Águas de março: uma lição de humildade?

Provavelmente, não

For March rains: a lesson in humility, click here

Queda de árvores e postes: não é culpa dele

Queda de árvores e postes: não é culpa dele

Se a eleição municipal fosse por agora, talvez Eduardo Paes estivesse passando um aperto. Após a chuva torrencial de terça-feira passada  à noite, que alagou a cidade e matou cinco pessoas, muitos cariocas querem linchá-lo. Alguns bairros ficaram sem luz por pelo menos 24 horas, a volta para casa no fim do expediente se tornou uma peregrinação, e até às onze da manhã do dia seguinte o trãnsito ainda estava caótico. O Estádio do Maracanã, cujo reforma está atrasada, também ficou alagado, provocando o adiamento de uma visita da FIFA e da entrega final da obra. O estádio precisa ficar pronto para a Copa das Confederações, que acontecerá entre 15 e 30 de junho deste ano.

“Hoje seria um bom dia para pegar aquele Banco Imobiliario do Rio e fazer o Paespalho engolir todas as peças, né?” um carioca perguntou quarta-feira, no Facebook.

De acordo com o jornal O Globo, na terça-feira foi registrado 70% do volume total de precipitação previsto para o mês de março. Em algumas partes da cidade, cairam 50 milímetros de chuva em apenas quinze minutos. Além disso, o registro de 2.149 raios levou outra moradora do Rio a imaginar que talvez os Maias tivessem errado a data do fim do mundo.

E um brincalhão sarcástico  fez um Photoshop em uma imagem dos trilhos alagados do Metrô; três estações tiveram de ser fechadas na noite da chuva.

Abaixo, temos um exemplo dos dezenas de vídeos postados no Facebook e no YouTube, gravados por testemunhas oculares, mostrando o Apocalipse carioca. Neste vídeo, o cinegrafista amador, indignado, se dirige diretamente ao prefeito:  “Olha o que suas obras fazem aí, ô, vamos ver minha rua aí”.

Recolher mais lixo

Um engenheiro citado na reportagem de O Globo afirma que a Prefeitura não está fazendo o suficiente para proteger os moradores das chuvas de verão. Dentre as medidas necessárias, ele disse que é preciso “proteger as bacias dos rios, reduzindo a ocupação de encostas por favelas, ampliando a coleta de lixo nas comunidades, reprimindo o despejo irregular de esgoto nos corpos d’água e galerias pluviais e criando barragens ao longo dos rios que nascem no Maciço da Tijuca”.

Segundo essa fonte, a construção atual de um reservatório na Tijuca não resolverá o problema, porque lixo e lama continuarão a escoar para dentro dele, se essas outras obras não forem levadas a cabo.

Também citado em O Globo, o prefeito Eduardo Paes falou num tom petulante no dia seguinte à tempestade– que pegou muitos moradores no caminho para casa após o trabalho, e os caminhões de lixo da Comlurb no meio da coleta noturna. “Mas o carioca também tem que entender que chuva forte não é para passear na rua. Cai árvore e poste, que não temos como controlar. Morreu um homem no Camorim atingido por uma árvore. Vou ter que cortar as árvores do Camorim?” ele perguntou.

A Prefeitura é responsável por inspecionar e manter as árvores e postes – e “passear” não é bem o que a maioria das pessoas presas nos ônibus, com água na altura dos joelhos do lado de fora, estava fazendo.

Talvez ela seja responsável também pelos estragos da chuva  em um projeto novo de moradia, para onde famílias em áreas de risco foram levados menos de um ano atrás. De acordo com o síndico, citado no jornal O Dia, uma obra da Rio-Águas levou ao alagamento de 64 apartamentos, a maioria de deficientes físicos. “O risco maior é aqui. Perdi móveis, eletrodomésticos, roupas e comida. Minha casa é uma vergonha, e minha vida perdeu o sentido”, Lidiane Conceição, 27 anos, ex-moradora do Morro do Borel, disse ao jornal.

Falando num tom mais maduro, o prefeito disse ainda que o antigo problema de alagamento na praça da Bandeira será resolvido com as obras dos reservatórios e do desvio dos rios Joana e Maracanã, que se iniciarão no começo do ano que vem. Segundo ele, os alagamentos na Avenida Brasil acabarão quando o BRT Transbrasil, pista exclusiva para ônibus, estiver pronto em 2016.

Para todos, o caos estimulou o já clássico comentário: Imagine na Copa!

Geralmente, chove menos em julho do que em março… em todo caso, a Defesa Civil  acabou de publicar um guia de sobrevivência a desastres naturais. É importante destacar que, desta vez, não houve notícia de deslizamento de terra em favelas ou de desabamento de casas, o que talvez seja devido ao trabalho de conscientização e de defesa civil, da Prefeitura.

