Numa favela pacificada, como uma UPP Social começa a trabalhar?

How does the social UPP program begin its work in a pacified favela? [click for English]

Ocupação há cinco meses

Morro do Borel, 28 de outubro de 2010. Cinco meses após a chegada da UPP nesta área de sete favelas. Na quadra do CIEP, ouvem-se os pardais que voam por cima das cabeças dos participantes na reunião. Antigamente, balas voavam ali.

A ocupação e pacificação de algumas das principais favelas do Rio de Janeiro, seguidas pelo fim da omissão do poder público e da sociedade civil, representam o começo de uma profunda mudança social. E as profundas mudanças sociais acontecem somente quando lideradas por pessoas excepcionais, com equipes excepcionais. Não são ofício de burocrata, nem de populista.

Silvia Ramos carrega o pesado título de Subsecretária de Ações Integradas no Território, mas ela é “toda leveza”. Hoje é mestre de cerimônias, abrindo a reunião ao apresentar praticamente cada um dos 136 participantes, número recorde até agora para uma primeira reunião comunitária de UPP Social. Conhece quase todo mundo. Quando não conhece, pergunta. Num dado momento ela para em frente a um garoto sentado ao lado da mãe. “Quem é você?”


A ideia é que Luís não seja mais "ninguém"


“Ninguém.” Silvia coloca o microfone na frente do garoto e faz com que ele diga que o nome dele é Luís.

Estão presentes uma equipe do Banco Mundial, gente da Light, Cedae, da Polícia Militar, da Federação Estadual de Indústria (FIRJAN), da Comlurb, de secretarias estaduais e municipais de saúde e educação, o subprefeito da Tijuca, representantes de secretarias de cultura e de turismo, gente de ONGs e igrejas, os presidentes de cinco associações de moradores, e alguém de uma escola de inglês. Estão todos aqui, depois de décadas de descuido das sete comunidades que fazem parte do Morro do Borel, onde moram em torno de 35 mil pessoas. Nos anos 1920, a favela surgiu nos arredores de uma fábrica de cigarros, propriedade de dois irmãos franceses, de sobrenome Borel. Décadas mais tarde outro nome francês estava no local, o hipermercado Carrefour. Mas há cerca de quatro anos foi fechado, devido ao perigo constante dos tiroteios. A Tijuca está repleta de elefantes brancos desse tipo.


Henriques tanto ouve (e observa) quanto fala


Seria um exagero dizer que Ricardo Henriques, Secretário Estadual de Assistência Social e Direitos Humanos, é o Martin Luther King da UPP Social. Mas, vendo-o em ação, chega-se à conclusão de que esse followup à pacificação, imprescindível ao êxito da política estadual de segurança pública (imprescindível por sua vez ao êxito da Copa e das Olimpíadas), depende em alto grau de sua pessoa. É tanto sonhador como fazedor. Ele lembra que há apenas três anos era impossível cogitar uma reunião como essa. “O que estamos fazendo aqui é abrir um campo de escuta forte,” ele diz. O termo é novo; no Brasil a escuta costuma se fazer de baixo para cima. Faz uma mea culpa da ausência do poder público. Ressalta as novas parcerias entre os diferentes níveis de governo com a comunidade, as ONGs e o setor privado. Explica que o que se faz agora é integrar a cidade, seu asfalto com seus morros. Termina por dizer que o Rio de Janeiro está liderando um processo que mostra o caminho para todo o país.

O próximo a falar, rapidamente, é o Secretário de Conservação. Fala do que já está fazendo na favela: melhorias na coleta de lixo, o problema número um. As ruas são estreitas e os caminhões têm dificuldade para passar, sobretudo quando os moradores estacionam seus carros em lugares indevidos. Agora há uma segunda caçamba no morro, e, em caráter experimental, uma terceira está aqui em baixo ao lado do CIEP. Haverá coleta seletiva. O Borel produz nove toneladas de lixo por dia.

Logo chega o momento da verdade. Pode haver briga, a reunião pode se tornar uma lenga-lenga de reclamações e recriminações. Reuniões brasileiras costumam transbordar, prestigiar a emoção mais do que a razão.

Dez ou 15 pessoas se levantam para ficar na frente de todos. Apresenta-se A Rede; reuniram-se as ONGs e as associações de moradores para constituí-la. A líder, Mônica Francisco, expressa sua preocupação principal de maneira direta e sucinta, com um toque de ira. Mora ali há quarenta anos. O pessoal dela já é veterano. Não querem que o poder público, agora que resolveu agir, imponha programas sem diálogo. “Não queremos ações verticais,” ela diz. “Queremos diálogo de igual para igual.” Os presidentes das associações de moradores falam também, um pouco cada um. A presidente de Usina comenta que “nunca chegou nada à Usina. A única coisa que chegou foi a UPP.”

Aparecem umas três folhas na mão de um deles; vieram preparados. Uma moça lê  em voz alta a lista dos desejos da comunidade. É apenas um começo, ressalta: estágios, empregos, reformas, expansão de creches, empreendedorismo, feiras de cultura e esportes, saneamento, luz regularizada, coleta de lixo, educação ambiental, resolução de questões de acesso veicular, assistência jurídica, saúde da mulher. O papel é entregue à mão de Henriques.


A lista


Agora fala um executivo da Cedae, confessando vergonha do mau atendimento da empresa de água e esgoto. Descobriu-se que a falta de manutenção devido ao perigo (“Dez anos atrás, quando a polícia chegava, eu mandava minha equipe sair já. Agora a gente chega junto.”) levou a vazamentos e um enorme desperdício de água.  A Light já constatou o mesmo fenômeno: quem não paga conta de luz, por utilizar “gato”, liga o ar-condicionado e deixa as portas e janelas escancaradas. Durante décadas, o Rio de Janeiro pagou o preço da falta de segurança pública, em renda perdida de turismo e negócios, em muros, seguros, alarmes, carros blindados, guardas, câmeras de segurança, saúde mental e física, educação deficiente, corrupção, mortes e feridas. Agora a cidade descobre que o descaso custa caro por meios que não imaginava.

Padre Olinto, veterano das lutas do morro, presente ali desde os anos 1970, elogia a polícia. Nunca fez isso.

O microfone volta ao Henriques. “Agora é a hora de cada um fazer o que tem que fazer,” ele afirma. “Não é a história desta cidade, o que já é uma revolução.” A próxima reunião será em fevereiro. Até lá, grupos de trabalho se reunirão. Henriques repara que A Rede e as associações de moradores estão ali juntos, o que é incomum. “Isso dá trabalho,” ele comenta. “Imagino o ruído atrás desse processo.” Mônica sorri pela primeira vez.

Silvia, que passou a reunião toda mastigando chiclete e fazendo sim com a cabeça, volta à cena. Caminha até o pequeno Luís. “Gostou?”

“Gostei.”

“Então a reunião está encerrada.”


"A vida na favela acontece, mediando conflito e conciliando questões."-- presidente de associação de moradores

Até fevereiro de 2011 a UPP Social estará presente em dez favelas onde já existe UPP. O Borel é a terceira.



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About Rio real

American journalist, writer, editor who's lived in Rio de Janeiro for 20 years.
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