Tem jeito de entender o Rio de Janeiro?

Ou qualquer lugar no mundo?

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Supostas propinas em contratos de empreiteiras: parte de um pacote de megaeventos que destruiu as casas de milhares de pobres no Rio. Aqui era a Vila Autódromo, do lado do Parque Olímpico

Vem, meteoro!”

Cariocas usuários de Facebook passaram um dia desta semana invocando um meteoro: não está claro se queriam que caisse na Cidade Maravilhosa ou na sua sucessora como capital, Brasília. Claro que há objetos espaciais de tamanho suficiente para acertar as duas cidades, o Brasil inteiro ou até de dar fim no planeta inteiro.

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Talvez seja mais fácil contemplar o fim dos dias do que absorver tudo que acontece a nivel governamental e nas ruas, interconectado entre cidades, estados e o país como um todo. Junto com nada menos do que as notícias da Síria, os EUA, Inglaterra, Itália, França e as Filipinas…

Se 1968 foi o ano do “Poder ao Povo”, 2016 pode ser visto, mais adiante, como o ano da “Digestão Difícil”. Levou uns vinte anos para que os jovens de quase todo lugar desafiassem as instituições sociais que a Segunda Guerra Mundial já chacoalhara. E levou uns vinte anos para que gente de todos as idades se levantasse contra as provações da vida num mundo globalizado de comunicação e conexão baseados na tecnologia.

Enquanto 1968 tenha trazido progresso, em retrospectiva, o ano de 2016, para muitos, parece ter revertido consagrados valores e prioridades.

Espera-se não um meteoro, mas alguma espécie de cisne negro que nos coloque de volta nos eixos. Ou que 2016 tenha sido um cisne negro; a história humana, enfim, é uma história de trocas crescentes. É preciso a digestão, a despeito das gases que o duro conteúdo da Internet suscite em nós.

No Brasil, o ano de 2013 deve também fazer parte do que poderíamos chamar de Galeria Gregoriana da Fama, junto com 1968 e 2016. Talvez o significado daquele ano esteja ficando claro apenas agora, no meio de recessão, tumulto político e investigações de corrupção. Foi quando os brasileiros, perto do fim de uma fase sem precedentes de inclusão socioeconômica, começaram a demandar que o governo considerasse o bem maior.

Acontece que, como agora revelam tantas investigações e delações premiadas, centenas de “autoridades” vêm pensando, há muito tempo, nos bens próprios.

O ex governador de hábitos espalhafatosos, entre eles, está hoje na cadeia; o prefeito Eduardo Paes e outros governantes daqui são acusados de crimes, e podem seguir o mesmo caminho.

Por outro lado, o estado está financeiramente quebrado e pode, junto com Minas Gerais e Rio Grande do Sul, ser o primeiro a entrar em um novo programa de recuperação judicial para estados da federação. Seriam suspendidos os pagamentos da dívida com a União por 36 meses, com a chance de renovação por mais três anos. A economia para os cofres do estado do Rio seria de R$ 14.1 bilhões, de acordo com O Globo, que cita dados da secretaria estadual de Fazenda. Para particpar, o Rio teria que aumentar as contribuições de aposentadoria de seus servidores.

O déficit deste ano estaria em R$17.5 bilhões. De acordo com o jornal Valoro déficit de 2018 do Rio chegaria a R$ 52 bilhões, se nada fosse feito.

Estranhamente, o Rio também teria que entregar a Cedae, a concessão estadual de água e esgoto, para que fosse privatizada pelo governo federal.

Enquanto a Cedae teria modernizado sua gestão e suas finanças na última década, falta tratar a maior parte do esgoto do Rio, é enorme a perda de água e as tubulações precisam urgentemente de manutenção. O estado vem trabalhando, junto com o BNDES e a nova Câmara de Integração Metropolitana, para redesenhar pedaços do negócio de esgoto da Cedae, num formato de parcerias públicas-privadas. A maior parte das favelas do Rio metropolitano não faz parte de qualquer coleta formal de esgoto, muito menos tratamento, contribuindo pesadamente à poluição da baía de Guanabara, além de rios e lagoas.

Quem for assumir a empresa, em parte ou integralmente, teria que lidar com o aspecto social do fornecimento de serviços, como a Light  tenta fazer — com êxito parcial.

A legislatura estadual do Rio, a Alerj, passou a última semana sitiada por manifestantes, protegida por policiais, enquanto debatiam a votavam partes de um pacote de propostas para restaurar a saúde financeira. De 22 medidas, aprovaram-se apenas seis — mantendo o risco às finanças do estado. Um estudo do Banco Itaú Bank prevê que o Rio continue a experimentar,  por bastante tempo, dificuldades de pagamento a fornecedores, servidores e pensionistas.

Terça-feira, a Alerj passou um aumento no ICMS para cigarros, cerveja, gasolina, luz e serviços de telecomunicação. Os legisladores conseguiram votar sem utilizar o sistema eletrônico, deixando no escuro o eleitor que queira saber quem votou a favor e quem contra. Sexta-feira, um juiz suspendeu a votação; a Alerj pretende recorrer. Assim, o Rio espelha as brigas em Brasília, entre os três poderes.

