O Rio está preparado para a Copa?

Crisis room: the plan is for it to be empty

Sala de contenção de crise: o plano é que fique vazia

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O buraco fica mais em baixo

A visita de jornalistas estrangeiros, na semana passada, ao Centro Integrado de Controle e Comando, o CICC, exemplifica um número crescente de momentos esquizofrênicos que, com o passar do tempo, experimentamos no Rio.

No exterior, fala-se do Brasil, há anos, como a “terra de contrastes”. Até agora, se tratava dos contrastes entre ricos e pobres, entre os setores público e privado ou entre a natureza e construções feitas pelo homem.

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Posto de observação elevado, um periscópio terrestre

À medida que os responsáveis pela segurança pública durante a Copa apresentavam o CICC, equipado com 128 servidores de computador em uma sala segura, três postos de observação elevados, heliponto, video wall, duas salas de contenção de crises, call centers, auditório e quatro geradores, era impossível esquecer a reportagem do jornal O Dia publicada no dia anterior, descrevendo condições de acomodação e de trabalho precárias para os policiais militares lotados no Leblon, o bairro mais chique do Rio.

No mesmo dia da visita ao CICC, um descarrilamento de trem de manhã cedo criou um nó  enorme na rede de transporte do Rio, afetando 600 mil usuários. Apesar disso não ter relação direta com as políticas de segurança pública da cidade, trata-se de outro aspecto preocupante da vida cotidiana, que está na cabeça de todo mundo. Sim, temos novas pistas dedicadas aos ônibus e o metrô está sendo estendido até a Barra, porém o trânsito continua péssimo e a idade média dos trens do Rio, segundo o jornal O Globo, é de 36 anos.  A idade média (que tal um museu?).

O chefe do Comité Olímpico Internacional, Thomas Bach, em visita à cidade no dia do descarrilhamento, falou nesta entrevista sobre os desafios de transporte que o Rio enfrenta. Surpreendentemente, poucas pessoas prestem atenção ao fato de que a SuperVia, a concessão que administra os trens no Rio, tem 60% de seu capital controlado pela Odebrecht Transport, filial da maior empresa de construção do Brasil, fortemente envolvida em obras nos estádios, dentre outras atividades. Tampouco é de conhecimento geral que 30% da  Odebrecht Transport é de propriedade do governo federal, através de recursos do FGTS.

190 Police Emergency Call Center

Call Center para emergências da Polícia, de chamadas 190

Então, por que é tão difícil melhorar os trens do Rio, administrados, com recursos federais, por uma das empresas mais importantes do Brasil? E por que não é acatada a sugestão do ex-presidente do capítulo Rio do Instituto de Arquitetos Brasileiros, Sérgio Magalhães, de que os trens sejam incorporados ao sistema do metrô (concessão gerida pela empreiteira OAS e pelos fundos de pensão do Banco do Brasil, da Caixa Econômica Federal e da Petrobras)?

Police dispatchers, in the next room

Policiais despacham viaturas, na sala ao lado do 190

(E por que, vamos perguntar também, apesar de o futebol não ser um esporte aquático, é tão difícil limpar a baía de Guanabara? Do jeito que as coisas estão indo, daqui a dois anos, atletas olímpicos de esportes marinhos podem ter que se esquivar de sofás velhos, flutuando em meio a um monte de lixo e de poluição).

Nicer than Leblon

Mais confortável do que no Leblon

A despeito das disparidades dentro da segurança pública e entre esse setor e outros serviços públicos, funcionários do governo apontam essa fase de megaeventos no Brasil como divisor de águas.

Esses eventos “catapultam o desenvolvimento de nossas polícias,” disse, no novo auditório, Humberto Freire de Barros, coordenador-geral de Operações da Secretaria Extraordinária de Grandes Eventos do Ministério da Justiça. Ele falou sobre o legado de mudanças duradouras na segurança pública. “Estamos usando os megaeventos para melhorar nossa polícia”, acrescentou.

É difícil fazer comparações, ou temporais, ou entre estados do Brasil (leitores, aceito qualquer ajuda nesse sentido). De acordo com a Secretaria Estadual de Segurança Pública, os gastos da polícia fluminense em 2007, antes de o governador Sérgio Cabral tomar posse, foram de R$ 1,9 bilhão, com um efetivo de 48 mil; em 2012 essa cifra chegou a R$ 4,1 bilhões. Até o final do ano passado, o efetivo do estado totalizava 54 mil homens e mulheres.

Spying on the metro

De olho no metrô

Nenhum funcionário do governo presente na visita chegou a afirmar que a polícia do Rio esteja na dianteira da modernização da segurança pública no Brasil. Mas os anfitriões destacaram que, quando se trata de megaeventos, as forças policiais aqui têm mais experiência do que as de outras cidades. E o dinheiro está entrando, com R$ 700 milhões investidos pelo Banco do Brasil para financiar um novo sistema de comunicação de rádio para o estado, três helicópteros e 45 mil coletes à prova de balas, dentre outros itens.

