Greve de professores no Rio: uma enorme falta de confiança

Se os cães pudessem falar

Se os cães pudessem falar…

For Rio teachers’ strike: epic lack of trust, click here

Na manhã da sexta-feira passada, um homem passeava calmamente com seu cachorro no calçadão de Ipanema. Outro homem vinha caminhando apressadamente por trás dele e esbarrou no cachorro (com o pé, é claro). O cão ganiu.

 “Filho da puta!” gritou o primeiro homem, fazendo com que cabeças se virassem no ensolarado calçadão. Seguindo caminho a um passo rápido, o segundo homem levantou um braço acima da cabeça. Sem se virar para trás, flexionou e estendeu o cotovelo, repetidamente, mão estendida, dedo médio apontando para o céu.

Não se tratava de um exercício de bíceps.

“Chutou meu cachorro,” berrou o primeiro homem. “Canalha!” Talvez esquecendo que não estava atrás de um volante, começou a correr atrás do madrugador mal educado. Ainda gesticulando com o dedo, esse seguiu seu caminho.

No final das contas, alguns passantes convenceram o dono do cachorro a abdicar da vingança.

Se o incidente tivesse sido objeto de cobertura da imprensa tradicional, um ângulo possível seria que um homem sem noção de espaço pessoal, indevidamente ocupando o calçadão junto com seu cão, fez com que um homem, seriamente dedicado ao exercício matinal, perdesse a cabeça, perturbando, assim, a paz em Ipanema. Enquanto isso, no Facebook, milhares de usuários estariam criticando o homem que “chutou” um cachorro — e seu comportamento impiedoso e cruel. Alguns partidários de extrema direita defenderiam o homem dedicado, porém a maioria das pessoas apoiaria o dono do cachorro e seu companheiro de quatro patas.

Multiplique tudo isso por mil e você terá a greve de professores municipais e estaduais no Rio, que perdura há mais de dois meses. Os leitores do RioRealblog podem estar se perguntando por que esse assunto ainda não tinha aparecido aqui até agora. O motivo é que é muito difícil dar conta dessa greve.

Um vereador tentou resumir os acontecimentos (a partir de seu ponto de vista), apontando áreas de discordância e discussão. Mas, o leitor do blog dele logo irá perceber que esse assunto é imensamente mais complexo que o aumento das passagens de ônibus, que levou milhões de pessoas às ruas em junho. O prefeito Eduardo Paes disse que não negociará mais com o sindicato de professores municipais, que o diálogo levou a lugar nenhum. O sindicato afirma que não houve diálogo. Tal impasse levou o ministro do Supremo Tribunal, Luiz Fux, a chamar as partes interessadas para uma reunião na semana que vem.

Se todos escutassem

Se todos escutassem de verdade…

Talvez a educação nunca tenha sido uma prioridade no Brasil, que demonstra desempenho baixo em rankings internacionais. Enquanto estudantes de baixa renda lutam para aprender o básico em poucas horas de aula por dia, brasileiros de maior poder aquisitivo tendem a priorizar o networking, em detrimento do trabalho intelectual. Atualmente, deve-se ao estudo fraco um dos maiores gargalos que restringem o crescimento econômico: a falta de profissionais qualificados. Hoje em dia, no Rio, a maior parte da crescente população de expatriados é composta por escandinavos que trabalham no setor de petróleo e gás, elemento central da movimentada economia do estado.

O governo militar que esteve no poder de 1964 a 1985 promoveu crescimento econômico e implementou grandes projetos de infra-estrutura, tais como a usina hidrelétrica de Itaipu. Fernando Henrique Cardoso domou a inflação e estabilizou a economia. Lula da Silva fez com que milhões de trabalhadores tivessem acesso à economia formal e ampliou o formato da pirâmide socioeconômica brasileira.

Ainda assim, nem as escolas públicas nem as particulares oferecem educação de tempo integral. As escolas públicas são mal equipadas e os professores mal pagos. Professores precisam trabalhar em mais de uma instituição, correndo de um emprego para o outro para sobreviver, com pouco tempo para preparar as aulas.

O salário mensal de meio período para um professor no município do Rio é de, no mínimo,  R$ 1.147,00  e, no máximo, de R$ 1.439,00. O município é responsável, principalmente, pelas creches e escolas de Ensino Fundamental I e II. O governo do estado está encarregado das escolas de Ensino Médio.

O prefeito Eduardo Paes diz que está tentando implementar um sistema de educação em tempo integral até 2020 e deseja aumentar os salários dos professores, bem como reorganizar as categorias do plano de carreira docente, de modo a oferecer o mesmo salário a profissionais cuja descrição de cargo e experiência profissional sejam equivalentes. Ele também propõe um sistema em que o mérito seja considerado para fins de remuneração.

O sindicato diz que os aumentos são insuficientes, que a péssima infraestrutura escolar limita o desempenho dos professores e que um sistema meritocrático não leva em consideração outras variáveis que afetam o desempenho dos alunos, fabricando produtos, ao invés de pessoas.

