Cidade e democracia, em Paraty

Urbanização e seus problemas, até na própria FLIP

Esgoto a céu aberto, falta de água, sobrecarga na rede elétrica e gridlock na de Internet. São problemas comuns nas grandes cidades, e até nas pequenas.

Quem nasceu antes do ano 2000 sabe que na história da humanidade o século XX foi o século de urbanização, como disse hoje na FLIP o mediador de mesa Guilherme Wisnik.

Wisnik mediou a mesa Cidade e Democracia, com o indiano Suketu Mehta e nosso antropólogo mor Roberto Da Matta.

Nascido na Índia, Mehta emigrou com a família a Nova York nos anos 1970. Uns vinte anos mais tarde se mudou para a terra natal com esposa e filhos, querendo ver se era possível voltar ao lugar que deixara na adolescência. O resultado da experiência foi o elogiadíssimo livro, finalista do prêmio Pulitzer, Bombaim, Cidade Máxima, lancado no Brasil em 2011.

Diz ele que Bombaim é uma cidade brutal e acolhedora, ao mesmo tempo. Soa familiar?

Por um lado, Suketo ouve a história do muçulmano que tacou fogou no hindu de quem ele costumava comprar pão– “porque era hindu”. Por outro, ouve o diretor do sistema de trens urbanos, que duvida que venha a existir um transporte mais confortável até o fim de sua vida, mas não perde a esperança no ser humano. Isso porque ele é testemunho, todos os dias, da solidariedade dos passageiros espremidos e suados que estendem a mão para o desconhecido tardio, criando um espaço do nada para um a mais.

De acordo com Da Matta, o futuro do mundo reside em cidades como o Rio de Janeiro e Bombaim (cujo nome vem do português, aliás: Boa Baía).  Com todos os defeitos e desafios surgem com força agora no mapa mundial, enquanto as cidades norteamericanas e europeias degeneram.

São problemas e soluções, ao mesmo tempo.

Cidade e Democracia, na Tenda dos Autores

“Se o chefe da aldeia morre, pode morrer a aldeia,” comparou Da Matta. “Mas se morrer o prefeito ou o governador, a cidade continua. A cidade é maior, a crise é a norma da cidade, a cidade explode, acompanha as etapas de desenvolvimento econônomico.”

Na sua cidade de Niterói, Da Matta tem vontade de chorar quando vê a praia de sua infância. Mas o Rio de Janeiro metropolitano é capaz do paradoxo de poluição intensa em conjunto com uma conferência mundial de sustentabilidade das Nações Unidas, ele lembrou. A cidade, disse ele, tem tantas facetas que parece um deus indiano, cheio de braços e cabeças.

Nossas cidades se constroem por cima de ruinas, físicas e socio-históricas, disseram os debatedores. Arranha-céus de “feio estilo internacional”, contou Mehta, surgem em Bombaim ao lado de prédios históricos. No Rio de Janeiro, modernos carros alemães são conduzidos por motoristas de mentalidade medieval. “Não é um problema de desigualdade,” cutucou Da Matta, autor de Fé em Deus e pé na tábua: ou como e por que o trânsito enlouquece no Brasil. “Temos uma alergia à igualdade”.

Qual o papel da favela? veio a pergunta para Mehta. Em dezembro, ele esteve em várias favelas do Rio de Janeiro, pacificadas e não pacificadas.

“Estive num baile funk na Maré, que não é pacificada. Ouvi músicas falando de matar policiais, e sobre sexo entre menores de idade. Vi crianças portando AK47s maiores do que eles mesmos. Vi gente vendendo cocaina na rua, de sacos de lixo. Depois, fui a um clube de jazz em uma favela pacificada, onde havia um jazz meio domado, e gente do Leblon que curtia a ideia de estar num lugar um pouquinho perigoso. Esse é o futuro da favela,” ele apontou.

“Certa vez uma amiga judia levou a avó dela para seu novo apartamento, todo reformado e bonitinho, no Lower East Side de Nova York”, ele continuou. “A avó dela ficou horrorizada. ‘Passei metade de minha vida tentando sair daqui!’ ela exclamou”.

O outro lado dessa moeda, acrescentou Mehta, é a moradia para famílias de baixa renda. “Os arquitetos são insanos e surdos,” ele denunciou. “Não ouvem os moradores, fazem tudo numa cor só, em blocos.”

No ambiente cacófono de Bombaim, Mehta descobriu que não é possível voltar a uma cidade do passado. Mas chegou a entender que o que enriquece a vida urbana é justamente a condição de outsider de tantos moradores. Ao mostrar parte do filme anos 1950 de Bollywood Bombay My Love ao público da FLIP, explicou que a música ali cantada por um batedor de carteira retrata um olhar cético, da relação ambígua do migrante com a cidade. “Se você é recém chegado, você tem que dar certo, por bem ou por mal,” disse ele.

Foi o que o próprio Mehta fez, durante os dois anos e meio que morou em Bombaim. Hoje, se sente em casa em várias cidades do mundo, mas mora novamente em Nova York, onde leciona jornalismo na New York University. Atualmente, escreve um livro sobre a experiência de imigrantes na Big Apple.

Se o século XX foi da urbanização, talvez o século XXI seja o século da sustentabilidade urbana, a hora de encarar cenas como da foto de cima. “Lembro de comer caranguejo desse manguezal aqui na frente,” conta Regina Rita Peres Goulart, dona de uma pousada.  “Agora, meus vizinhos, restaurantes finos da cidade, despejam esgoto na rua aqui do lado. Precisa melhorar muita coisa.”

Na quarta feira dia 11, Suketu Mehta participa da FLUPP no Morro do Cantagalo, Espaço Criança Esperança, 15 hs

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About Rio real

American journalist, writer, editor who's lived in Rio de Janeiro for 20 years.
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