Bailes funk começam a voltar para favelas do Rio

Inicialmente, a pacificação baniu os bailes funk, porque haviam sido do domínio (e cultura) dos traficantes de droga

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Policiais da UPP revistam um carro e seus ocupantes

Sábado a noite foi uma noite de drama tão emocionante que mal era possível se afastar e pagar um real para descer o morro para a Tijuca pacata, por meio de uma Kombi caída aos pedaços com um homem descalço no volante, andando de marcha ré porque um carro de patrulha bloqueava o costumeiro local de virada.

No Fogueteiro, uma favela pacificada em fevereiro de 2011,  a polícia pacificadora iria permitir que um baile funk adentrasse a noite? Teria discussão, briga, prisão, tiro?

Ou haveria uma aceitação tranquila da gritante música de bate-estaca eletrônica que leva tantas bundas a trepidar e balançar?

No fim do baile funk infantil, uma atração adulta

Estranhamente, esse drama atraiu nenhum veículo de mídia brasileira.

E estranhamente, esse é o gancho, simbólico e possivelmente real, no qual depende a pacificação. Pois tem a ver com quem manda, em territórios que até tempos bem recentes ficavam além do alcance governamental.

É um gancho com história: nos idos do século XX, a música banida era o samba. Era só se atrever a andar nas ruas de pandeiro na mão, que você ia preso e seu instrumento era confiscado. Considerava-se que o samba era sexy demais, africano demais, uma má influência.

É dessa teoria de relatividade que certas gringas ficam se lembrando, na luz clara do fato que não se trata de cadeiras, enquanto menininhas trepidam e balançam, ao compasso de uma música que lhes manda “Senta, senta, senta!”

Os antigos programas da Xuxa são nada, em comparação

O baile foi prémio para a vitória de uma equipe feminina de futebol, no campeonato Taça das Favelas. A Secretaria Estadual de Saúde pagou a empresa de produção de bailes funk Furacão 2000 para fazer o show. Enquanto animava as menininhas, um dos mestres de cerimônia informou parenteticamente ao público sobre como  evitar a dengue (nunca deixe juntar água parada). Não se podia evitar o pensamento, olhando as dezenas de mulheres de traseiro avantajado que seguravam bebês, que alguma informação sobre planejamento familiar poderia ter sido mais apto.

Depois do concurso de funk e dos festejos para as jogadoras de futebol, a presidente da associação de moradores, Cintia Luna, subiu ao palco para pedir que os moradores assinassem um abaixo-assinado demandando a recisão de uma resolução estadual que efetivamente bane os bailes funk em favelas. Baixada unilateralmente pela Secretaria Estadual de Segurança Pública em janeiro 2007, a resolução parece ter sido o fundamento para o que pode ser chamado de o lado cultural da pacificação policial, que começou em novembro de 2008.

Aquecimento

Como resultado, o funk vive uma bizarra vida dupla. Plenamente aceitado no asfalto, a música que já é o som mais ouvido no Rio de Janeiro está em grande parte proibida nas favelas pacificadas. A situação leva centenas de jovens a abandonar seus próprios territórios, que são relativamente seguros, para aqueles onde a pacificação não chegou, onde ainda reina o proibidão– que enaltece a violência, o sexo, e o tráfico de drogas.

A quadra, construída há três anos por comerciantes locais, fica numa pequena descida lá no alto do Morro do Fogueteiro, parte de uma série de favelas cobrindo os morros entre Santa Teresa and Rio Comprido, não muito longe do centro da cidade. Dentro dela, mães e crianças e adolescentes torciam e trepidavam. Do lado de fora, perto de umas poucas barracas de comidinhas e bebidas, os mototaxis deixavam passageiros, davam volta e subiam com rapidez.  A alguns metros mais adiante pela rua, um pouco depois do ponto onde as motos faziam a volta, nos fundos da quadra, fica o Centro de Desenvolvimento Infantil Zélia Gattai Amado, do município. Do outro lado da rua há casas de tijolo inacabado e vielas, levando a mais do mesmo, com outras em mais uma favela na distância, as luzes providenciando um aspecto aconchegante. “Vá ver a vista,” sugerira a jornalista norteamericana Taylor Barnes. “É linda”.

