O funk pode juntar o Rio?

O Rio pode juntar o funk?

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Na semana passada, RioRealblog fez uma loooonga viagem de ônibus até a Praça Seca em Jacarepaguá, para se encontrar com sete jovens de favelas das zonas oeste e norte, que acabaram de passar duas semanas em Londres.

Na pizzaria ao lado da Praça Seca

Eles fazem parte de um grupo de dez dançarinos de passinho que o escritor Julio Ludemir levou para Londres para participar da cerimônia de encerramento das Paralimpíadas de setembro de 2012 (veja eles a partir de 1:38:12).

No ano passado, Ludemir criou A Batalha do Passinho, uma série de competições desse estilo eclético de dança, que começou a surgir nas favelas cariocas em 2007. A Batalha foi uma chance para esses jovens fazer nome fora dos territórios deles, e para conhecer pessoalmente outros dançarinos.

Muitos deles já estavam conectados pela internet, pois a dança evolui por meio de pesquisa online e do compartilhamento de vídeos filmados em celulares, postados no YouTube.

“Há tanta coisa além do passinho em si,” comemora Ludemir. “Uma nova batida, o aspecto audiovisual, comportamento, uma nova sexualidade —não é só uma dança.”

O acompanhamento do passinho é música funk, que Ludemir e outros dizem estar substituindo o samba como identidade musical do Rio. Os traficantes de drogas têm influência nisso, ao promover bailes funk nas favelas que eles dominam. As músicas geralmente exaltam a violência e as drogas.

Nas favelas pacificadas, os bailes funk são proibidos ou encurtados. Apesar de a pacificação fazer parte de uma nova política pública com a proposta de tratar igualitariamente territórios e as questões urbanas, os amantes do funk reclamam que uma resolução de 2007permite que a polícia proíba unilateralmente eventos públicos em favelas. A polícia, segundo eles, acaba por exercer o poder que antes ficava na mão de traficantes.

Os funkeiros e os fãs de funk trabalham para revogar essa resolução. Enquanto isso, organizam-se matinês de baile funk nas favelas pacificadas, e muitos jovens dessas favelas simplesmente saem para se divertir em favelas não pacificadas.

O passinho representa um tipo de terceira via limpa, pois os dançarinos se fazem acompanhar por música instrumental ou livre de referências à violência ou drogas. Os jovens que foram a Londres dizem não usar drogas, nem fumar ou beber.

O grupo de dez dançarinos, que agora se chama o Bonde do Passinho (e está a fim de continuar a dançar profissionalmente), dedicou muito tempo à loja da Nike em Londres. Gastaram dinheiro lá também. Para poder alocar parte da diária em tênis, bonés, camisas, jaquetas e mochilas, eles comeram todos os dias no McDonald’s.

Também passaram horas ensaiando, com intervalos para conhecer dançarinos de hip-hop londrinos,  compartilhando técnicas.

E eles perceberam o quanto o Rio de Janeiro é diferente de Londres. “Os ônibus não fazem barulho!” diz um deles, fazendo um gesto suave com a mão.  “Até bicicleta para no sinal!” falou outro, maravilhado. “Os caixas eletrônicos ficam no meio da rua. E no ponto de ônibus, diz quanto tempo vai demorar até que o próximo ônibus chegue,” mais um contou. Michel de Souza, vinte anos, decidiu variar no cardápio e fez compras no supermercado. “Não há gente no caixa,” ele se lembra. “Você mesmo passa a compra pela leitora.”

“Cebolinha Do Bonde”, 22 anos, reparou que as máquinas de refrigerante dão troco. “Aqui, você coloca o dinheiro e para pegar a lata você tem que—” ele faz mímica como se estivesse chacoalhando uma dessas máquinas.

Contudo, o Brasil é mais liberal, pode-se beber na rua, ele conclui.

“Os carros são mais baratos lá,” interrompe Yuri “Mr. Passista”, 20 anos. “Nós dois juntos—ele aponta para “Granfino Maridão Mr.Passista”—“a gente poderia comprar um carro.”

“Mas tudo fecha às dez horas. E em Londres não há cheiro de nada,” Cebolinha finaliza. “Quando cheguei de volta e senti o cheiro de fossa, me senti em casa.” Ele abre um sorriso amplo.

O Rio em si apresenta diferenças imensas no seu grande território. Os cariocas hoje se encontram posicionados entre o “Há apenas dois o três anos, nunca imaginei (x, y ou z)” e o bordão “Imagine na Copa“. Jovens como esses rapazes não precisam ir a Londres para conhecer novos comportamentos, valores, ideias e possibilidades. A cada dia eles andam mais na cidade e sentem-se mais hábeis.

Troféus dos pés à cabeça

Essa geração terá um papel crucial no Rio de Janeiro, no fechamento do gap entre aquilo que nunca se imaginou e o que pode vir a existir, ou seja, na saída de um passado autocrático em direção a um futuro mais democrático. Ela é o último grande grupo de jovens na evolução demográfica do Brasil, antes do pais passar a ter uma maioria de velhos.

“O  passinho poderia devolver o funk às favelas pacificadas,” diz Ludemir. Ele torce para que o grupo que foi a Londres consiga ajudar a superar, de uma vez por todas, o preconceito generalizado de que o funk só se trata de drogas, crime e sexo.  “O Rio precisa assumir que sua identidade é funkeira,” ele exorta.

Isso pode ser um desafio e tanto para jovens que, em sua maioria, ainda não completaram o ensino médio, sendo alguns já pais, e que querem, acima de tudo, ser apreciados como plenos seres humanos.

Não se trata apenas da situação de muitos jovens cariocas para quem as portas se abrem em uma série de programas tais como a Agência Redes para Juventude e a Afroreggae.  Isso é relevante para a cidade inteira.

Como podemos todos aproveitar desse momento único em nossa história?

Um filme novo que vale muito a pena acaba de ser lançado, A Batalha do Passinho. Curta a página do filme no Facebook, para saber datas e horas de exibição. 

Tradução de Rane Souza

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About Rio real

American journalist, writer, editor who's lived in Rio de Janeiro for 20 years.
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