Especialistas criticam a prefeitura

Flávio Ferreira, Luís Fernando Janot e Washington Fajardo

Flávio Ferreira, Luís Fernando Janot e Washington Fajardo, em debate na Osteria dell’Angolo

Juntou-se em público, talvez de forma inédita, a inteligentsia do urbanismo carioca na última segunda-feira, por um debate do OsteRio intitulado “Uma cidade em transformação: intervençoes urbanas no Rio de Janeiro”.

Havia  bastante consenso entre os urbanistas.

As críticas principais levantadas foram:

  • Mobilidade. Três dos quatro BRTs fazem conexão com a Barra. Ainda não se pensou em renovar as linhas existentes de trem suburbano. O modelo de transportes no Rio é linear, quando deveria ser nodal, de redes interligadas.
  • Morar carioca. O programa de urbanizaçaõ de todas as favelas da cidade até 2020 não parece ter saído das pranchetas.
  • Av. Rio Branco. Não houve debate sobre a decisão de fechar a Cinelândia aos veículos e torná-la  em ambiente peatonal. Periga se tornar uma área vazia da cidade, com perda de características históricas.
  • Foco demais na Barra. Pode causar o esvaziamento de outros bairros, sobretudo os da Zona Norte, em termos de investimento e de população. As cidades no mundo todo hoje prezam o adensamento, para baixar os custos de serviços urbanos e os do setor privado; o Rio parece estar fazendo o contrário.
  • Falta de visão estética para a área do Porto. O lado comercial estaria predominando, na cara revitalizada que a região terá.
  • Falta de diálogo. Com uma Câmara dos Vereadores pouco autónoma e que pouco representa as ansiedades dos cidadãos, uma imprensa que pouco cobre os assuntos da cidade e um prefeito autoritário, resta o Ministério Público — enfraquecido pela ausência de atuação das outras entidades.
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Shepard Forman: é preciso repensar os quiosques da orla, já

Washington Fajardo, urbanista e arquiteto, o jovem presidente do Instituto Rio Patrimônio da Humanidade, da Prefeitura,  se encontrou um tanto solitário, ao dividir a mesa com Luís Fernando Janot e Flávio Ferreira, ambos urbanistas de longa carreira. Estava na plateia o também experiente urbanista Sérgio Magalhães, presidente do capítulo carioca do Instituto dos Arquitetos Brasileiros.

Fajardo lembrou que a prefeitura está investindo sim na Zona Norte, com o programa Bairro Maravilha, o Parque Madureira, e a tão aguardada drenagem da Praça da Bandeira. Disse ele que a mobilidade no Rio irá mudar radicalmente, nos próximos anos. Assegurou que o Morar Carioca vai acontecer, sim, com a “meta mantida”, e as licitações indo em frente, logo.

Sérgio Magalhães e Luís Fernando Janot, sendo articulistas de O Globo, com frequência expoem suas ideias (Magalhães, inclusive, talvez seja o primeiro, em um veículo de grande público, a sugerir uma alternativa  à construção de moradia para famílias de baixa renda). Mas, fora os artigos deles e com exeção à cobertura extensiva do Globo das polémicas sobre o Pier em Y e a ocupação do solo no Jardim Botânico, é difícil haver uma troca tal como a desse encontro do OsteRio. 

Entre os outros participantes no debate da noite, não faltaram críticos leigos, se queixando mais do que elogiando, lamentando uma variedade de condutas da prefeitura, indo da abundância exagerada de bancas de jornal na Zona Sul ao projeto ultrapassado de quiosques na orla de Copacabana, que não leva em conta mudanças em práticas urbanas e no meio ambiente .

Os questionamentos feitos no OsteRio vêm de pessoas qualificadas, com experiência na elaboração e implementação de políticas públicas. Mesmo assim, com tanta mudança em curso, nem para eles deve ser fácil imaginar como será morar e trabalhar no Rio de Janeiro daqui a cinco anos. E é fácil criticar, do lado de fora do exercício do poder.

Notavelmente, Fajardo disse estar inaugurando uma nova função, fazendo o papel de interlocutor entre a administração do prefeito Eduardo Paes, e a sociedade em geral. “A prefeitura nunca se furtou a participar de debates e nunca se furtou a rever planos e ações,” falou. 

Tomara que tal troca continue, e com intensidade.

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About Rio real

American journalist, writer, editor who's lived in Rio de Janeiro for 20 years.
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2 Responses to Especialistas criticam a prefeitura

  1. Na pressa para obter resultados tangíveis na forma de construção, concreto e asfalto, parece haver uma preocupante falta de intangíveis, tais como estratégia, cooperação, colaboração e visão. Todos os empreendimentos assume um líder e soa como se ninguém está disposto a assumir o crédito por medo de que eles, em algum momento ser responsabilizado. É um bom momento para perguntar: Qual é a visão? Rio teve a sorte de nunca ter feito essa pergunta antes. Cada adulto teve de responder a essa pergunta, assim se uma cidade.

  2. Rio real says:

    pois é, Michael…

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