Meninos dançam o passinho

Barnes não é a única pessoa a apreciar a vista. Construído há nove anos, o Centro nunca funcionou porque os traficantes utilizavam o local como um ponto de observação e posicionamento de atiradores. Reinaugurado em abril passado, a área parece reter uma dose de sua karma; do outro lado da rua, entre as entradas das casas e as ruelas, dezenas de jovens rapazes fumavam maconha, produzindo uma nuvem de fumaça tão espessa que Julia Tierney, uma estudante de doutorado em planejamento urbano na Universidade de Califórnia em Berkeley, sugeriu sairmos de perto, pois estava ficando com dor de cabeça.

O calor humano dos brasileiros é mundialmente conhecido, mas séculos de instituções fracas e promessas não cumpridas levaram a um enorme estoque de desconfiança por trás dos sorrisos e beijos. Um pouco rua acima do fumódromo, Luna, a presidente da associação– que curte mais a Marisa Monte do que o funk– ficava em pé do lado de fora da quadra, se estressando com os policiais  de cara severa. “Tão procurando qualquer motivo para fechar o baile,” disse ela, antes de subir a rua até uma pequena área onde alguns carros chegavam, do lado de uma biroscas.

São tempos difíceis. Mês passado, um morador do Fogueteiro foi morto pela polícia, possivelmente sem motivo, possivelmente porque estava envolvido no tráfico. Por outro lado, outro confronto em setembro passado deixou um policial tetraplégico. E essa comunidade também é parte de uma região da cidade onde houve indiciamento de policiais por “vender de volta” o mercado de drogas aos traficantes locais.

Olhando para dentro, do lado de fora da quadra

Por volta das nove da noite um par de policiais da UPP desceram a rua correndo em direção à quadra, rifles na mão. Barnes e o videógrafo americano Jimmy Chalk correram atrás deles. Os tiras não chegaram até o fumacento ponto de observação; voltaram rapidamente ao terreno alto. Parecia que os gringos haviam pedido que fizessem um pouco de encenação, para o mini documentário que estavam filmando, sobre a pacificação. Mas não, a ação era verdadeira, disseram Chalk and Barnes quando voltaram alguns minutos depois.

Então chegou um carrão branco, e os policiais se empenharam com a tarefa de examinar documentos, assentos e porta-malas. “Há  muito mais soldados aqui do que normalmente,” comentou Luna.

Depois de uma visita de surpresa na quarta-feira passada do chefe das UPPs coronel Rogério Seabra, Luna resolveu escrever um email para ele, pedindo permissão para extender o baile funk infantil até um horário mais tarde, para adultos.

Drama no palco e fora dele

“Ele não respondeu,” disse ela ao RioRealblog. “Então eu entendi que era para ir adiante, com cuidado. Se não, ele teria logo dito que não.” Ela deu uma pausa. “Mas eu imagino que ele enviou todos esses soldados a mais e mandou que achassem algum jeito de reprimir.” Diante da câmera, Luna disse a Barnes and Chalk  que, do jeito que as coisas vão indo, ela acredita que está para acontecer uma nova ditadura militar. Desde o fim da última ditatura brasileira, em 1985,  a democracia se desenvolveu gradualmente até o ponto onde se tornou possível– e  necessário– começar a incluir os pobres na economia formal e a integrar as favelas na cidade formal.

Mas os desafios ali embutidos são enormes. Com a pacificação, a máxima autoridade na favela não é mais um traficante de drogas. Deve tomar seu lugar a polícia de pacificação? Na ausência de enérgica participação comunitária e sem a vigilância da mídia e da sociedade civil (fora nós gringos, Luna observava o desenrolar dos eventos da noite na companhia de mais uma moradora, além de uma intrépida estudante de Serviço Social na UFRJ e seu namorado protetor), o vácuo de autoridade é grande demais e não existem limites definidos.

Terminada a inspeção do carro, os tiras subiram no veículo deles, ligaram a sirene e se mandaram da rua abarrotada, pontas dos rifles do lado de fora das janelas. Dez minutos mais tarde estavam de volta. Mais um carro cheio de gente apareceu, e os tiras acenderam suas lanternas para penetrar o escuro por baixo do capô.

Seria uma boa ideia tentar falar com os soldados, mas quem sabia como iriam reagir?

