Protestos no Rio: prefeito se abre ao diálogo; governador na defensiva

For Rio Protests: the city begins to dialogue; the state gets more defensive, click here

O prefeito do Rio, Eduardo Paes, está ficando conhecido como “Paes volta atrás“. O governador, Sérgio Cabral, tem atitude diferente, fincando os pés. Veremos somente daqui a um tempo a eficácia da estratégia de cada um deles, em face das demandas populares e da escalada da violência, com o Papa Francisco prestes a beijar o solo da Cidade Maravilhosa.

Ambos os políticos estão cumprindo o segundo mandato e ambos trabalham ao meio dos escombros da  aliança histórica entre os três níveis do governo; fora disso, têm muito  poucoem comum. Paes, autoritário, porém cosmopolita, cujos críticos o acusam de favorecer empreiteiras, empreendedores imobiliários e donos de empresas de ônibus, terminará sua gestão janeiro de 2017; portanto, presidirá os Jogos Olímpicos. Cabral, com a reputação maculada por acusações de corrupção e enriquecimento ilícito pessoal, cujo governo é responsável por uma política de segurança pública bastante bem sucedida, cerne da reviravolta da na cidade, quer eleger seu vice como sucessor no ano que vem. No entanto, o segundo homem mais importante no governo estadual, Luiz Fernando Pezão, atrai pouco apoio.

Paes navega em mares mais calmos: mesmo antes dos protestos de junho, ele  finalmente havia começado a dar ouvidos aos urbanistas e arquitetos do Rio, adaptando seus planos a algumas das sugestões desses especialistas. Contudo, sua gestão claramente tem priorizado investimentos de larga escala em projetos de infraestrutura, em detrimento do fornecimento de serviços sociais essenciais, a urbanização de favelas e participação comunitária – e isso não vai mudar. Paes também está cooperando com uma investigação da contabilidade das empresas de ônibus.

Como a polícia é uma entidade administrada pelo governo estadual e o governador é alvo fácil para manifestantes que se opõem à corrupção, Cabral, desde junho, é um homem sitiado, com comícios e protestos nos arredores de seu apartamento no Leblon e do Palácio em Laranjeiras. O resultado tem sido uma série de embates violentos e questionáveis, o último deles na noite de quarta-feira no Leblon e em Ipanema. Na quinta-feira pela manhã, autoridades policiais prometeram reprimir mais energicamente a violência, afirmando que acordos com grupos de direitos humanos não tiveram impacto.

É impossível saber o que acontece de verdade, pois faltam matizes à cobertura jornalística local, que  não fornece informações concretas sobre quem são os saqueadores e vândalos e o que eles pretendem. Por exemplo, o chamado Black Bloc é citado como responsável pelos ataques à polícia e à propriedade pública, sem menção ao fato de que um movimento Black Bloc desempenhou um papel nas manifestações no Egito. Por outro lado, o Facebook é uma fonte inesgotável e sem curadoria de informação, difícil de entender e de filtrar. Enquanto O Globo basicamente denuncia o vandalismo feito por jovens mascarados, alguns relatos pessoais levantam suspeitas sobre o comportamento policial.  Há relatos de policiais, agentes de inteligência (ABIN) e vândalos infiltrados em protestos e incitando a destruição.

O governador responsabilizou os políticos da oposição pela violência. Os políticos da oposição, exceto Marcelo Freixo, que se envolveu em um debate via Twitter com a Polícia Militar, ficaram relativamente quietos. Ninguém fala da pacificação, mas alguns analistas sugerem que aqueles negativamente afetados por ela estão por trás da violência. Há receio de que a pressão sofrida por Cabral terminará por angariar votos a políticos como, o ex-governador Anthony Garotinho e o ex-senador Marcelo Crivella, ambos de olho no cargo de governador. O senador Lindbergh Farias, um oponente jovem e progressista, co-autor de um artigo de opinião sobre reforma política publicado ontem em O Globo, poderá se beneficiar do caos atual no ano que vem. Todavia, ele também é alvo de acusações de corrupção, o que ressalta um dos desafios centrais que as manifestações apresentam em todo o país: quem representa os brasileiros agora?

O slogan de um protesto recente declarava que a honestidade do Secretário de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, só seria provada se ele prendesse o governador, chefe dele. Beltrame, que nega ter qualquer interesse em política, até junho mantinha uma imagem imaculada. Mas, no final das contas, ele e o governador são responsáveis pela violência policial que resultou na morte de nove moradores do Complexo da Maré e de um policial. Após aquele incidente, um comandante da Polícia Militar disse não saber quem havia ordenado a invasão da favela.

O cenário Estado x manifestantes/vândalos é um pano de fundo assustador para a visita papal em homenagem Jornada Mundial da Juventude, começando nesta segunda-feira, com a chegada de uns dois milhões de peregrinos jovens, colocando o Rio mais uma vez nos holofotes internacionais.  Os termos “toque de recolher” e “estado de sítio” estão no ar; ao chegar, o Papa pretende desfilar no centro do Rio em seu papamóvel, e em seguida dirigir-se a uma recepção formal no Palácio da Guanabara, onde Cabral e a Presidente Dilma Rousseff lhe darão as boas vindas.

Sim, segundo o Facebook, uma manifestação está marcada para o local.

Enquanto o evento principal, uma enorme missa campal, acontece em 28 de julho na Zona Oeste da cidade, em Guaratiba, haverá uma apresentação da Via Crúcis na noite de 26 de julho, em diversas partes da praia de Copacabana.

As forças de segurança estarão presente em massa, com até 20 mil homens e mulheres. Contudo, considerando o que tem acontecido aqui nas últimas seis semanas, pode-se imaginar qualquer coisa — inclusive que jovens de uma gama de origens e crenças se encontrem, numa fuga frenética dos policiais.

Tradução de Rane Souza

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About Rio real

American journalist, writer, editor who's lived in Rio de Janeiro for 20 years.
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