Nos meses pré Olimpíadas, falta de ouro, prata e bronze

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Cortes estilosos, de graça num evento comunitário de favela: a vida segue

Os Jogos podem chegar como um  alívio bem vindo ao ambiente trágico no Rio de Janeiro e no país como um todo. Talvez inspirem unidade, espírito esportivo e otimismo, raridades hoje. Podem passar batidos, enquanto o país procura, de forma barulhenta, soluções à parálise política, social e econômica. Ou, pelo jeito que as coisas andam, Deus nos livre, podem surgir catástrofes piores ainda das que já vitimaram a Cidade Maravilhosa.

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Após o colapso de parte de uma ciclovia, semana passada, matando pelo menos duas pessoas, os fluminenses optaram por um humor hiper negro, com uma sugestão de mídia social de que o Estado Islâmico poderia simplesmente ignorar o Rio 2016, e”deixar rolar”.

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Ouvindo música de câmara, com ginga, tocada pela Camerata de Laranjeiras no morro dos Prazeres

Há algumas semanas, um funcionário olímpico, ao responder a uma pergunta sobre a falta geral de entusiasmo, disse que as cidades-sede sempre passam por uma mudança de humor, de última hora– já viu isso acontecer, muitas vezes. OK, Londres em 2012 ainda estava sob o choque da recessão de 2008, impensável quando a cidade foi escolhida em 2005. Mas Londres tinha zika, chicungunha e H1N1? Tinha construtores olímpicos na cadeia? A Inglaterra tinha dúvida sobre quem seria presidente, para presidir a cerimônia de abertura? O país estava profundamente dividido, suas instituições desafiadas? Havia incerteza sobre a conclusão de uma linha de Metrô, de financiamento atribulado, transporte principal ao Parque Olímpico? Londres era avassalado por preços baixos de petróleo, incapaz de pagar professores, policiais, aposentados, médicos? Caia por baixo seu programa de segurança públicaCrescia o crime? Vamos parar com a ladainha aqui, arriscando omitir alguma coisa terrível. Talvez Londres não tenha sido assim. Talvez Atenas era assim.

Ah, e há o novo plano de racionalização dos ônibus, que deixou milhares num limbo dos transportes (e um número desconhecido de motoristas e trocadores desempregados). Nem os nativos conseguem saber como ir do A ao B. Como fica o turista? Aliás, a mobilidade é um legado olímpico.

Olhando para o futuro, a única previsão olímpica da qual podemos quase ter certeza é que devemos ter menos mosquitos; estaremos em pleno inverno e eles preferem um clima mais quente. A não ser que as mudanças climáticas resolvam dar a cara feia…

Para além de insetos, é útil pensar no momento como um encontro desajeitado entre a inclusão social e a internet, com estruturas sociais e políticas tradicionais, em meio da pior recessão brasileira desde 1929. Alguns observadores  pensam que as estruturas tradicionais irão triunfar sobre um povo em transformação. Outros apontam emergentes movimentos sociais e políticas, e a pressão que trazem ao jogo. É como estivéssemos assando um bolo com os ingredientes de sempre, só que a manteiga vem de leite de cabra, os ovos são de ganso e a farinha é bichada. Quanto tempo de forno, a que temperatura? Que diabo de sabor terá? Vai ser um bolo que pede velas e parabéns?

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Abertura à novos ritmos

Sim, os deputados revelaram sua humanidade ridícula — e perigosa — ao votar sobre o impeachment. Isso, porém, inspirou milhares, se não milhões, a questionar, enfim, a tradicional propensão brasileira de favorecer famílias e amigos, acima do bem comum. Tal preferência é central ao jogo que mantém, há séculos, as estruturas tradicionais, reservando para as elites o que há de melhor. O processo de reformulá-las para criar uma estrutura mais democrática não será tão incisivo e repentino quanto a maré de lua cheia que abateu um pedaço da ciclovia ao lado da avenida Niemeyer. Ao contrário, será uma vivência tão caótica quanto esses últimos meses que precedem os Jogos Olímpicos– independentemente do jeito que seja a experiência de sediá-los no Rio de Janeiro.

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About Rio real

American journalist, writer, editor who's lived in Rio de Janeiro for 20 years.
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