Vista pela descida na direção da entrada à quadra

Apesar da dor de cabeça, Julia Tierney, que acabou de terminar um mestrado em planejamento urbano na MIT, comentou que sua pesquisa de tese revelou que muitos policiais dizem que precisam extrapolar na autoridade deles, para que a cidade não volte à gradual invasão dos bandos de criminosos em território urbano, que começou na década de 1980.

Um pouco abaixo na travessa da rua principal que sobe o morro, outro grupo de policiais revistava no escuro um pessoal de mãos na parede. Quando enfim conseguimos nos desapegar de tudo isso, e andamos alguns passos por essa rua principal até a parada da Kombi, vimos mais uma revista de automóvel.

É bom se lembrar que a polícia militar do Rio de Janeiro e suas unidades de pacificação são longe de ser uma entidade monolítica. O Secretário Estadual de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, já se mostrou aberto a conversar sobre questões de direitos humanos. Mas os soldados abaixo dele vêm de uma longa tradição de treinamento e comportamento na rua de durões. Era fácil imaginar, olhando seus rostos graves e sua facilidade com os rifles, que os movimentos altamente sexuais do funk poderiam mexer um pouquinho demais com os corações e mentes de alguns homens cujo trabalho é preservar a ordem.

Até quase meia noite do sábado, o baile rolava, uma pequena vitória para os moradores.

Até uma hora da manhã, nós gringos bem comportados, a estudante da UFRJ e seu namorado, e Cíntia  Luna estávamos todos já na cama com os ouvidos zumbindo, deixando os tiras para revistar cada carro que subia o Morro do Fogueteiro. Provavelmente, não vimos nem metade da diversão que se diz ser um “verdadeiro” baile funk. Também não vimos a polícia dando tiros num espaço cheio de gente às 1:30 da manhã, como a Luna disse mais tarde ter sabido acontecer. Aparentemente, ninguém se feriu.

Parada técnica pós baile funk na Tijuca: queijo coalho a la secador de cabelo

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About Rio real

American journalist, writer, editor who's lived in Rio de Janeiro for 20 years.
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8 Responses to Bailes funk começam a voltar para favelas do Rio

  1. suellen says:

    Caro Coronel Seabra,

    Tive a oportunidade de conhecê-lo na ocasião da entrevista com o grupo de pesquisadores do Iser e depois encontrá-lo em alguns eventos relacionados às UPP`s. Foi interessante ouvi-lo e perceber que o senhor enquanto comandante geral das UPP`s, estava aberto ao diálogo com todos aqueles que desejam uma cidade menos violenta. É com esse espírito que exponho o que presenciei no último final de semana no morro do Fogueteiro.

    Já algum tempo tenho circulado por algumas favelas com UPP, especialmente, as favelas Fallet e Fogueteiro onde faço minha pesquisa de dissertação de mestrado sobre associações de moradores. Tenho freqüentado o morro do Fogueteiro e percebido as tensões que envolvem a relação da polícia com os moradores, entretanto, não esperava que em uma ocasião festiva a situação ficaria tão evidente.

    No último Sábado fui ao baile funk realizado no morro do Fogueteiro (14/07/12). Era um momento há tempos desejado pelas crianças, adolescentes e jovens que desde o processo de instalação da UPP não tiveram mais o baile funk como espaço de diversão. O baile foi recebido como uma forma de prêmio após a equipe de handboll feminino ter ganhado a taça de favelas. Ao chegar, por volta das 21:00 hs, achei estranho não ter policiamento no entorno da quadra onde acontecia o baile e a rua onde fica localizada, estava cheia de crianças, famílias e jovens.

    Logo que cheguei, me apresentei a dois documentaristas norte americanos que entrevistavam a presidente da associação de moradores e faziam imagens da comunidade. Eles me disseram que tiveram autorização do comando geral das UPP`s. Também os acompanhava uma pesquisadora de um blog. Enquanto conversávamos, duas viaturas da polícia militar chegaram em alta velocidade e prontamente abordaram um carro que chegava com alguns jovens. Todos os policiais portavam armas de grande porte, exceto um deles, o que causou uma situação de extrema tensão.

