Silêncio ativo

O Rio acabou… Só que não

Rocinha, vista numa tarde de inverno, do morro Dois Irmãos

A falta de barulho, depois de anos de grandes movimentos, é difícil de interpretar. Mas o silêncio no Rio, tanto por parte de sua blogueira como o de muitas outras pessoas, não é um espaço oco. Estamos refletindo: como chegamos aqui? Quais as perguntas importantes? O que dá certo? O que não funciona?

Soldados do exército patrulham o Boulevard Olímpico, no Porto Maravilha, às moscas numa segunda-feira de manhã

 

Raull Santiago é ativista incansável no Complexo do Alemão, casado e pai de 4. Foi um dos líderes na resistência à invasão policial de casas no Complexo, que durou de janeiro até abril. Na superfície dos fatos, era uma situação de traços claros. A polícia não tinha direito jurídico de tomar posse das casas.

Percebemos, dia após dia, que nenhuma situação é branco/preto. A polícia afirmava que a invasão era necessária para proteger seus soldados e lutar contra os traficantes de drogas, que dispunham de armamento pesado. Ocupar território.

Apesar da patente inconstitucionalidade da invasão, demorou meses para que a polícia saísse das casas e o comandante fosse denunciado, pelo Ministério Público, à Auditoria da Justiça Militar do estado. Falta saber, ainda, qual será a decisão dela.

Assistimos, desde a eclosão do escândalo Mensalão em 2005, a revelações não apenas de corrupção e de política pouco republicana. Como nunca antes, a luz do dia proveniente das investigações e das delações também delinea a desigualdade social. O grande desafio –talvez a missão impossível– é descobrir por onde começar, qual fio puxar desse emaranhado. Pois a invasão das casas no Alemão se construiu em cima da guerra ao tráfico. Que se construiu em cima de políticos e polícia problemáticos e de um desleixo secular com a moradia popular. Que se construiu em cima da escravidão. Falta de saúde e de educação estão aí em algum lugar, também.

Não foi coincidência que a Festa Literária de Paraty, neste ano, focou no racismo e na vida e escritos do autor negro, Lima Barreto, que viveu no Rio de Janeiro entre 1881 e 1922.

A dificuldade com o novelo bagunçado alimenta a polarização. Procuramos e apresentamos soluções fáceis. Desconfiamos de tudo e de todos. “Ou você está do lado da polícia ou do lado dos bandidos”, é o mote que cada vez mais substitui ao batido “bandido bom é bandido morto”. Nessa dicotomia, o morador das classes mais baixas ocupa a área cinzenta de danos colaterais.

Foi assim no dia 31 de julho, quando o Ministério Público do estado do Rio de Janeiro realizou uma audiência pública sobre a segurança pública. Do lado positivo, era um evento inédito, uma chance nova para o diálogo. Participaram da audiência, porém, duas torcidas distintas, a da ordem geral e a de direitos humanos. Seguranças tiveram que apartar um promotor de um homem que fazia parte de um grupo defendendo os direitos de moradores de favela. Outro promotor, junto com alguns policiais, defendeu a militarização das escolas como saída para a segurança pública.

Com a Lava Jato, a justiça começa a atingir quem antigamente se protegia nas suas lacunas menos iluminadas. Persistem, porém, as demoras, as viradas repentinas e moralmente inexplicáveis. Isso é cansativo, para dizer o mínimo.

As notícias sobre o comandante da PM e as casas no Alemão deixaram Raull Santiago feliz. Mas o ambiente hoje é tão carregado que, outro dia, a falta de um telefone celular que funcionasse o levou a um desabafo no Facebook, de título “Crise”, no qual falou em:

“[…] ser cria da favela e se movimentar na busca pela garantia de direito a vida e outros direitos, passando a ser classificado como parte de alguns desses rótulos, do tipo ‘movimento social da periferia’, de como essa parada eleva os problemas a décima potência ou muito mais. São milhares de micro paradas. Todas extremas. Todas graves. Só lembro de Racionais cantando: “cada favelado é um universo em crise”. E somos mesmo. E nem sei se um dia deixaremos de ser. Só sei que seguiremos tentando virar o jogo da vida real. Da ponte pra cá, não é qualquer pessoa que aguenta. E muita gente pula dessa ponte”.

Uma pessoa que trabalha há muitos anos com jovens no Rio foi além desse desabafo. Confidenciou ao RioRealblog que está duvidando da eficácia de qualquer tentativa de amenizar questões sociais. São justamente políticas públicas na área social a reivindicação central dos que não aceitam a violência dos “danos colaterais” nas relações sociedade-polícia.

Cecília Olliveira, que tomou para si a missão de acompanhar e quantificar os tiros na metrópole toda, pelo seu aplicativo Fogo Cruzado, confessou-se desanimada, numa troca pública de mensagens no Twitter com o RioRealblog: “Estamos cansados. Muito, muito cansados. Seguimos tentando… mas não consigo enxergar um horizonte claro”, escreveu.

Pelo outro lado da equação, as pessoas talvez não pulem da ponte, como Raull mencionou. Mas jogam a toalha. Na fila de autógrafos para o livro Mais Forte: Olimpíadas seguras em meio ao caos, ontem, um oficial reformado da Polícia Militar, de 50 anos, disse que só não vai embora para Portugal por causa da mãe idosa. Pensa num amigo, também oficial reformado, que já se mudou. Seu interlocutor na fila, um carioca que iniciou a conversa perguntando se o problema do Rio de Janeiro não seriam os cariocas, mora sozinho no Rio. A família preferiu ficar em outra cidade.

Enquanto isso, tropas federais chegaram no Rio e fizeram, sábado passado, uma operação inédita, de bloquear, por um dia, acessos a algumas favelas na Zona Norte, com o intuito de diminuir o roubo de cargas e o tráfico de drogas. Tiveram pouco êxito, mas houve apenas duas mortes. Diferente da pacificação, desacreditada há mais de um ano, as autoridades de segurança não pretendem ocupar favelas ou até ficar muito tempo num lugar só. “Não queremos só inibir o crime organizado. Queremos desfazer, destruir, golpear a sua capacidade operacional”, disse o Ministro de Defesa, Raul Jungmann.

Seria bom se desse certo. Mas poucos cariocas manifestam confiança nos militares ou apoio à nova estratégia. Estão exauridos, indignados. Se questionam.

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About Rio real

American journalist, writer, editor who's lived in Rio de Janeiro for 20 years.
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