O centro migra para a periferia: cultura no Rio de Janeiro

Uma nova geração nos holofotes

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O passinho é tudo

O blog já cobriu vários aspectos da transformação cultural que acontece no Rio no contexto da integração de territórios formais e informais da cidade.  Uma nova consciência se formou de maneira gradativa, começando em uma conversa com Fred Coelho, seguida por um encontro arrebatador com jovens da Cidade de Deus e Marcus Faustini, passando por teatro experimental no Complexo do Alemão e a uma exposição de arte no Complexo da Maré.

Aos poucos, tornou-se claro que o Rio de Janeiro –possivelmente um exemplo de uma transformação maior– está se virando às avessas.

Julio Ludemir

“Eu era  quase uma autoridade sobre a violência no Rio de Janeiro,” lembra o escritor Julio Ludemir. “Mas em 2008, quando estava trabalhando com Marcus Faustini, que era o Secretário de Cultura em Nova Iguaçu, eu pensei, ‘Tem alguma coisa diferente aqui.’ Uma menina grávida escolhia o nome de seu bebê usando o Google Translate.”

Ela escolheu um nome húngaro.

Lindberg Faria, ex comunista e líder estudantil, era prefeito da cidade vizinha na época. Como Coordenadora de Desenvolvimento Social, a esposa dele, Maria Antonia Goulart, estava mexendo nas bases de uma das áreas mais pobres do Grande Rio. “Na sala ao lado do gabinete da Maria Antonia, havia uma enorme Lan House, com trezentos jovens. Eles estavam cuidando de parte da comunicação da cidade,” conta Ludemir.

Clayton, 19, espera se tornar um bailarino profissional

“Esses garotos estavam mais antenados e mais incluídos do que eu. Pegavam livros recém saídos em inglês dos quais eu nunca tinha ouvido falar, e colocavam no Google Translate. A Lan House disputava a escola, a família, as coisas que eles supostamente deviam estar fazendo para se preparar para a vida adulta,” ele acrescenta.

A violência ainda está entre nós, mas Ludemir e outros dizem que vai ficando num plano secundário enquanto os jovens das favelas e subúrbios cariocas  — agora com renda e educação melhorados– descobrem, depois de muito tempo, que eles podem dedicar algum tempo ao ato de sonhar.

“É como a década dos anos sessenta nos Estados Unidos e na Europa,” ele explica. “Com os Baby Boomers, a contracultura. Pela primeira vez na história do Brasil  você tem a possibilidade da expressão da juventude brasileira– sem ser class média [tradicional].” O funk, ele acrescenta, é objeto do mesmo tipo de olhar desconfiado da geração mais velha e conservadora, que o Elvis ganhava nos anos 1950.

Uma possível explicação pela ausência de meninas no passinho

E o que os meninos querem mais do que qualquer outra coisa é que alguem repare neles. Essa realidade foi um componente central da análise por Luís Eduardo Soares, da situação de segurança pública no fim da década de noventa e começo dos anos 2000, no seu livro de memórias Meu Casaco de General. O livro trata de sua experiência como predecessor de José Mariano Beltrame, no governo de Anthony Garotinho. Soares notou que o tráfico de drogas atraia os jovens porque os tornava visíveis.

Uma década mais tarde, temos o YouTube e o funk carioca, trilha sonora para o passinho. Faça uma busca no YouTube para a palavra passinho e você vai ver mais de 29 mil possibilidades.

Hoje, o poder dos garotos é alucinante.  Esse foi o post mais acessado do blog no último trimestre; não é sobre a pacificação, nem a corrupção. E as estatísticas mostram que os meninos surfam ainda, procurando informações sobre o assassinato do rei do passinho, o Gambá, geralmente aos domingos, quando passa o Esquenta!, o maravilhoso programa de Regina Casé. (Uma mini-série sobre a vida do Gambá seria um sucesso certeiro, aí vai a sugestão)

Agrada a todos

“Eu tenho acesso a 20 mil jovens,” diz Ludemir. Em setembro do ano passado, ele e Rafael Soares organizaram a primeira  Batalha do Passinho, com garotos de várias partes da cidade se encontrando no Sesc-Tijuca para competir.

O Passinho é diferente de outras danças brasileiros por favorecer mais os pés do que o ombro ou quadril — como o frevo. Pode até ter raízes em Recife. Conta-se que um bêbado subiu no palco e dançou o frevo durante um show de Os Hawaianos, um conjunto funk de Cidade de Deus. Pode também ser que o passinho tenha surgido durante um baile na favela de Jacarezinho na Zona Norte, quando um “bandido doidão” fez alguns passos muito diferentes e todo mundo o imitou… “É o reencontro do negro,” diz Ludemir. “do gingado em toda sua plenitude”.

A música funk utilizada para o passinho é limpa, sem referências sexuais marcantes nem a exaltação da violência. Contudo, alguns jovens vestem camisetas estampadas com desenhos de armas de fogo.

Batalha mais recente contou com uma votação pela Internet na primeira rodada, e ontem, na favela pacificada do Morro do Salgueiro, os jurados escolheram três bailarinos para serem premiados com até R$ 3 mil. Os melhores 16 garotos irão se apresentar no fim de semana que vem, na série de eventos culturais espalhadas pela cidade, oViradão Cultural.

Estilo é crucial

Para a primeira rodada, os meninos gravaram com celulares e webcams vídeos deles mesmos dançado. Enviaram os vídeos ao YouTube, e então votaram– somando dezenas de milhares de votos. Eles também utilizam a Internet para procurar coreografias. A rodada de ontem sugere que o passinho talvez seja a mais pós-moderna de todas as danças, com elementos  reconhecíveis de pantomima, frevo, street dance, striptease, dança do ventre, break dancing, balê e contorcionismo circense. Meninos usam jeans skinny e bonês reluzentes (para trás ou para frente), andam descalços e fazem sobrancelha.

Rapture

Resta saber para onde vão esses garotos com mais escolaridade, acesso à Internet e auto-estima do que seus pais tiveram, visto que a maioria não consegue pensar em muita coisa além de passos ultra criativos. “Faço porque gostou de dançar, não tem alternativa, e gosto de brincar com os amigos,” diz Clayton, 19 anos. Ele já terminou os estudos mas não trabalha, e não sabe o que quer fazer a não ser dançar. Foi seu irmão mais velho, sargento no Exército, que comprou o computador da família há cinco anos.

Quando alguns meninos saíam da favela depois da Batalha, soldados da polícia pacificadora os mandaram parar para uma revista enfileirada, mãos na parede. “É porque algum mau elemento pode se misturar com eles, não se sabe nunca,” disse um soldado ao RioRealblog. “Precisamos saber quem entra, quem sai, e o que eles podem estar portando.”

Mãe orgulhosa

É da natureza de fenômenos de cultura popular que eles tendem a ser adotados, favorecidos e apropriados por quem tem mais poder numa sociedade. O samba e o funk carioca já subiram das ruas aos palcos. Mas o passinho, de acordo com Julio Ludemir, pode ser diferente, porque os tempos são diferentes. Os jovens vão ao baile funk de sábado à noite na Cidade Alta para dançar, e não para assistir um show de palco, ele assinala. Hoje, acrescenta, o Facebook é o palco.

Difícil é dizer por quanto tempo será assim. Mês que vem, começa a Batalha do Passinho das UPPs, com patricínio e divulgação pela RJTV da rede Globo.

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About Rio real

American journalist, writer, editor who's lived in Rio de Janeiro for 20 years.
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