Será que a tecnologia acaba por minar o tráfico de drogas?

Hoje alguns jovens têm coisas mais interessantes a fazer do que se envolver com o tráfico

Tiago Borba, Beá Meira, Vera Íris Paternosto e Eliane Costa

Click here, for What if technology undermines drug violence?

A Al Jazeera e a  Associated Press divulgaram recentemente que em duas grandes favelas do Rio de Janeiro, traficantes de drogas decidiram parar de vender crack. Uma das muitas perguntas que surgem após uma notícia tão incomum como essa é: qual é a real situação do tráfico de drogas no Rio? Essa pergunta é muito importante, pois cresce rapidamente o número de Unidades de Polícia Pacificadora (chegou a 26  na semana passada), aproximam-se os mega eventos, e  jornalistas fazem afirmações como esta abaixo:

Vamos combinar: o Rio jamais será seguro. A violência somente poderá ser contida, somente por uma dose inexplicável de sorte. Eu vi a violência dos dois lados: dos policiais que usam coletes à prova de bala e dos traficantes que controlam as favelas, que subvertem o gráfico de expectativa de vida se chegam aos 20 anos de idade. 

Quão sólido é o tráfico de drogas, mesmo? 

Com frequência, imaginamos o comércio de drogas como uns caras maus que ficam por aí, que podem brigar entre si, e que com a chegada de uma UPP mudam de endereço, mas cujos métodos e controle são uma constante urbana.

Mas, de acordo com um ex-comandante de alta patente da polícia citado na reportagem da Associated Press, “os traficantes adotaram o crack quando começaram a perder terreno para a venda de outras drogas na cidade.”A reportagem afirma ainda que: “A polícia começou a tomar favelas que há muito tempo eram dominadas pelo tráfico de drogas porque o Rio será sede de eventos como a Copa do Mundo, em 2014, e as Olimpíadas, em 2016. Esse plano desestabilizou a venda de drogas e as facções começaram a perder muito dinheiro, Duarte disse. O crack parecia ser a solução. Logo, a droga invadiu o mercado.”

Alguns especialistas afirmam que o controle dos traficantes estava enfraquecendo muito antes da chegada da pacificação. Uma análise aponta para o aumento de drogas sintéticas, tais como o ecstasy, vendido por traficantes de classe média – como fator negativo na venda de cocaína nas favelas – como o motivo real para a venda de crack (e o consequente uso) ter se espalhado.

Parece não haver uma narrativa de consenso quanto à situação do tráfico de drogas carioca, e muitas perguntas permanecem sem resposta.

Por exemplo, como estão sobrevivendo os traficantes que renunciaram ao crack? Eles ganham mais vendendo maconha? O preço da maconha aumentou? A demanda por maconha está crescendo nas favelas porque a renda disponível dos moradores (presumivelmente) aumentou? A demanda por maconha está aumentando na cidade formal também, pelos mesmos motivos? Qual é o efeito da pacificação nos preços das drogas?

Algumas vozes novas

Por favor, pesquise isso! 

E depois temos as pessoas que são diretamente afetadas, além dos próprios traficantes. Se antes da pacificação o tráfico empregava milhares de jovens direta ou indiretamente, o que fazem eles agora, após a pacificação? As Unidades de Polícia Pacificadora atendem a 600.000 cariocas atualmente.

As pessoas de fora das favelas não costumam associar o trabalho às pessoas que moram em favelas. Tanto é que, quando algum morador é assassinado pela polícia, a primeira frase que se expressa à imprensa ou à polícia em defesa do vizinho, como para refutar a suposição, costuma ser,“Ele era trabalhador”.

Porém, Julio Ludemir, escritor que há muito tempo trabalha com jovens moradores de favelas, diz que tradicionalmente, os pais exortavam os filhos a procurar emprego assim que possível. Neste post sobre dançarinos de passinho, cuja criatividade depende de interações na internet, ele explica que, hoje pela primeira vez na história, muitos jovens residentes de favelas se dão ao luxo de sonhar e experimentar, assim como os jovens de classe média e alta.

