Conferência internacional traz rica troca de ideias

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Número expressivo de autoridades cariocas deixou de comparecer

“Não há atenção suficiente às escolas, nem ao desemprego […] há uma noção de renda trickle-down […] os planos não incluem as pessoas que moram lá. Depois, há a questão de como construir confiança no setor público […] as cidades não contam com a infraestrutura suficiente para gerir as transformações urbanas de setor público.”

Tais comentários não tratam do Rio de Janeiro ou de qualquer outra cidade latino americana. Foram tecidos por Richard Baron, fundador de uma empresa que revitaliza alguns dos bairros mais miseráveis dos Estados Unidos, em cidades como Nova Orleans e Detroit.

Suas palavras poderiam ter trazido certo alento aos membros do alto escalão do governo do Rio, que lidam com os duros desafios da transformação urbana, foco da conferência Urban Age deste ano, trazida ao Rio de Janeiro pela London School of Economics e pela Alfred Herrhausen Society do Deutsche Bank.

Se tivessem comparecido ao evento.

As autoridades ausentes, dos governos estadual e municipal, talvez tivessem ficado surpresas ao perceber que os desafios urbanos do Rio parecem pouca coisa, comparados aos dos países africanos, levantados durante a apresentação de Edgar Pieterse, diretor do African Centre for Cities na University of Cape Town. Pieterse contou aos participantes que 62% dos africanos que vivem em áreas urbanas moram em favelas, metade da população tem 17 anos ou menos, a força de trabalho deve triplicar até 2040 e 63% dos africanos estão em empregos de risco.

A wealth of ideas

Uma riqueza de ideias

Cinco palestrantes confirmaram presença, mas não compareceram ao evento: o prefeito Eduardo Paes, o governador Sérgio Cabral, o diretor presidente da CDURP Alberto Gomes Silva (encarregado da revitalização da região portuária), o chefe do Rio Negócios Marcelo Haddad (responsável por atrair investimentos para o Rio) e o chefe de gabinete de Eduardo Paes, Pedro Paulo Carvalho Teixeira.

“Ano passado, em Londres, tivemos o primeiro ministro, além do prefeito,” disse, decepcionado, o crítico de design Justin McGuirk. O livro deste, Radical Cities: Across Latin America in Search of New Architecture [Cidades radicais: a busca por uma nova arquitetura na América Latina] será publicado no ano que vem.

Os faltosos perderam a oportunidade de conhecer o trabalho criativo de Richard Baron para produzir habitação de baixa renda de qualidade, que abre caminhos para melhorias de vida. Baron busca financiamentos em diferentes níveis de governo para  seus projetos sem fins lucrativos, além de obter fundos do setor privado e de fundações. Ele disse ao RioRealblog que, diferentemente da habitação social do Brasil, as unidades que produz são alugadas, em vez de se tornarem propriedades daqueles que as habitam.

“Moradia de aluguel é um modelo melhor por causa do custo da manutenção,” Baron explicou. “Os proprietários de baixa renda não têm como pagar por esses custos. Os aluguéis são subsidiados, e as famílias podem ir melhorando de condição, de locatários de baixa renda, a locatários de renda média, a proprietários propriamente ditos — sempre no mesmo bairro, para que os filhos possam continuar na mesma escola.”

Algo bem diferente do programa nacional Minha Casa Minha Vida, que talvez tenha beneficiado mais às construtoras e aos seus funcionários, do que às pessoas que acabam por morar nas casas construídas.

Também, representantes do governo de São Paulo falaram sobre novos esforços para revitalizar o centro da cidade, reduzir o tempo de deslocamento e oferecer habitação de baixa renda.

Dame Tessa calls for a rethink of relations with the Olympic Committee

Jowell sugere a repaginação de relações com o Comitê Olímpico

Outro ponto alto da conferência foi a palestra da quase ex Diretora de Planejamento Urbano de Nova York, Amanda Burden, que descreveu seus anos de trabalho para revisar o regimento de zoneamento da cidade, intocado desde 1961. “Mexemos em mais de duzentos bairros. Produzimos um  Guia de Zoneamento. Andamos de quarteirão em quarteirão, ouvindo as comunidades. Em alguns casos, levamos de um a cinco anos para conseguir um consenso comunitário.”