    Ficamos surpresos e apreensivos com a abordagem dos policiais que chegaram a levar alguns “suspeitos” para uma região sem iluminação, tentando impedir que moradores e visitantes acompanhassem um procedimento que parecia ser normal na rotina da polícia militar do Rio de Janeiro. Quando eu e a documentarista cumprimentamos um dos policiais com “boa noite” para perguntar se estava tudo sob controle e se poderíamos ficar tranquilas diante do que estava acontecendo, o policial nos olhou e ignorou nossa tentativa de diálogo, inclusive, tentando impedir o registro de imagens, se colocando de costas para a direção em que a câmera filmava. Apenas um dos policiais nos cumprimentou rapidamente, dizendo que não havia problemas com a filmagem, apenas havia pedido para não filmarmos o rosto dos rapazes abordados, por pedido dos próprios.

    Em nenhum momento os moradores foram informados a liberar a área ou a manter-se distanciados. Tudo aconteceu na estreita rua de acesso à quadra, congestionando a passagem de outros carros, kombis e mototáxis que traziam moradores vindos de seus trabalhos. Os policiais pareciam nervosos, alguns falavam palavrões e tiveram uma postura desrespeitosa com quem estava ali para se divertir.

    Depois da abordagem inicial, mais moradores foram revistados e policiais circularam pela quadra. Uma das viaturas deixou o local permanecendo apenas alguns policiais no principal acesso à quadra. Um deles chegou a dizer que iria encontrar alguma “sacanagem” e que assim o baile teria que acabar logo. O que me chamou atenção, é que faziam parte da ação, policiais de outros batalhões, entre eles do Sétimo BPM, localizado em São Gonçalo. Além disso, a presença da câmera pareceu conter alguma ação mais arbitrária.

    Eu, enquanto pesquisadora e moradora da cidade, interessada nas mudanças que a instalação das UPP`s poderia proporcionar, fiquei indignada com o forma com que se deu a atuação dos policiais. Ocorreu-me a sensação de impotência diante da falta de canais de interlocução com aqueles que executam a política de segurança pública no cotidiano. Não é preciso ressaltar os últimos eventos violentos no morro do fogueteiro que culminou em dois rapazes mortos e uma criança baleada no curto período de 2 meses, o que é um paradoxo dentro de uma política que se propõe de proximidade.

    Sabe-se que o morro do Fogueteiro é conhecido como um morro onde a história de confronto entre facções e polícia já deixou muitas vítimas, entretanto, este dramático legado acabou por criminalizar todos os seus moradores como “criminosos em potencial”, principalmente os jovens. Infelizmente me parece que esta UPP enfrenta o enorme desafio da aproximação, mas não me parece que este tipo de abordagem ajude neste processo, ao contrário, só faz acirrar as representações negativas que moradores tem da polícia e polícia tem dos moradores.

    Escrevo este relato como uma forma de publicizar a sensação de medo e insegurança que vivenciei, e que infelizmente, tem sido parte do cotidiano dos moradores desta comunidade. Encerro meu breve relato desejando que quaisquer ações do Estado sejam executadas com respeito aos direitos de cidadania dos moradores desta e de todas as favelas cariocas.

    Desde já agradeço.
    Atenciosamente,

    Suellen Guariento
    Pesquisadora PPGSS/UFRJ
    Pesquisadora ISER
    Email: suguariento@gmail.com
    Cel:8088 8176

    • Rio real says:

      Suellen, muito obrigada por essas informações complementares e por sua avaliação dos eventos de sábado à noite no Fogueteiro. Você já enviou isso diretamente para o coronel Seabra? Nos mantenha informados! Abraço, Julia

  2. suellen says:

    Sim, Júlia. Já enviei por email para o Coronel. Não é nenhuma denúncia, apenas um breve relato a partir do meu olhar sobre o aconteceu. Abraços, vamos nos falando… me envia seu email para que possamos facilitar a comunicação. Abraço, Suellen

    • suguariento@gmail.com says:

      O comandante geral das UPP’s entrou em contato por telefone agradecendo a iniciativa da carta e garantiu que os fatos tem sido apurados. Segundo o comando, algumas mudanças já tem sido realizadas nestas comunidades. Vamos torcer para que as mudanças venham e que os moradores de favelas não sejam mais criminalizados em abordagens policiais. Abraço, Suellen

  3. suguariento@gmail.com says:

    Sim!!

  4. Pingback: FATOS & FOTOS

  5. Pingback: Sobre o fim das UPPs – ESCUTA.

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