De acordo com Eliane Costa, até recentemente responsável pela concessão de verbas para atividades culturais patrocinadas pela Petrobras, há 108.000 Lan Houses em todo o Brasil. Para efeito de comparação, as estatísticas de 2007 da Fundação Nacional do Livro indicam que há um total de 5.110 bibliotecas em todo o país.

Pode ser tão simples como tela, teclado e mouse 

Será possível que um número crescente de jovens moradores de favelas está fazendo exatamente o que um número crescente de jovens de classe média e alta estão fazendo? No Rio, pessoas com experiência parecida com a de Ludemir dizem que os jovens moradores de favelas são surpreendentemente plugados.

Beá Meira é coordenadora de ensino da Universidade das Quebradas, uma extensão de artes e cultura da Universidade Federal do Rio de Janeiro direcionada a estudantes de baixa renda. No debate da última semana no Rio de Encontros sobre programas de mobilização da juventude, organizado por O Instituto e pela Agência de Redes para Juventude na Casa do Saber, ela afirmou que os jovens moradores de favelas são polivalentes. “Eles editam vídeos, escrevem poesia, tiram fotos –a arte passa a ser de todos, do cotidiano. Eles não pedem, eles fazem isso”, ela disse.

“A favela, como costuma dizer [o fundador e diretor da Agência Redes para Juventude] Marcus Faustini, é um lugar de poder, originalidade e soluções,” afirmou Eliane Costa durante a mesma reunião. Atualmente, ela se dedica a um doutorado na Sorbonne sobre cultura digital e de periferia.

“Nunca imaginei que trabalharia com um gari,” comentou Vera Íris Paternostro, que dirige o programa Parceiros da TV Globo no Rio, São Paulo e Brasília, no qual 44 jovens (selecionados neste ano dentre nada menos que 12.500 candidatos) fazem reportagens sobre suas próprias comunidades de baixa renda. As matérias resultaram na solução de 150 reclamações– e, de acordo com a executiva, mudou o modo como os repórteres e editores da Globo pensam sobre a cobertura da emissora.

Paternosto apontou o gari/repórter na plateia do Rio de Encontros, e em seguida se enrolou com o nome de um rapaz presente, “Petter MC”, o “Rappórter”.  Petter, que mora em Nova Iguaçú, tinha um blog mesmo antes virar parceiro da TV Globo. Agora, ele está na equipe do programa Esquenta, de Regina Casé.

Jovens simplesmente fazem

Jovens participantes da Agência Redes para Juventude também estavam presentes no debate.  No ano passado, 300 jovens moradores de favelas pacificadas transformaram ideias em projetos. Os 30 projetos escolhidos receberam R$ 10.000,00 cada um da Petrobras para serem realizados; atualmente todos competem por mais recursos, com o apoio do Sebrae no aprimoramento deles.

A Agência considera a criação de redes na cidade, tanto reais quanto virtuais, como um passo crucial para fazer ideias acontecerem.

É difícil quantificar o alcance agregado dos muitos programas direcionados a jovens moradores de favelas no Rio. Os programas debatidos na semana passada são relativamente pequenos, mesmo sendo que mais de mil jovens acabaram de se candidatar à nova rodada de desenvolvimento de projetos da Agência. É que a participação de milhares de jovens ainda é muito pouco, considerando que, em 2010, a população total do estado do Rio de Janeiro era de 16 milhões, com quase 3,5 milhões em idade escolar. A região metropolitana do Rio de Janeiro representa quase três quartos da população total do estado.

“As políticas públicas ainda são muito pulverizadas,” disse Tiago Borba, coordenador da UPP Social, no debate da semana passada. “Poderiam ser mais articuladas para ter mais eficiência e eficácia.”

É sempre bom lembrar que à medida que o Rio tenta integrar suas áreas urbanas formais e informais, constroem-se lições e modelos.