Outros investimentos:

  • O próprio CICC,  a um custo de R$ 103 milhões
  • 36 grandes projetos da Polícia Militar, incluindo o Centro de Operações Especiais (COE, que abrigará o BOPE; um novo logotipo, veículos novos e mais eficientes; novas instalações para o quartel general da polícia turística; novos palmtops e equipamentos de patrulha aérea; e um novo hospital central da polícia.
  • A Cidade da Polícia, de R$ 60 milhões, para a Polícia Civil estadual (responsável pelo trabalho de investigação, enquanto a Polícia Militar está nas ruas); modernização da Academia da Polícia Civil, novas divisões de homicídios no Rio e em algumas cidades vizinhas, novas instalações para o serviço forense e modernização da unidade de inteligência.
  • O programa de pacificação da polícia, que afeta diretamente 500 mil moradores de favelas e, considerando também áreas vizinhas a elas, 1,5 milhão de pessoas, de acordo com a Secretaria de Segurança Pública.
  • Novos bônus por desempenho para os policiais, bonificação atrelada às estatísticas de crime de cada parte do estado.
  • Nova estrutura de pagamento por horas extras para policiais que, anteriormente, tiravam folgas para compensar o tempo dedicado a megaeventos.
  • Um sistema de monitoramento de vídeo e identificação de veículos, no valor de R$ 23 milhões.
  • R$ 96 milhões para implementar uma rede privada para a Polícia Militar, dois veículos jatos d´água anti-tumulto, dois sistemas de transmissão de som e imagem, um caminhão-tanque, quarenta cães e uma ambulância veterinária.
  • R$ 76 milhões gastos com um sistema de soluções da Polícia Civil, investimentos em polícia forense, armas menos letais para as divisões de turismo e de sequestros, uma aeronave, postos de auto-atendimento, trabalho investigativo, veículos e treinamento.

Com todo esse investimento, a polícia do Rio precisará da ajuda das Forças Armadas brasileiras?

Reporters ask Humberto Freire de Barros about future protests

Repórteres perguntam a Humberto Freire de Barros sobre o cenário de protestos de rua

Isso vai depender dos desafios que serão enfrentados durante a Copa, de acordo com as autoridades presentes à visita. O Exército já participou de atividades de segurança pública no passado, como, por exemplo, a conferência ambiental da ONU de 1992 . A partir de novembro de 2010, as Forças Armadas participaram da ocupação do Complexo do Alemão.

Em dezembro, o Ministério da Defesa publicou uma portaria, alterando a definição constitucional das forças militares, para permitir que sejam convocadas facilmente se necessário, inclusive em casos de perturbações urbanas.

As autoridades federais e do estado do Rio obviamente estão se preparando para essa eventualidade. Quando perguntados por jornalistas estrangeiros qual seria a maior ameaça à Copa, uma delas disse apenas que terrorismo não está no topo de sua lista. Outro repetiu a palavra cinturão, a tática policial usada com sucesso durante a Copa das Confederações de 2013 para manter os manifestantes longe dos jogos de futebol.

Helicopter image of Maracanã Stadium, on video wall

Imagens de helicóptero do estádio do Maracanã, no video wall

Qual é a probabilidade de os manifestantes reaparecerem em junho? Os contrastes – uma espécie de mensagem ambígua, dupla – são a chave. Pode-se dizer que o estado do Rio já modernizou bastante sua polícia. Mas é difícil dar crédito pleno a isso sem olhar para o lado: e aquele batalhão do Leblon, e os trens da época dos dinossauros — e a baía imunda? E os cidadãos indignados, como um vizinho que, em Cascadura, no final de semana retrasado, ao se deparar com o dono da mercearia estirado no meio de uma poça de sangue, ligou para os atendentes do call center chique do novo CICC?

Meia hora depois, chegou um carro da polícia.  Ao grupo de vizinhos que havia se formado ao redor do que agora era um corpo (antes a mão do homem se mexia), um policial disse que a PM não presta primeiros socorros. Além disso, os policiais ficaram sabendo dos tiros não pelo rádio da patrulha (o aparelho não funcionava), mas por alguém na rua que lhes avisou. Quarenta e seis minutes depois uma ambulância apareceu.

Uma das autoridades que apresentava o CICC, ao ouvir essa história, explicou que o 190 é para emergências policiais (crimes), 192 é para chamar uma ambulância municipal para emergências de saúde menos extremas e o 193 é para os bombeiros, que, além de apagar incêndios, também salvam vidas.

Aqui você pode ver como países diferentes organizam seus números de emergência.

Em 2008, quando o Rio começou a se transformar, os brasileiros usavam muito a expressão “enxugar gelo”. Duvidavam que as novas políticas conseguissem resolver os enormes problemas que a cidade enfrentava.

Muita coisa mudou desde 2008. Atualmente, não se ouve essa expressão com tanta frequência. Mas, as pessoas especulam sim sobre a profundidade do buraco proverbial. Observando uma suposta conquista, comentam que “o buraco é mais em baixo”

De acordo com as pesquisas deste blog, o buraco em questão pode ser no cemitério, no fundo de um poço — ou anatômico. De todo modo, a localização do buraco, abaixo do que se tenha imaginado, sinaliza para a persistência de queixas e protestos.

Entretanto, das doze cidades da Copa do Mundo, o Rio pode acabar sendo a mais bem equipada para lidar com tudo isso.

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Tradução de Rane Souza

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About Rio real

American journalist, writer, editor who's lived in Rio de Janeiro for 20 years.
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2 Responses to O Rio está preparado para a Copa?

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