O Rio é nossa criatura

Protestors in front of the state legislature building, photo by Bruno F. Duarte
Manifestantes, ontem à noite, em frente à Asssembleia Legislativa do estado, foto de Bruno F. Duarte

Protestos contra aumentos de tarifa de ônibus chacoalham Rio e São Paulo

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A passagem subiu em apenas vinte centavos, a partir do dia primeiro de junho. Mas o aumento parece ser a  pontinha de um iceberg de descontentamento nas maiores cidades do Brasil.

Os incrementos vieram num momento em que os preços sobem em geral, instigando lembranças dos anos 1980s, o que preocupa investidores e economistas. Em ambas as cidades, a polícia teria atacado, sem motivo aparente (relatos de São Paulo sugerem que alguns policiais, engajados em complexos questões de crime que envolvem facções, possivelmente tenham, eles mesmos, protestado), manifestantes e jornalistas que não cometiam atos violentos. Hoje, a mídia retrata os feridos, além dos resultados de vandalismo  nos centros das duas cidades — mas foi alvo de críticos, que disseram sentir a falta de um jornalismo mais isento, amplo e profundo.

[Dia 15, O Globo publicou na coluna “Negócios e Cia” uma notícia digna de primeira página: O Ministério Público do Rio até hoje não conseguiu acesso às planilhas de custos das empresas de ônibus, para poder analisar as verdadeiras necessidades para ajuste no preço da passagem. Além disso, a colunista Flávia Oliveira publica que as passagens de ônibus no Rio subiram 22,9% desde 2011, enquanto a inflação carioca foi de 17,24%. O grupo Meu Rio talvez tenha conseguido mais informações do que o MP.]

Pode ser que as tentativas, no Rio de Janeiro, de melhorar o transporte público, atiçaram uma sensação latente de que o sistema está assentado num profundo desrespeito pelos passageiros e empregados, ou seja, as classes mais baixas. Motoristas com pouco treinamento, sobrecarregados, correm além do limite da velocidade e não param onde devem. Muitos ônibus ainda são decrépitos. Até a nova pista dedicada aos ônibus articulados, a Transoeste, é uma construção incompleta e de baixa qualidade, com dezenas de cariocas feridos e mortos em atropelamentos, desde a inauguração.

Talvez essas classes baixas, que agora ocupam uma posição mais alta na pirámide socioeconômica do que antigamente, que agora escolhem seus trabalhos num contexto de pouco desemprego, sendo que alguns já tiveram a chance de viajar e experimentar o transporte público de outras cidades, estejam neste momento preocupados com a mordida da inflação nos seus ganhos, e sintam que chegou a hora de ir para as ruas, de levantar a voz.

“Os protestos já não são sobre o aumento da tarifa dos transportes. Lá, encontrei jovens de várias regiões da cidade, ditos engajados ou não, exigindo a participação popular na escolha dos rumos que a nossa cidade está tomando. Há uma mistura nítida de corpos e ideias nas ruas – anarquistas, torcida de futebol, movimento sem teto, estudantes, e até as velhas juventudes dos partidos políticos com suas bandeiras, que não suprimem a sensação de um movimento suprapartidário,” diz Bruno F. Duarte, recentemente formado em comunicação e cinema pela PUC-Rio, e que marchava ontem à noite no Centro da cidade.

Aqueles vinte centavos podem representar um tipping point, ou ponto de virada, no panorama  geral do Rio, com seus cidadãos finalmente se dando conta dos governantes autoritários e da falta de diálogo, enquanto as taxas de crime aumentam e a cidade se prepara para dois megaeventos, neste e no próximo mês. Os protestos, durante os quais houve violência  e prisões nas duas cidades, acontecem no meio de mudanças no mundo todo, no âmbito da relação do indivíduo com a sociedade.

Ashwin Mahesh: the City Council can never solve problems. Decentralizing money is the only game in town.
Ashwin Mahesh: a Câmara dos Vereadores nunca vai poder solucionar os problemas. O jogo é decentralizar a grana.

Não mais os cidadaos devem depender unicamente de seus governos, para tratar dos assuntos urbanos, disseram vários participantes na conferência New Cities Summit, que aconteceu em São Paulo entre os dias 4 e 6 de junho.

