Dancing with the Devil in the City of God: leitura necessária

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Todo país e toda cultura tem tradições que são únicas e fazem parte da identidade do país, mas algo que faz parte de seu passado não é necessariamente certo; não quer dizer que tenha que apontar seu futuro. — presidente Barack Obama

Existem muitas maneiras de pensar a metrôpole de Rio de Janeiro. Uma é considerar as mudanças sociais, econômicas e políticas que aconteceram através do tempo. Outra é de comparar o Rio de hoje com aquilo que deveria ser, na nossa opinião, ou com outras cidades.

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A primeira maneira é útil para medir as mudanças, compreender seus elementos e suas implicações para o futuro — e, às vezes, “perdoar” os brasileiros quando não cumprem com nossas expectativas.

A segunda maneira é relativamente nova. Até uns quinze anos atrás, ainda havia gente que argumentava a necessidade de levar em conta fatores culturais, dizendo que eram injustas as comparações porque havia nelas o pressuposto de que algumas culturas, e suas éticas, seriam melhores ou piores que outras.

Porém hoje, com maior acesso global à informação e ao viajar, temos mais consenso claro sobre como as sociedades devem funcionar. Na semana passada, o presidente norte americano Barack Obama criticou a cultura queniana. Portanto, fica mais difícil manter as injustiças e desigualdades contraproducentes da sociedade brasileira, tão bem retratadas no novo livro de Juliana Barbassa, Dancing with the Devil in the City of God: Rio de Janeiro on the Brink [Dançando com o diabo na Cidade de Deus: Rio de Janeiro à beira do abismo, inédito aqui]

Juliana, amiga de sua blogueira, é brasileira porém viveu a maior parte da vida no exterior. Voltou ao Rio em 2010 como repórter da Associated Press, vindo de São Francisco. Fez reportagens de partir o coração e torcer os músculos: a invasão do Complexo do Alemão em 2010, a serra após as terríveis enchentes de 2011 (acompanhada de colegas que zoaram sua reação emotiva às mortes desnecessárias), o dia a dia de um adestrador de jacarés na Zona Oeste e a vida das prostitutas de nossa famosa Vila Mimosa.

Juliana ainda extrai sentido de tudo isso e de muito mais, no seu relato em primeira pessoa, absolutamente arrebatador.

“O Rio representava uma sensação de que a janela de oportunidade do Brasil talvez estivesse fechando antes de abrir plenamente,” ela escreve quase ao fim do livro. “Havia décadas, a cidade precisava urgentemente de investimento. Os cariocas guardavam uma grande expectativa de que o rol de eventos internacionais iniciadas com os Jogos Panamericanos trouxesse medidas para diminuir congestionamento, poluição e violência crônicos”, ela continua.

“Aprendiam, porém, a grande custo, que os grandes eventos esportivos têm metas de curto prazo e compromissos apertados que não combinam bem com os objetivos de planejamento urbano, de longo prazo. No Rio, os contratos prendiam os recursos às necessidades de organizações externas, criando um permanente estado de exeção que excluía o debate, a consideração de necessidades mais amplas, ou a reforma de instituições defeituosas. Pelo contrário, essas pressões reforçavam as hierarquias existentes; a pressa para iniciar a partida ou acender a tocha justificava a maior concentração de poder e encurtava a tomada de decisões.
Durante quatro anos, presenciei isso na remoção de favelas sem o devido process legal; nas licenças ambientais deixadas de lado; nas políticas de limpeza social que miravam ambulantes, prostitutas, usuários de drogas e os sem-teto; e no incremento no armamento de um efetivo policial ao qual ainda faltava transparência e responsabilidade à sociedade. A gentrificação piorava uma séria crise de moradia existente, enquanto programas de urbanização de favela como o Morar Carioca eram podados na raiz.”

Sua blogueira concorda com a avaliação que Juliana faz, do Rio nos anos recentes. Ao mesmo tempo, com 34 anos de experiência no Brasil, gosto de pensar sobre o que acontece no tecido social, por baixo dos eventos em si. Deixando a relatividade cultural de lado, quais são algumas de nossas suposições?

Grande parte do que ela descreve surge das noções dos cariocas, de que a cidade do Rio ainda cresce muito (falso) e que a expansão urbana continuará a depender do automóvel (apesar das desvantagens cada vez mais aparentes). As duas suposições estão arraigadas em mais uma: que o Brasil continuará a ser uma sociedade de uma grande massa de pobres e poucos ricos, os primeiros servindo aos segundos. Daqui vem a expansão para o oeste da cidade, com suas amplas avenidas e condomínios fechados — impulsionada pelos Jogos Olímpicos.

Eis o motivo pela existência das hierarquias e pelo reforço a partir das pressões dos megaeventos: para quem manda, elas ainda funcionam muito bem. O prefeito Eduardo Paes já falou publicamente que os filhos dele têm sorte de não ter que estudar em uma escola pública.

A mudança social silenciosa começa quando as hierarquias deixam de servir aos poderosos. Pode-se afirmar que o processo já está em curso aqui, mas estamos perto demais para enxergá-lo com clareza e de ter certeza disso.

Na face de tal incerteza e do passo devagar da transformação social, quando acontece, não se pode subestimar a importância de descrever a realidade. Aqui entram as comparações do Rio ao aquilo que gostaríamos que fosse e com outras metrópoles. É irritante, mas pode nos energizar.

Quem fala inglês (atenção, jornalistas que se preparam para cobrir os Jogos) precisa conhecer as decepções e erros do Rio de Janeiro, não apenas aos olhos da filha pródiga mas especialmente para quem aqui nasceu e cresceu. Um livro como  Dancing with the Devil nos mostra o fato duro que, como disse Obama, “algo que faz parte de seu passado não é necessariamente certo; não quer dizer que tenha que apontar seu futuro”.

Cruzemos os dedos para que o livro seja publicado logo em português. Diante do clima econômico atual no Brasil, aqui vai uma sugestão urgente: uma tradução por crowdfunding, a ser publicada online.

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About Rio real

American journalist, writer, editor who's lived in Rio de Janeiro for 20 years.
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