Agora, o sol saiu

Para a sorte de Eduardo Paes, cujo recente compra para escolas públicas da versão Rio Cidade Olímpica do jogo Banco Imobiliário chocou os cidadãos, ele foi reeleito em outubro do ano passado—no primeiro turno,  e com um recorde de 64.6% dos votos. Apesar de  os royalties do petróleo do estado do Rio de Janeiro estarem novamente sob risco, investimentos públicos e privados contribuíram muito para retirar a cidade de uma longa decadência, e desenvolver sua vocação natural como centro turístico e cultural. Provavelmente o Rio será um dos últimos lugares a sentir o impacto do desaquecimento econômico no país.

No ano passado, Eduardo Paes pôde contar com a burocracia municipal e com suas políticas, como uma máquina política. Porém, considerando que a economia é o eixo de qualquer eleição, conforme concluiu um estrategista de campanha do Bill Clinton em 1992, o prefeito não vai sentar tão logo para surfar o You Tube e assistir às piores imagens do temporal.

É a boa sorte do Eduardo Paes também que os cidadãos estejam bem ocupados pelo crescimento econômico, e pouco inclinados a ficar com a tempestade de terça-feira na cabeça – e que os cariocas fazem pouco caso de dificuldades e preocupações. “Jorrava água pelo teto do elevador do meu prédio, que é  bastante bom, com um condomínio alto,” comenta um estrangeiro estupefato. “O porteiro me disse que estava avisando a todos para tomar cuidado.” No país dele, acrescenta, o elevador teria sido interditado imediatamente.

Na verdade, duas das mortes nesta semana foram por eletrocução, na rua.

Até mesmo os fatos mais dramáticos no Rio – como despejos forçados, que atualmente atraem a atenção de muitos jornalistas e fotógrafos estrangeiros – parecem ter pouca importância para o prefeito, e até mesmo para a ONU. Enquanto o grupo de ativistas Comitê Popular da Copa e Olimpíadas Rio aguardava com entusiasmo uma apresentação prevista para 4 de março, por Raquel Rolnik, Relatora Especial da ONU sobre Direito à Moradia como componente do direito ao padrão de moradia adequada no Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas, o resumo oficial praticamente não mencionou o Rio.

Tudo é relativo

Para muitos cariocas, a vida está realmente melhorando pela primeira vez em décadas. Mas, conforme as queixas de muitos jovens e ativistas, ainda há muito por fazer– e muito do que está sendo feito poderia ser melhor, se aqueles que elaboram e administram as políticas públicas trabalhassem com mais transparência, diálogo e participação.

Um alto funcionário da Prefeitura disse ao RioRealblog em janeiro que a política de moradia de renda mista é uma ideia incipiente no Rio. Pouco antes, ele havia lido uma proposta de moradia de renda mista, preparada à pedido dele, referente ao Porto, por alunos de mestrado da Universidade Columbia. Ele disse ainda que empresários do setor imobiliário estariam mais abertos à ideia se soubessem que essa política é praticada nos Estados Unidos e na Europa – e não apenas no México e na Colômbia.  Até o momento, o Rio não desenvolveu estratégias de incentivo à habitação de renda mista.

O bom é inimigo do ótimo. Portanto, no clima traiçoeiro do Rio de Janeiro, o melhor que nós podemos fazer é acompanhar de perto as autoridades municipais e estaduais, e criar as condições para que conversas bem informadas e trocas de ideias frutíferas aconteçam com frequência .

Tradução de Rane Souza

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About Rio real

American journalist, writer, editor who's lived in Rio de Janeiro for 20 years.
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6 Responses to Águas de março: uma lição de humildade?

  1. Marcio says:

    Enfim, ano vai, ano vem e o rio de janeiro não planeja nada para suas águas de março, que começam em janeiro… Havia ainda o arjumento de Paes de que a chuva foi forte demais, mas esse ele deixou para as próximas.
    Mas o que surpreende é: o carioca conviver com isso, entra ano e passa ano, em um lugar que se chama não por acaso de Rio de Janeiro. É como viver com um jacaré debaixo da cama e dizer “ok, eu vivo com esse jacaré…”

  2. tite de lamare rego barros says:

    Julia, cada vez melhores suas crônicas da urbe carioca. Adorei a referências aos maias e como diz o Marcio aí acima vivemos com o jacaré debaixo da cama.

  3. Olá! O resumo oficial da ONU mencinou as remoções forçadas, veja só: “Conectas Direitos Humanos drew the Council’s attention to abuses which occurred in Brazil during preparations for the World Cup and the Olympics. The realization of those two events could attract significant investment in public infrastructure which would benefit Brazil; in reality, however, there were major problems facing local communities, including forced evictions or the threat of forced evictions of more than 170,000 Brazilians. The Council should call on Brazil to immediately stop forced evictions”.

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