Uma volta por cima: o “Brain Gain”

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O termo em inglês, Brain Drain, é o que acontecia desde os anos 80: gente altamente qualificada indo embora do Brasil por encontrar um ambiente mais acolhedor em outros países. Agora, acontece o contrário, o Brain Gain.  Os cérebros, em vez de “vazar”, retornam, trazendo benefícios ao Brasil, e em especial ao Rio de Janeiro.

Alguns trazem um tanto de revolução na mala. Outros fogem da crise econômica no exterior. Muitos querem contribuir ao Rio com o investimento em aprendizagem que fizeram.

“Nossa jornada começou há quase três anos, quando [nós] começamos a imaginar um Rio de Janeiro diferente, aonde a voz de todos os cidadãos fosse respeitada e ouvida durante os processos de decisão que definem os rumos da cidade,” diz Alessandra Orofino, co-fundadora de Meu Rio, um novo canal digital que visa aumentar a participação dos cidadãos, em volta das questões que carecem de debate público.

Criada no Rio de Janeiro, Orofino e seu colega de classe Miguel Lago fizeram o ensino superior fora do Brasil. Decidiram voltar e agir “[…] porque achamos que esse momento da cidade é muito único, e que as mudanças que normalmente aconteceriam em muito mais tempo estão se concentrando num curto espaço, com todas as implicaçōes positivas que essa capacidade de investimento e renovação traz, mas também com todos os desafios, principalmente em relação à participação efetiva da população neste momento,” ela explica. “Assim, achamos que era agora ou nunca!” O duo, que não para nunca, conseguiu que o ex presidente do Banco Central, Armínio Fraga, aportasse os recursos iniciais do projeto.

Pela transparência e a responsabilidade

Alexandre Fernandes e Ana Ester Rossetto deixaram Santa Catarina para fazer pós-graduação no exterior– nos campos novos de inovação ecológica e econômica. Voltaram neste ano para criar a KCA Consulting, para atender empresas cariocas com interesse na reforma de processos industriais para atingir a reciclagem cem por cento, o conceito Cradle to Cradle (Berço a Berço) desenvolvido por Michael Braungart e William McDonough. “Eu encontrei as peças de minha quebra-cabeça, achei o que eu queria fazer pelo resto de minha vida,” exulta Rossetto. Clientes potenciais seriam a Petrobras, as Casas Bahia, a Brastemp e o Carrefour, que poderiam implementar uma lógistica reversa para que os dejeitos industriais e de produtos de consumo não acabem no novo aterro sanitário, em Seropédica.

Alexandre Fernandes e Ana Ester Rossetto, de volta ao sol carioca

Dedicação a uma missão pessoal pode ser fonte da energia incondicional que é necessária para superar aos muitos obstáculos no caminho à plena readaptação.

Às vezes, a volta da volta

Alguns dos que voltam tiram as malas do armário novamente. Criam dúvidas “a tolerância carioca com o emporcalhamento do espaço público, o caos urbano, o barulho e as interrupções no serviço de energia, que nunca experimentei em quatro anos morando nos EUA e aqui  ainda ocorre com frequência,” admite Robson Coccaro, músico.

Carolina Griggs chegou ao Rio de Janeiro depois de terminar uma pós graduação na Columbia University em administração pública, ciência e política ambiental, mas logo se decepcionou. “Aqui no Rio quem quer trabalhar em governo tem que prestar concurso, mas aí tem muitos assessores que não têm que ter qualificação para ocupar o cargo. O modelo não é transparente,” ela aponta. “[Em Nova York] eles colocam os empregos nos sites com as qualificações desejadas (mestrado em tal, pelo menos quatro anos de experiência em tal coisa). Se você manda as suas qualificações e elas encaixam, eles te entrevistam duas vezes e você é empregada.”

Está na hora, ela acrescenta, de tirar os políticos da administração pública; senão, “o resultado final é a falta de planejamento integrado e serviços públicos de pouca qualidade”.

