Protesto no Rio: parte de uma mudança que ganha corpo e importância

On Rio Branco

Na Rio Branco, vibrando enquanto pessoas em escritórios piscavam as luzes

 As manifestações, em todo o Brasil e, até mesmo, feitas por brasileiros morando no exterior, na verdade são contra a desigualdade e a injustiça – as bases da corrupção e da impunidade.

For Rio protest: part of a growing and important shift, click here.

O louro José – um companheiro em forma de fantoche – disse quase nada durante a primeira hora do programa da Ana Maria Braga nesta manhã. Ana Maria, que geralmente oferece aos espectadores receitas, informações sobre saúde, beleza e desenvolvimento pessoal, afirmou que os protestos de ontem entrarão para a história brasileira. “É legítimo querer uma sociedade mais justa,” ela concluiu.

Por décadas, as classes mais baixas têm encarado deslocamentos desumanos para chegar ao trabalho. O aumento de vinte centavos nas tarifas de ônibus do Rio de Janeiro e de São Paulo (estopim para os primeiros protestos) é parte de um problema maior do opressivo transporte público, que, por sua vez, representa uma opressiva estrutura maior, política e social. A falta de transparência nos setores público e privado, de prestação de contas e de diálogo são partes vitais do problema. Por exemplo, no Rio, as empresas de ônibus não divulgam seus custos reais, assim, os cidadãos não conseguem avaliar se o aumento da tarifa é justo. Uma reportagem recente no jornal Globo mostrou que as empresas não cumprem os critérios de concessão de transporte municipal.

These are the names of the bus company owners

Nomes dos donos das empresas de ônibus

 Os brasileiros culpam seus representantes eleitos. É importante destacar que, quem quer que tenha efetuado o ataque violento ao prédio da Assembleia Estadual do Rio de Janeiro na noite de ontem – um grupo pequeno comparado às 100 mil pessoas que pacificamente lotaram a avenida Rio Branco, – não escolheu o Teatro Municipal, a Biblioteca Nacional ou o Museu de Belas Artes, todos na mesma região. Infelizmente, o vandalismo atingiu o Paço Imperial, lojas e carros que estavam por perto; alguns desses manifestantes também brigaram com a polícia, que disparou tiros. Em São Paulo, um pequeno grupo tentou atacar o Palácio dos Bandeirantes, sede do governo estadual.

Possibly the demonstration's most dramatic moment: the crowd realizes that protesters in Brasília have invaded the roof of Congress

Possivelmente, o momento mais dramático da manifestação no Rio: a multidão percebe que os manifestantes em Brasília haviam invadido a cobertura do Congresso Nacional

What they were watching

O que eles estavam assistindo

 A TV Globo, que na semana anterior havia dado pouca importância aos protestos e que é tão odiada pelos manifestantes que seus repórteres usaram microfones sem logomarca ontem à noite, se juntou ao bonde. Até mesmo o programa feminino que vai ao ar depois de Ana Maria Braga focou nos protestos, fazendo uma análise do que aconteceu. E quando a Globo se junta ao bonde, ela anda – mesmo que o itinerário do bonde seja desconhecido.

Antes dos protestos, que segundo estimativas mobilizaram 230 mil pessoas em doze capitais, o secretário geral da FIFA  Jerôme Valcke, em abril deste ano, verbalizou sua irritação com a democracia brasileira, nascida há apenas 28 anos. “Quando lidamos com um chefe de Estado que pode tomar decisões, como talvez Putin possa fazer em 2018 [… ] o trabalho de nós, organizadores, é mais fácil que em um país como a Alemanha […] onde precisamos negociar com diferentes níveis [de governo].”

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Muitos vestiam branco e carregavam flores — e vinagre, um antídoto para o gás lacrimogênio

Os protestos estão ocorrendo no Brasil – com mais planejados para esta semana, com a convocação de uma greve geral em 1 de julho — no momento quando a Copa das Confederações acontece, em seis cidades. Os brasileiros vibraram em todo o país quando o Rio de Janeiro foi escolhido para sediar os Jogos Olímpicos de 2016. Mas, à medida que o dinheiro deles é usado em infraestrutura de custos altíssimos feita para os mega eventos (e, muitos dizem, que o dinheiro também vai para os bolsos de políticos e de outros atravessadores), os brasileiros estão acordando para o que esses recursos poderiam fazer em setores historicamente negligenciados como educação, saúde, segurança pública e transporte.

A internet ajuda a disseminar a informação e a criar redes. Os brasileiros de vinte e poucos anos parecem com os baby boomers americanos dos anos 1960. Muitos deles, ao contrário de seus pais e avós desiludidos, são idealistas e acreditam em sua capacidade de mudar o país. Líderes do Movimento Passe Livre, no programa Roda Viva de ontem à noite, demonstraram de maneira convincente e clara seus motivos para exigir o passe livre e para organizar o que se tornou um movimento nacional.

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A reforma do Theatro Municipal feita em 2010 faz parte das transformações na cidade, que contribuíram para o surgimento de novas demandas

Os mega eventos vieram após cerca de uma década de mudanças econômicas e sociais, com milhões deixando a pobreza e entrando na economia formal. As favelas do Rio, por exemplo, vivenciam um aumento de renda real. Tanto as universidades públicas quanto as privadas têm recebido um número crescente de alunos de baixa renda. O desemprego atingiu os níveis mais baixos registrados.

Há muito tempo, os pobres do Brasil têm demandado inclusão econômica e social. O golpe de 1964, conduzido no contexto da Revolução Cubana, teve o objetivo de conter essa demanda. Durante os governos militares, entre 1964-85, os tecnocratas diziam que os ganhos econômicos teriam um efeito trickle-down, e isso aconteceu em algum grau. Porém, enormes abismos em desigualdade persistiram.

This was the general feeling

Esse era o sentimento geral

Assim que a hiperinflação (criada pela ditadura) foi domada em 1994, o salário mínimo teve ganhos reais e os programas de transferência de renda puderam ser expandidos. Durante o governo Lula, finalmente removeu-se a tampa da panela de pressão que represava as demandas por mais igualdade econômica – e não poderá mais ser recolocada. Para um país cujas estruturas políticas e sociais foram basicamente construídas sobre um sistema de dois níveis, na justiça na educação, no transporte e na saúde pública os desafios atuais  são imensos.

Alguns sinais são encorajadores. Ontem, quando líderes do movimento se reuniram com a polícia de São Paulo para discutir o trajeto do protesto, o chefe da Polícia Militar do estado tinha uma sugestão: “Gostaria que vocês fizessem outras manifestações como, por exemplo, contra a impunidade e pela prisão dos mensaleiros”.

Clique aqui para assistir a uma paródia divertida sobre o protesto em São Paulo, na semana passada.

Tradução de Rane Souza

 

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About Rio real

American journalist, writer, editor who's lived in Rio de Janeiro for 20 years.
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