“Desistam de ter esperanças por uma liderança forte,” disse Ashwin Mahesh, um pregador indiano de ‘urbanismo open-source‘ que redesenhou o sistema caótico de tráfego em Bangalore . O prefeito de Porto Alegre, José Fortunati, apresentou o orçamento participativo daquela cidade, iniciado em 1989 e em vigor até hoje. Oded Grajew explicou como seu Rede Nossa São Paulo acompanha os políticos com todo cuidado, tendo desempenhado um papel decisivo na última eleição municipal. E a norteamericana Lily Liu mostrou um aplicativo colaborativo e amigável aos usuários que vai muito além do site 1746 do Rio, para relatar problemas aos responsáveis — e que dentro de breve pode estar chegando à Cidade Maravilhosa.

O Summit trouxe notícias de uma tendência mundial. Este livro novo apresenta uma pesquisa demonstrando que a revitalização urbana somente vinga quando se criam redes entre diferentes classes e grupos sociais e políticos. Este post traz um link para uma palestra TED sobre arquitetura pelo e para o povo. E este site funciona como uma vitrine para esforços individuais para mudar as cidades.

Claro que dever haver colaboração entre a sociedade civil e os governos, como aponta um  artigo recente da revista New Yorker, criticando os geeks jovens que endeusam seus  smartphones.

Não apenas os jovens se sentem excluídos

Nos últimos quinze dias, experientes arquitetos e urbanistas cariocas, que dizem ter ficado até então de fora do processo decisório, finalmente tiveram a chance de opinar. Após um pequeno porém acirrado debate no OsteRio , o capítulo carioca do Instituto dos Arquitetos Brasileiros sediou uma reunião na segunda-feira passada, de pelo menos duzentas pessoas, muitas das quais tomaram o microfone para criticar os planos para o centro da cidade, apresentados por Washington Fajardo, que ocupa o cargo municipal de Presidente do Instituto do Patrimônio da Cidade.

Former Urban Planning Secretary Alfredo Sirkis, who criticized the city for taking down the Perimetral expressway, sits amid the IAB crowd
Ex-secretário de urbanismo Alfredo Sirkis (camisa azul), criticou o prefeito Eduardo Paes pelo desmonte da Perimetral

Como resultado disso, o prefeito Eduardo Paes disse que pode mudar os planos de transporte em massa  para a avenida Rio Branco e para a rua Primeiro de Março. Os que estiveram presentes também criticaram a prefeitura pelas remoções e a política de habitação, além das políticas que podem exacerbar o espraiamento urbano, em direção  à Zona Oeste.

Washington Fajardo said he was taking notes on everything that was said
Washington Fajardo disse que anotava tudo o que foi levantado — e haverá mais reuniões 

Os manifestantes tanto no Rio como em São Paulo dizem que irão voltar às ruas até que a tarifa abaixe. Se alimentam de esperança, ao acompanhar o sucesso de uma batalha parecida, em Porto Alegre. Alguns brasileiros também estão de olho nos protestos em Istanbul, Turquia, como exemplo de expressão do descontentamento urbano. Lá, as questões locais parecem estar misturados com assuntos nacionais, e os dissidentes estão as turras com o primeiro ministro.

Aqui, a transferência da capital para Brasília em 1960 por Juscelino Kubitschek tinha como objetivo parcial evitar tais confrontos. Mas a distância física não é uma barreira tão grande hoje em dia como já foi, a sociedade está em transformação e os cidadaos podem estar começando a se sentir mais poderosos, pelo menos nas cidades maiores do Brasil. Depois da violência de ontem à noite, resta ver como os políticos e as polícias  — no Rio de Janeiro lidando com muitas necessidades ao mesmo tempo — irão responder ao próximo desafio.

No meio tempo, o ônibus ainda custa R$ 2.95 e trocar três reais não é fácil.

Daniel Libeskind's beautiful buildings are nothing without people
Os lindos prédios de Daniel Libeskind são nada, sem pessoas

About Rio real

American journalist, writer, editor who's lived in Rio de Janeiro for 20 years.
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