O novo regimento tem por objetivo, ela disse, adensar todos os bairros, criar múltiplos centros urbanos e focar na proximidade ao metrô. Notavelmente, críticos afirmam que os doze anos de mandato do chefe de Amanda Burden, o prefeito Michael Bloomberg, serviram para expulsar muitos nova iorquinos de bairros em processo de gentrificação — algo que o Rio está começando a experimentar. Ainda assim, mesmo que uma revisão tão profunda do zoneamento urbano pareça um luxo no nosso contexto, certamente é uma tarefa a se considerar para o futuro.

Uma das palestras mais instigantes foi a de Dame Tessa Jowell, a ministra britânica para as Olimpíadas de 2012. Descreveu ter feito um trabalho de sessenta anos em seis – revitalizando os cinco bairros mais pobres de Londres, melhorando educação e treinamento, levando jovens, mulheres e deficientes para a indústria da construção civil, modificando o quadro de moradia de baixa renda. O impacto no East End ainda se desenrola e tem sido objeto de muito debate.

Jowell foi seguida por sua colega respectiva no Brasil, Maria Sílvia Bastos Marques, cuja apresentação  focou em mobilidade e infraestrutura como peças centrais para a transformação urbana vinculada aos Jogos Olímpicos. Isso levou Andy Altman, chefe executivo da London Legacy Development Corporation entre 2009 e 2012, a falar de “infraestrutura soft”.

“Como que o legado brasileiro trata da desigualdade?” perguntou a ela, dando a todos naquela sala lotada uma chance de refletir. Bastos Marques, uma de nove autoridades cariocas que compareceram à conferência, falou em seguida sobre a UPP Social da cidade (que mapeia demandas sociais em favelas pacificadas e coordena a resposta da prefeitura a elas), a inclusão de aulas de inglês no currículo de todas as escolas públicas municipais e as mudanças culturais em curso, estimuladas, por exemplo, por novas multas e uma campanha de educação pública para convencer os cariocas a deixar de jogar lixo no chão.

Comparada à abordagem londrina, isso tudo pode parecer inconsequente, principalmente quando se considera a condição do Brasil como membro do BRICS  e o fato de o Rio de Janeiro não ter acompanhado a redução na desigualdade que tem ocorrido a nível nacional.

Pouco se tem conversado aqui sobre o legado olímpico e os desafios socioeconômicos do Rio. Há três anos, o prefeito Eduardo Paes anunciou que, como parte do legado olímpico do Rio, todas as favelas seriam urbanizadas até 2020 no âmbito do programa Morar Carioca. Porém, isso ainda não acontece em escala maior e parte da culpa pelos atrasos talvez se deva às barreiras burocráticas e sociais a uma verdadeira integração urbana.

Faz muito sentido afirmar que as citadas melhorias em mobilidade e os investimentos em infraestrutura combatem a desigualdade de forma efetiva, ainda que indireta. Trabalhadores no Rio gastam mais tempo com o deslocamento que os de São Paulo, uma cidade muito maior e mais populosa, tempo que poderia servir para melhorar a baixa produtividade econômica brasileira. E as obras caras para o controle de enchentes na área do Maracanã devem resolver um problema que durante décadas danificou casas e estabelecimentos comerciais, paralisando a cidade.

Former mayor of Bogotá, Enrique Peñalosa (far left), a ferocious advocate of green space and dedicated bus lanes

O ex prefeito de Bogotá, Enrique Peñalosa (à esquerda), entusiasta fervoroso dos espaços verdes e de faixas exclusivas para ônibus, troca ideias com Dame Tessa Jowell, Amanda Burden, o ex prefeito de Washington D.C, Anthony Williams e o fundador da Transparência Internacional, Peter Eigen. A mesa suscitou debate sobre a corrupção como barreira à transformação urbana

Ainda assim, vale a pena perguntar, como fez Suketu Mehta, autor de
Bombaim: cidade máxima: “[…] para quem, exatamente, vai bem a vida urbana? Quem está no jogo e quem está fora?”

O prefeito Eduardo Paes e o governador Sérgio Cabral viajam muito e certamente já trocaram ideias com seus pares ao redor do mundo. Mas, a conferência, que reuniu uma prefeita em exercício, um vice-prefeito e ex-prefeitos de cinco cidades diferentes, ofereceu uma rara oportunidade para amplo debate e reflexão.