O chamado baby boom vivenciado pelo Brasil nas décadas de 1970 e 1980 está no seu auge. O número de pessoas na faixa etária de 15 a 29 anos está começando a diminuir agora. Pode-se dizer que o futuro da juventude brasileira de baixa renda determinará em grande parte o próprio futuro do país – assim como os americanos nascidos no período de explosão demográfica nos EUA (1946-1964) influenciaram fortemente a política e a cultura de seu país.

Aquecimento para dançar funk num baile matinê — e para o futuro

E aí?

Sendo ou não que o maior acesso à informação e à tecnologia enfraqueça o tráfico de drogas e empodere os jovens em favelas de modo significativo, a mobilização da juventude em curso no Rio de Janeiro traz perguntas polêmicas e muitas delas vêm dos próprios jovens.

Durante o debate, um jovem participante criticou a comunicação e o processo seletivo para os agentes de campo da UPP Social, que estão mapeando as favelas pacificadas do Rio – e dando nomes aos becos. Um jovem empreendedor de TV comunitária questionou como ele poderia concorrer por verbas governamentais, com pouca experiência no currículo. Outro participante mostrou-se preocupado quanto à continuidade dos programas. A pergunta de um quarto participante sobre a UPP Social e o comportamento policial disparou um desabafo emocionado sobre a proibição de bailes funk noturnos em favelas pacificadas. “[A autoridade policial quanto a esse assunto é] quase uma ditadura,” disse o enfurecido Junior Perim, fundador da ONG de circo e arte Crescer e Viver.

Nunca diga nunca quando se trata do Rio de Janeiro

Marcus Faustini, que moderou o debate, resumiu o momento de tensão: “Muitos agentes querem ter fala. Vai ter que ter muita participação nessa transformação.”

Assim termina esse post que traz mais perguntas que respostas. Faça seu comentário, por favor!

Tradução por Rane Souza

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About Rio real

American journalist, writer, editor who's lived in Rio de Janeiro for 20 years.
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2 Responses to Será que a tecnologia acaba por minar o tráfico de drogas?

  1. David says:

    Oi Julia,
    Já falámos/escrevemo-nos algumas vezes sobre relações entre a UPP e as drogas. Suas perguntas são super-importantes.
    Segundo amigos que compram drogas (maconha, cocaína, ácidos e similares) com regularidade, escuto que está mais fácil conseguir drogas, que a qualidade das drogas está melhor e que acabaram os períodos de “seca” – como eles dizem. Ademais de tudo isto o preço permaneceu igual. Assim, afirmações como a do oficial (do artigo da AP) que diz que a adoção do crack foi para “substituir terreno perdido” ficam parecendo coisas que o Chapeleiro Louco (Alice no País das Maravilhas) diria. O único contexto que a afirmação deste oficial faz sentido é se entedermos que ao dizer perda de terreno ele na verdade gostaria de ter dito que os traficantes TRADICIONAIS estão sendo substituidos por outros NOVOS TRAFICANTES, mais eficientes e mais antenados às demandas do mercado.
    A pergunta então é, quem são estes novos traficantes, que conseguem ser tão mais eficientes que os anteriores?
    Minha mania de conspiração tem algumas suspeitas, mas nenhuma prova.
    Bjs,
    P.S.: Outra coisa, o consumo de drogas tradicionais vem caindo em vários contextos internacionais (http://www.unodc.org/unodc/en/frontpage/2010/June/drug-use-is-shifting-towards-new-drugs-and-new-markets.html). Atribuir esta queda à fatores políticos específicos do contexto carioca é um argumento antigo, mas ainda sem evidências. Atribuí-lo à emergência de novas tecnologias – para mim – é novidade e interessante.

    • Rio real says:

      David, tudo extremamente interessante e válido. Lembremos, porém, que a política de pacificação não visa acabar com o narcotráfico. O objetivo é retomar território e reduzir a violência urbana.
      Obrigada pelo comentário!

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