Se por um lado o clientelismo e a burocracia frustram, existe também um bem-vindo progressivismo. Robson Coccaro e seu companheiro norteamericano Sean Gibbons voltaram em parte por causa da crise econômica nos EUA e em parte por causa do atraente mercado brasileiro para a empresa deles de design e produção de eventos, TocaEvents. Mas vieram acima de tudo porque de outro jeito não seria possível que ficassem juntos. O Brasil concede o visto permanente ao estrangeiro em uma relação estável de caráter homossexual– enquanto isto ainda seja raridade nos EUA.

Mas daí se enfrentam os preços exorbitantes. Coccaro dá aulas de inglês e de música, enquanto a empresa cresce no Brasil, e ainda não sentiu o luxo de compor ou se apresentar.

“Eu tinha comprado um quarto-e-sala por R$70 mil em 2007,” ele diz. “Hoje, no mesmo prédio, os valores estão entre R$ 180 e 200 mil.”

Em contrapartida, ele acrescenta, os telefones e a internet funcionam bem melhor agora, e a vida cultural no Rio tem muito mais opções.

O desafio do velho e o novo , juntos

Aos olhos de muitos dos que voltam, o Rio de Janeiro não é a cidade que deixaram para trás. “As melhorias na área de segurança pública fazem uma grande diferença na vida econômica, social e política do Rio e provam que sempre é possível melhorar a administração pública, basta querer,” diz Carolina Griggs, que logo começa um novo emprego– em Nova York.

“Quando eu saí do Brasil, há anos,” diz a escritora Cássia Martins, “as favelas eram muito diferentes. Hoje, elas estão acessíveis aos cariocas, e com a introdução das UPPs, muita gente está visitando e indo a eventos nas favelas.”

Martins voltou com muito prazer  à sua cidade natal por uma temporada para escrever um romance semi autobiográfico, Born in Rio (Nascida no Rio).

Samba de breque?

A volta de Joaquim Monteiro foi de uma curta distância, mas a decisão não foi de pouca magnitude. “Mor[ava] em São Paulo e não tinha muita pretensão de voltar nos proximos anos. Trabalhei por três anos no Grupo ABC, que é a maior Holding de Comunicação da America Latina,” ele lembra.

“Um belo dia recebi a ligação do Carlos Roberto Osório falando que estava indo trabalhar na Prefeitura com o objetivo de cuidar e preparar a cidade para a chegada dos grandes. Me convidou então para montar a Secretaria de Conservação e Serviços Públicos […] Foi um escolha difícil, já que iria largar o certo pelo incerto, ganhar menos e ainda atuar numa área que era novidade para mim […] Entre  trabalhar por uma mega empresa ou virar o jogo de uma cidade, achei que a segunda opção seria mais desafiadora, além de ser um prazer enorme trabalhar ao lado de pessoas tão competentes que dividem o mesmo sonho de fazer do Rio a melhor cidade para se morar do mundo.”

Monteiro, membro de uma tradicional família carioca, não apenas aceitou o convite para ser subsecretário municipal de Conservação e Serviços Públicos, mas ajudou também a fundar Rio Eu Amo Eu Cuido , um movimento que visa mudar hábitos e espalha orgulho cívico.

Apesar desse otimismo e animação, assinala o especialista em educação David Letichevsky, o Brasil tende a se desenvolver em “surtos”, como um samba de breque. Após vinte anos no exterior, ele voltou para trabalhar no sistema municipal de educação, munido de um diploma de pós graduação em economia da educação, da Columbia University. Apesar de estar fazendo as malas mais uma vez para ir embora, ele oferece um conselho inspirador para quem pensa em voltar:

“Traga [seu] espírito crítico para cá. Não aceitas as coisas ccomo elas são; conteste, lute, argumente. Você irá levar tabefes e rasteiras, mas não deixe seu espírito se quebrar. A mentalidade brasileira não gosta muito de contestação […]. Ela é acomodada em estruturas patriarcais, rurais, escravagistas de um país continental que não conhece suas fronteiras. Você que não só viu as fronteiras mas também ultrapassou-as, compartilhe com seus patrícios o quê há do lado de lá – para melhor e para pior.”

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About Rio real

American journalist, writer, editor who's lived in Rio de Janeiro for 20 years.
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