Até quando os policiais estarão dispostos a proteger os deputados estaduais? Aparentemente com essa dúvida em mente, o presidente da Alerj, Jorge Picciani (também alvo de investigações de corrupção), devolveu ao governador Pezão, na sexta-feira, a controvertida proposta de adiar por três anos aumentos de salário para funcionários de segurança (policiais e guardas de penitenciária). Outra, que iria aumentar em três pontos percentuais as contribuições previdenciárias dos servidores do estado, será votada apenas em fevereiro de 2017. O estado deve quatro ou cinco meses de pagamentos de hora extra para policiais; esses eram obrigados a trabalhar em regime de hora extra durante os Jogos Olímpicos.

A Polícia Civil do Rio planeja uma manifestação e uma greve parcial para terça-feira.

Certamente devia ser prioridade pagar corretamente a policiais e guardas penitenciários, com 23 milhões de desempregados e subempregados a nível nacional (21% da força de trabalho), gastos cortados e serviços sociais cada vez mais deficientes. Isso, sem mencionar o crescimento gratificante no número de presos de colarinho branco. Caso contrário — bem, fique ligado.

Quarta-feira, a Alerj aprovou uma proposta que extingue um incentivo fiscal para a indústria de petróleo criado em 2007. Esse foi o primeiro ano do longo período em que o ex governador Sérgio Cabral esteve no cargo. Seu governo agora foi acusado de criar incentivos fiscais em troca de propinas e favores tais como a lavagem de dinheiro por meio de vendas de joias sem nota fiscal. Está em curso um debate sobre o cômputo geral de incentivos fiscais supostamente criados para atrair atividades empresariais ao estado. Somente agora, de cofre vazio, essa política chega a ser escrutinizada.

Sua blogueira não tem escrito muito aqui ultimamente, ao passo que entra na reta final (espera-se) de escrever um livro sobre como o Rio realmente funciona. Portanto, esse post representa uma oportunidade de parar e apenas falar o seguinte: no caso das alegações de corrupção serem comprovadas e terminarem na cadeia nossos governantes de alto escalão, não seria bacana se a metrôpole pudesse voltar no tempo? Repensar megaeventos, ávidos empreendedores imobiliários, moradia acessível e, last but not least, a segurança pública? Ah, se os juizes pudessem sentenciar os culpados a desfazer políticas públicas desenhadas para o ganho pessoal em vez do bem maior.

É possivel afirmar, como fez recentemente, numa entrevista para o livro, o antigo secretário de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, que a pacificação colocou o Rio de Janeiro no caminho certo para mitigar a violência. Isso, tragicamente, é muito menos do que ele se propós a fazer, inicialmente.

Em alguns casos, esse caminho não está tão legal: pela primeira vez uma facção de São Paulo administra pelo menos parte de uma favela carioca (Rocinha), acusada de estar trazendo um grande número de armas para o Rio. As taxas de crime estão subindo nessa favela e nos bairros próximos. Na era antes da pacificação, quando mandava apenas um chefe, ele mantinha um cordão livre do crime em volta ao morro. Em um artigo de opinião no jornal O Globo, Misha Glenny, autor de O Dono do Morro — Um Homem e a Batalha pelo Rio (sobre o ex traficante da Rocinha, Nem) apontou a necessidade por uma nova política de segurança pública, juntando os setores público e privada.

O ano de 2016 como o ano da Digestão Difícil certamente faz parte da equação política no Brasil, como acontece em outros lugares. Aqui, as entranhas estremecem por causa das expectativas levantadas na era Lula-Dilma. Elas jamais irão sumir.

O prefeito recém-eleito, Marcelo Crivella, parece estar lutando justamente com essa equação. Promete cortar gastos mas também fala em municipalizar a Metro Rio, concessão estadual. Enquanto o prefeito recém-eleito de São Paulo, João Doria, já nomeou seu secretariado inteiro, Crivella conta com apenas dois secretários, a quinze dias de sua posse. Um deles é seu vice, Fernando MacDowell, 71 anos, ex-executivo da Metro Rio, que fará jornada dupla como secretário de transportes.

Crivella ficou de anunciar mais nomes, hoje.

O que trará 2017, para o Rio e para o resto do país? Elemento chave da resposta será a capacidade que o Brasil tem de produzir políticos e políticas públicas equilibrados, para substituir os que não prestam mais. Um novo grupo nacional, apartidário, Agora, trabalha justamente nesse sentido. Numa conversa nesta semana com jornalistas, o fundador-diretor do ITS, Ronaldo Lemos, e a fundadora-diretora do Instituto Igarapé, Ilona Szabo, disseram que o Agora está focando no simples, humano e sustentável.

Animados, alguns jornalistas disseram que a falta de política viavel no Brasil se deve, acima de tudo, ao blecaute da democracia entre 1964 e 1985, durante a ditadura militar — e que está mais do que na hora para os jovens arregaçarem as mangas. Um jornalista sugeriu que o Agora mapeia novas iniciativas políticas em todo o país, para ressaltar boas notícias nesse momento conturbado.

O vacuo político que resulta da LavaJato é um dos assuntos mais quentes de conversa no Rio, atualmente.

Sua blogueira espera que Agora realmente signifique agora; o risco que corremos é que, após alguns anos de tumulto, o ano de 2018 no Brasil poderia tornar perigosamente atraente algum candidato conservador que pregue lei e ordem. Agora então, vamos fazer o possível para chegar até aquele ano sem maior estragos ao planeta.

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About Rio real

American journalist, writer, editor who's lived in Rio de Janeiro for 20 years.
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