Enquanto isso, os black blocs*, cada vez mais mal falados, participam das manifestações quase diárias, com a destruição de patrimônio valendo milhões de reais e transtornos aos deslocamentos diários dos cariocas. A polícia tem sido inconsistente e violenta ao responder às manifestações. Um policial foi flagrado no telhado do prédio da Câmara Municipal, jogando objetos nos professores.

O consulado americano enviou o seguinte email aos cidadãos americanos residentes no Rio na sexta-feira passada, antes de vários vidros do próprio prédio governamental serem estilhaçados, na manifestação do último dia 15:

O Consulado Geral dos Estados Unidos no Rio de Janeiro alerta cidadãos americanos em visita ou residentes no sudeste do Brasil para a possível continuação dos protestos nas cidades da região, inclusive na cidade do Rio de Janeiro […] Em vários episódios recentes, as manifestações no Rio de Janeiro tornaram-se violentas, levando a lesões físicas e danos à propriedade. 

Luz no fim?

Luz no fim do túnel? Novo túnel sendo escavado na área portuária

Críticos afirmam que o sindicato opera com propósitos políticos e que não representa os professores, sendo que a maioria já teria retornado ao trabalho. Outros dizem a meia voz que o ex-governador Anthony Garotinho está por trás da greve (determinado a desestabilizar o status quo político em seu favor) — com a eleição estadual marcada para daqui a um ano. Outros apontam o atual governador Sérgio Cabral, afirmando que ele está desautorizando o secretário de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, ao comandar pessoalmente a polícia (inclusive milicianos infiltrados), com a aliança política entre estado e prefeitura, inicialmente tão fundamental para a pacificação, completamente desfeita. Além disso, existe especulação sobre a identidade e a motivação dos black blocs. Por último, mas não menos importante, a imprensa brasileira tem seus próprios viés e fraquezas, dos quais nem todos têm conhecimento, mas sobre os quais muitos desconfiam.

Portanto, ficar de olho no Rio é praticamente uma profissão em si mesma, um tanto parecida com a de observador da China ou da ex-URSS. É necessário ter a criatividade de um dramaturgo de novela para cobrir todos os ângulos maquiavélicos – e, no final das contas, nunca se tem certeza plena da verdade.

Muitos cariocas evitam a complexidade das questões e despreocupadamente se valem de suas próprias pressuposições e experiências de vida para avaliar uma certa situação.

Então, ao destilar a greve de professores, o único elemento que se identifica com algum grau de certeza é uma grande e potente gota de desconfiança. O prefeito, que faz malabarismos para lidar com uma variedade de questões políticas e desafios urbanos, é um interlocutor inconsistente. O sindicato, cujos funcionários supostamente têm filiação partidária (o que é proibido), tem agenda própria. E há de se perguntar por que os professores de escolas públicas, jamais devidamente valorizados pela sociedade brasileira, iriam acreditar que Eduardo Paes e Cláudia Costin, Secretária Municipal de Educação, defenderão seus interesses. De acordo com uma entrevista no jornal O Dia, os filhos do prefeito frequentam uma escola particular.

Estudos comprovam que brasileiros confiam em parentes e amigos próximos acima de tudo. Em uma sociedade cujo histórico é de instituições fracas, sobretudo com um sistema judiciário em cujo respaldo não se pode contar plenamente, faz sentido depositar confiança somente naqueles em que se pode dar um aperto de mão ou um beijo na bochecha. Nunca se sabe quando um estúpido no calçadão vai chutar seu cachorro.

Porém, a sociedade brasileira está em transformação e para alcançar os muitos objetivos do país, principalmente considerando a necessidade de formar nossos jovens e prepará-los para a vida adulta, precisamos superar a barreira da desconfiança. É um problema que existe em qualquer lugar do mundo e  há técnicas para resolvê-lo.   Uma escuta forte e verdadeira é crucial e, é claro, todas as partes interessadas precisam concordar em participar.

Então, o homem chutou o cachorro? Talvez somente esta blogueira (se você confiar nos poderes de observação dela), que, por acaso testemunhou a cena toda, teria capacidade de atestar o que realmente aconteceu: o segundo homem estava andando tão rápida e concentradamente que não viu o bicho e roçou nele,  pisando momentaneamente em sua pata.

E, então, só nos resta imaginar porque o homem não parou para se desculpar e certificar-se de que não tinha machucado o cão. Talvez ele odeie cães. Talvez ele ame cães e a esposa dele levou a Melzinha embora quando decidiu abandonar o marido – naquela manhã. Ou talvez ele não goste de pessoas, principalmente daquelas com quem ele compartilha espaços públicos.

* * * * *

*Para mais informações sobre os black blocs, clique aqui.

 Tradução de Rane Souza

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About Rio real

American journalist, writer, editor who's lived in Rio de Janeiro for 20 years.
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