer, quando, onde, como e a quem.

Além da janela suja, a esquerda, a favela do Morro da Providência

Proibido jogar

Talvez seja por isso que o chefe do Beltrame não tem almoçado com jornalistas, estrangeiros ou nacionais. O nome do governador Sérgio Cabral aparece diariamente na mídia, ligado ao escándalo mais recente de corrupção nacional. Seu oponente político Anthony Garotinho circulou fotos de seus amigos (um dos quais é o grande construtor acusado de montar um esquema nacional para ganhar apoio político em licitações) usando guardanapos amarrados à cabeça, estilo pirata, depois de jantar num carésimo restaurante em Paris.

Em resposta a uma pergunta sobre qual seria seu maior desafio, Beltrame respondeu, “Rio de Janeiro,” recusando-se a ranquear o jogo do bicho, as milícias, o tráfico de drogas, e a corrupção policial. Mas se tivesse um pedido, apenas um, ele ofereceu no começo do almoço, seria “perspectivas para a juventude”.

Há muito chão pela frente para os mais velhos, porém, se é para eles ajudar a abrir portas e servirem de exemplo. Ao lado de um elevador do quarto andar na Secretaria, está pregado um aviso numa folha de papel A4.”Servidor público,” está escrito. “Não jogue lixo pela janela. Na semana passada, alguém jogou um guimba, que causou um princípio de incêndio numa lixeira.”

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About Rio real

American journalist, writer, editor who's lived in Rio de Janeiro for 20 years.
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