Jogos vorazes

Uma brincadeira que traz lições surpreendentes

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O prefeito Eduardo Paes parece não se incomodar em vestir a carapuça. Enquanto críticos condenam a especulação imobiliária que as políticas dele teriam estimulado, ele deixou uma empresa de brinquedos brasileira criar o jogo Banco Imobiliário em versão Rio Cidade Olímpica, e ainda comprou 20 mil unidades do jogo para as escolas municipais. Segundo o jornal O Globo, o Ministério Público estadual está verificando se referências no jogo às BRTs e às clínicas de família constituem “propaganda irregular”.

O sociólogo Paulo Baía destacou o fato de que um jogador que caia na casa “doação para projeto social” é penalizado e obrigado a doar dinheiro a um projeto social. “Isso produz um ser humano que vê políticas compensatórias, de apoio à pobreza, como esmola. E o governo erra ao fazer isso. Ele está treinando crianças e adolescentes para enxergarem iniciativas em favor de minorias como algo desnecessário, que, por isso, merece punição. A visão pedagógica é equivocada,” ele disse, citado no jornal O Dia.

Banco Imobiliário Cidade Olímpica acirra os ânimos. Meu Rio, o grupo de ativismo digital, criou uma campanha de “panela de pressão”, exigindo que o fabricante tire o brinquedo de circulação. “Nós, cariocas, não queremos que o Rio seja retratado como um “banco imobiliário”para as nossas crianças,” afirma a campanha.

Meu Rio talvez consiga acabar com essa versão do Banco Imobiliário; o grupo, custeado por doadores individuais, já é uma bela pedra no sapato das autoridades municipais e dos encarregados dos Jogos Olímpicos. Na semana passada, fez com que centenas de pessoas ligassem para o presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, Carlos Nuzman. As ligações eram para se opor à proposta dele de tomar conta do polêmico Museu do Índio, construído no século XIX, marcado para a demolição em função da reforma do Maracanã.

Ousadia digital

No fim do ano passado, junto com outros grupos de ativistas, Meu Rio impediu a demolição de uma escola pública extraordinariamente bem sucedida, também localizada perto do estádio do Maracanã. A prefeitura pretendia dispersar para escolas próximas um corpo unido e dedicado de alunos, pais e professores, descartando anos de trabalho duro para construir a comunidade escolar.

“Começavam as férias escolares, e, com a escola fechada, a gente temia que a prefeitura fosse enviar as escavadeiras. Então fomos bater nas portas de todos os vizinhos que moram em frente à escola”, lembra Leonardo Eloi, diretor de projeto.

“Encontramos um casal de velhinhos que tinha internet e não se importava que a gente instalasse uma câmera do lado de fora da janela deles. Não sabiam rebootar quando a internet caía, assim tivemos que criar uma conexão remota. Então, recrutamos pessoas, guardiões, para assistir às imagens no streaming. Se vissem um caminhão ou uma escavadeira, dissemos que era para ‘apertar esse botão’, clicando em um botão vermelho na tela. Se isso acontecesse, automaticamente iriam aparecer mensagens de texto nos celulares de pessoas chave do Meu Rio. Se de fato estivesse acontecendo a demolição, todos os guardiões iriam receber uma mensagem para se dirigir à escola”.

Ninguém precisou apertar o botão (será que a prefeitura segue o Meu Rio?), porém, no dia 29 de dezembro, veio a notícia oficial de que  a escola continuará a funcionar durante o ano letivo de 2013, enquanto procura-se por uma solução.

Mais participação, mais informação, mais diálogo

Agora que a cidade já soma cinco anos de virada, e a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos estão bem próximos, Meu Rio não é o único crítico do processo. Outros apontam a falta de transparência das autoridades, de participação comunitária e representativa, e de gestão conjunta na criação e execução de políticas urbanas.

Neste sentido, um grande grupo de pessoas, de toda a região metropolitana do Rio, a maioria jovem, encheu uma sala no ISER  na semana passada para fundar a Associação Casa Fluminense. Qualquer um pode participar, e pede-se que todos façam uma contribuição financeira, de qualquer quantia. O grupo planeja obter outras fontes de sustento; sua missão é “[f]omentar a ampliação da esfera pública e a elaboração  e sustentação de políticas para a promoção de igualdade e o aprofundamento democrático em toda a cidade metropolitana e o estado do Rio de Janeiro”.

De acordo com José Marcelo Zacchi, consultor do IETs e ex-diretor da UPP Social; e Pedro Strozenberg, secretário executivo do ISER, que idealizaram a associação, a Casa Fluminense irá monitorar políticas públicas, organizar debates (em toda a região metropolitana) e elaborar políticas públicas.

Tente lançar os dados 

O nome original de Banco Imobiliário  é Monopoly (Monopólio). Em língua inglesa o nome do jogo, que data das primeiras décadas do século XX, remete aos grandes monopólios históricos dos Estados Unidos, como a Standard Oil, dismembrada em 1911. Mas, por causa da tradução inexata, quem joga Banco Imobiliário no Brasil dificilmente irá lembrar dos grandes monopólios econômicos e  financeiros brasileiros,  atuais ou antigos.

Como a maioria dos brasileiros, o prefeito Paes provavelmente nem imagina que o jogo Banco Imobiliário justamente surgiu de um jogo que  tinha por objetivo ensinar os males do capitalismo.  A mensagem ainda está aí, ainda que subliminarmente, pois sem falha é o jogador mais impiedoso quem ganha, enquanto os derrotados sentem o açoite da injustiça. Assim, talvez as escolas do Rio devessem ficar com os jogos que o prefeito comprou, e deixar que os alunos contemplem o que está acontecendo na cidade deles.

Vencedores ou derrotados, agora todos nós sabemos– ainda que bem no canto mais escuro de nossas mentes— que para termos uma cidade segura, precisamos de uma cidade integrada. E que, para ter uma cidade integrada, todos precisam desfrutar de direitos e responsabilidades iguais. E, para que todos desfrutem igualmente de direitos e responsabilidades, é necessário contar com um sistema efetivo de educação.

E que somente cidades seguras atraem investimentos, sejam de monopólios ou de qualquer um.

Para mais informações sobre a Associação Casa Fluminense, acompanhe a página do RioRealblog no Facebook e o Twitter do RioRealblog; logo haverá um site da nova entidade. A próxima reunião será em 20 de março.

Nova geração de ativistas na reunião de lançamento da Casa Fluminense: à esquerda, Miguel Lago, presidente do Meu Rio

Nova geração de ativistas na reunião de lançamento da Casa Fluminense: à esquerda, Miguel Lago, presidente do Meu Rio

Tradução de Rane Souza

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About Rio real

American journalist, writer, editor who's lived in Rio de Janeiro for 20 years.
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