Primeira morte de policial UPP: história complicada para desvendar?

Para uma atualização, confira aqui

Faça uma pergunta e você terá uma resposta. Faça a mesma pergunta a outro interlocutor e terá outra. Às vezes as duas parecem combinar de maneira perfeita.

Resta procurar, e encontrar provas. A Disque Denúncia já recebeu várias ligações e hoje houve três prisões relacionadas ao ataque a policiais de ontem à noite no Complexo do Alemão.

Enquanto isso, de tarde aconteceu um evento histórico na unidade da Afroreggae do Cantagalo: uma espécie de talk-show de ex-traficantes de droga, um ex-miliciano e policiais, mediado pelo fundador da ONG,  José Junior.

Calhou do elevador que sobe da rua Alberto de Campos até o “Brizolão” estar parado. E calhou de alguns funcionários da Afroreggae estarem lá, também tentando decidir se era melhor subir 25 lances de escada, ou dar volta e pegar o elevador da estação de metrô General Osório, para daí atravessar uma parte da favela  Pavão-Pavãozinho e assim chegar no auditório da Afroreggae.

“O que aconteceu ontem à noite no Alemão?” perguntou RioRealblog a um deles.

A resposta veio sem hesitação. “Os policiais da UPP sequestraram a mulher de um traficante, e pediram um resgate, que foi pago. Mas não devolveram a mulher.”

Os tiros na unidade da polícia de pacificação, um dois quais atravessou o colete à prova de balas da soldado Fabiana Aparecida de Souza, matando-a, vieiram de diferentes direções.

No dia 12 de julho, o Centro de Estudos de  Segurança e Cidadania divulgou os resultados de uma segunda pesquisa de opinião entre policiais das UPPs. Os números mostram que muitos dos próprios policiais não se consideram bem preparados para o trabalho deles: em 2010, 63% se consideravam adequadamente preparados para trabalhar na UPP. Dois anos mais tarde, esse número caiu para 49%.

O universo pesquisado nos dois levantamentos mudou muito, pois o número de UPPs cresceu. O primeiro ouviu 359 policiais e o segundo, 775. Nos dois anos que se passaram, a fatia de policiais com curso superior subiu de 37% para 47%; e a proporção de mulheres cresceu de 0,8% para 11%. Talvez essas mudanças ajudem a explicar a queda na avaliação do preparo.

Pode ser que a revelação mais importante do estudo venha da quantificação que faz do “grau de adesão ao projeto” de UPP que os policiais evidenciaram, através de respostas a cinco perguntas. Um total de 51,% foi identificado como “neutros ou ambíguos” ao projeto. Mais 15,5% seriam parcialmente ou totalmente resistentes. Assim, apenas um terço se identifica com os objetivos da pacificação, ou parcialmente ou totalmente.

Os respondentes de 2012 estão mais satisfeitos com as condições de trabalho, do que aqueles de 2010.  Tais condições citadas não incluem segurança pessoal, apesar de muitos dizeram que um atrativo de trabalhar em UPP seria a maior segurança.

Contudo, dos policiais pesquisados neste ano, 60% gostariam de sair da UPP.

Para uma gama impressionante de informação qualitativa sobre o trabalho da polícia UPP e como os soldados veem a si mesmos e aos moradores de favela, veja esse estudo novo (começando na página 136 ), que em breve será resumido em um post novo.

O que fica claro pelos resultados da pesquisa CESeC é que a noção de policiamento comunitário ainda está muito fraca entre os policiais da UPP. Só 5% dizem reunir-se frequentemente com moradores, pois essa tarefa ainda é reservada ao comando. Nas atuais 24 UPPs do Rio de Janeiro, já trabalham 5,5 mil policiais. Eles tiveram de seis a sete meses de preparo, junto com os policiais militares tradicionais (não-UPP), com um mínimo de tempo dedicado ao assunto policiamente comunitário.

Desde o ano passado, a cúpula da polícia militar trabalha para revolucionar o currículo da academia.

Não está claro exatamente qual tipo de treinamento poderia evitar sequestros praticados por policiais da pacificação, se é isso que aconteceu.

Durante o evento da Afroreggae, o inspetor da policia civil José Magalhães, que trabalha com a ONG, comentou o ataque de ontem  à unidade da UPP. “Alguma coisa de anormal aconteceu, que logo vai aparecer,” disse ele.

Mais tarde, o blog comentou com o inspetor a versão que ouvira anteriormente. “Há um código de conduta,” explicou Magalhães, que tomou o cuidado de dizer que não tinha nenhuma informação a respeito do ataque. “A família do traficante tem nada a ver. Se você mexe com a família dele, ele vai mexer com a sua.”

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About Rio real

American journalist, writer, editor who's lived in Rio de Janeiro for 20 years.
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7 Responses to Primeira morte de policial UPP: história complicada para desvendar?

  1. ARvWD says:

    Good investigative content – thank you. Have the Rio UPP police used anyone from overseas forces for their training? In the UK, community policing has been an uphill struggle, but I think all sides would say there has been progress. Initiatives in the Metropolitan Police (London) and in Manchester, for example, are to tackle similar issues. We could learn from their successes, and failures, and apply the lessons here.

    Conteúdo investigativo bom – obrigado. Já o Rio UPP polícia usou qualquer um de forças no exterior para sua formação? No Reino Unido, o policiamento comunitário tem sido uma luta difícil, mas acho que todos os lados dizem que houve progresso. Iniciativas na Polícia Metropolitana (Londres) e em Manchester, por exemplo, são para tratar de questões semelhantes. Poderíamos aprender com seus sucessos e fracassos, e aplicar as lições aqui.

    • Rio real says:

      Yes, I believe there’s been quite a lot of international exchange. Luiz Eduardo Soares, one of the first to think about public safety here in a progressive manner (early 2000s), spent time in NYC.

      • Marcelo Brasileiro da Fonseca says:

        Bloguezinho sem vergonha… joga uma historinha leviana no ar, sem nada de concreto, pra culpar a polícia e inocentar o traficante… raça sem vergonha esses direitos dos manos..

  2. Rio real says:

    Blog é blog, Marcelo. Não há pretensão de culpar ninguém nem inocentar ninguém.

  3. NEWTON GIRALD says:

    COM OU SEM O ALEGADO SEQUESTRO, PERCEBAM QUE UM SER HUMANO MORREU, NO EXERCÍCIO PROFISSIONAL.

    COMO ERA UMA TRABALHADORA, NÃO TEM DIREITOS. COMO ESTÁ MORTA, NEM MESMO DE DEFESA.

    EU ENTENDO QUE O DIREITO, EM QUALQUER DOS RAMOS, É, COMO O PROCESSO, UM INSTRUMENTO PARA SE ALCANÇAR UM BEM MAIOR, IMPRESCINDÍVEL PARA A VIDA EM SOCIEDADE, E QUE SE CHAMA JUSTIÇA.

    LEMBREMO-NOS, A JUSTIÇA, COMO A VERDADE, SEMPRE TEM DOIS LADOS. O FATO EXISTE.

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