A vida como ela é, Rola Um, Zona Oeste

Viagem de duas horas, da Zona Sul, por metrô e BRT

Thais Santos e a tia dela, Edmar, que adora viajar com as mulheres de sua igreja

Não é favela, o Rola Um, local espraiado de casas suburbanas. Thais Santos, que lá foi criada, chama o Rola Um de “comunidade”. O Instituto Pereira Passos, que analisa dados da cidade, chama de “loteamento”. Os proprietários compraram seus lotes pelo mercado imobiliário formal.

Qualquer que seja o rôtulo, Rola Um já mudou bastante, de acordo com moradores de longa data.

“Era tudo mato”, lembra Eugênia Luisa de Boa Morte, 94 anos, sobre os tempos quando ali chegou. Quando menciona estar no Rola Um há dez ou vinte anos, a neta lhe corrige: “Acho que faz 40, vó. Eu tenho 25 anos e a senhora já morava aqui quando nasci”.

“Agora tem de tudo”, continua Eugênia, que tataraneto já ganhou. “Até bandido, à vontade”.  Diz que os filhos — e ela é mãe de nove, vivos, dos doze que nasceram — “Morrem de medo de vir aqui”.

Terminal Alvorada, Barra da Tijuca: ponto de encontro dos BRTs Transoeste e Transcarioca, a caminho de Santa Cruz

Thais, que hoje mora em Campo Grande, estuda educação física e faz teatro. Num sábado de agosto, levou a sua blogueira para conhecer o Rola Um. Para conhecer a família, na verdade — que é grande.

As duas avós moram em terrenos grandes o suficiente para construir uma segunda casa, abrigando parentes que ajudam a amenizar as dificuldades de envelhecer.

Os entrevistados disseram conviver pacificamente com os tais bandidos. Na cabeça e no coração, porém, dividem a comunidade entre bons e maus– e, no dia a dia, não deixam as crianças brincar na rua. “Todo mundo entra dentro de casa, cada um se recolhe e fica na sua casa”, quando há tiroteio entre traficantes e policiais, conta a outra avó de Thais, Ana Ana Ferreira dos Reis, 78 anos, que veio de Itaguaí. “Quero nem saber”.

Há apenas dois meses, a comunidade viveu um dia de terror, que resultou na morte de um suposto chefe do tráfico. De acordo com os moradores ouvidos, a polícia entra e os tiros voam apenas quando os criminosos deixam de cumprir acordos financeiros.

“Gente vai embora, há casas abandonadas”, conta a tia de Thais, Edmar Margarida Ferreira dos Reis. De acordo com ela e outros familiares, o Comando Vermelho começou há muito tempo a ocupar pedaços do Rola Um e do Rola Dois, mas a violência cresceu a partir de 2014. Existe uma praça, foco do tráfico no Rola Um. Quando membros da igreja de Edmar chegaram na comunidade para um trabalho missionário, diz ela, correram para casa após dez minutos  — perturbadas pelo cenário de meninas com traficantes.

A corajosa dona de uma padaria, parente de moradores que voltaram para Minas Gerais, conta a história de um traficante que apareceu tempos atrás, querendo um café. “Não sirvo café aqui”, ela respondeu. “O café que tenho é apenas para mim e meu marido”. O freguês indesejável desistiu.

No dia da visita de sua blogueira, os únicos sinais de criminosos eram iniciais CV em alguns muros e restos de barricadas nas ruas. Thais, que inicialmente tinha medo de adentrar uma área onde o tráfico é forte, tomou coragem e expandiu o território do passeio: as casas eram diferentes das de seus familiares. Menores, sem quintal, em ruas esburacadas, música tocando pelo som de um carro estacionado. Uma praça, ocupada, naquele momento, por brinquedos de parque de diversões. Uma boate, local do baile funk, disse Thais. E logo chegamos na avenida, onde sua blogueira embarcou no BRT, de volta aos quarteirões conhecidos da Zona Sul.

Duas horas de viagem, por asfalto ondulado e rachado, foram o suficiente para reparar nos moradores de rua dormindo ao lado de estações de BRT– e para ponderar quanto o Rio de Janeiro mudou desde a primeira chegada dessa gringa no Rio de Janeiro, em 1978 — bem quando as avós de Thais construiam suas casas no Rola Um.

Grafite no Terminal Alvorada

Thais com a avó de 94 anos, que migrou de Minas Gerais

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About Rio real

American journalist, writer, editor who's lived in Rio de Janeiro for 20 years.
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