Vários palestrantes mencionaram o DNA de uma cidade, conceito útil no contexto da transformação urbana. O Rio manterá seu DNA de urbe sociável e criativa? Ou condomínios fechados, com moradores dependentes de automóveis, continuarão a proliferar na Zona Oeste enquanto edifícios comerciais espelhados e de formas bizarras competem esteticamente com a baía e os morros que a cercam, na zona portuária — relegando ao Centro antigo e às Zonas Norte e Sul o papel de relíquias exóticas de uma cidade que não mais existe?

E, como indagou Adam Greenfield, autor  de Against the Smart City [Contra a cidade inteligente], “E os bits? E o compartilhamento de informação?” enquanto o Rio se moderniza e ainda sofre para manter seu DNA. Nenhuma autoridade estava presente para falar sobre o Centro de Operações do Rio nem sobre o apoio governamental à criação, por cidadãos, de aplicativos para dispositivos móveis.

Jailson da Silva and Celso Athayde, favela pioneers, trade thoughts after their presentations

Jailson da Silva and Celso Athayde, pioneiros de pensar favela , trocam ideias após suas apresentações no Palácio do Itamaraty

Deyan Sudjic, diretor do Museu de Design de Londres, apontou os riscos do “planejamento zumbi” — a adoção do que ele chamou de políticas públicas “de prateleira”, implementadas com sucesso, mas possivelmente inapropriadas para a reprodução.  Barcelona, disse ele — o modelo do Rio para as Olimpíadas — “mudou o modo como pensávamos o planejamento. Todo mundo tentou copiar.”

Por último, mas não menos importante, aqueles que perderam a conferência Urban Age do Rio perderam uma convocação à revolução, por parte de cidades-sede de mega eventos, feita por ninguém menos que Dame Tessa Jowell. Ela falou da “brutalidade” dos Jogos Olímpicos e da necessidade de prestar “atenção, dia a dia, às pessoas que moram nas cidades sede”.

“Precisa haver uma renegociação com as entidades internacionais,” ela sugeriu. “Deve haver relações mais igualitárias com o Comitê Olímpico Internacional”. Para efetuar uma mudança, ela sugeriu que uma coalizão de cidades trabalhasse junto ao COI.

Tradução de Rane Souza


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About Rio real

American journalist, writer, editor who's lived in Rio de Janeiro for 20 years.
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6 Responses to Conferência internacional traz rica troca de ideias

  1. eduedu@hotmail.com says:

    Tenho certeza que o Cabral tinha coisas tão importantes quanto para prestigiar e resolver, afinal, ele deve ser uma pessoa muito ocupada.

  2. Pedro says:

    Ola,

    Sou brasileiro do estado do Piauí no Nordeste do Brasil. Moro à 12 anos em Londres.
    Cheguei à seu blog através de sua entrevista no Jô. Adorei!
    Li sua matéria sobre urbanização e confesso que tenho a mesma opinião que você.
    Sempre que vou ao Brasil eu tenho que visitar o Rio, os familiares, amigos e Ipanema. Confesso que acho a cidade a cada ano que passa mais suja e mal cuidada. São tantas coisas simples e eficazes que poderiam melhorar a aparência da cidade. Tipo pintar o muro das casas ou mesmo a prefeitura providenciar tambores de lixo enormes tipo “skip” já que o tambô pequeno não funciona! Londres está te parabéns pois a cidade é limpa e bem cuidada pelos cidadãos que aqui vivem e zelam. Rio deveria ser também assim. Beijos e keep in touch. pedro

  3. Há muitas soluções fantásticas para o problema da moradia… isso aqui eu curti demais:

    “Moradia de aluguel é um modelo melhor por causa do custo da manutenção,” Baron explicou. “Os proprietários de baixa renda não têm como pagar por esses custos. Os aluguéis são subsidiados, e as famílias podem ir melhorando de condição, de locatários de baixa renda, a locatários de renda média, a proprietários propriamente ditos — sempre no mesmo bairro, para que os filhos possam continuar na mesma escola.”

  4. Além disso, uma realidade:

    Moradia de aluguel é um modelo melhor por causa do custo da manutenção … Algo bem diferente do programa nacional Minha Casa Minha Vida, que talvez tenha beneficiado mais às construtoras e aos seus funcionários, do que às pessoas que acabam por morar nas casas construídas.

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