Só saberemos ao certo daqui a dois anos

Eduardo Paes defends Olympic legacy

Eduardo Paes defende o legado olímpico

O Rio está pronto para as Olimpíadas?

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Durante a semana passada, faltando apenas seis semanas para o primeiro jogo da Copa do Mundo, que acontecerá em São Paulo (o primeiro jogo no Rio, Argentina x Bósnia-Herzegovina, no reformado estádio do Maracanã, será em 15 de junho), houve muito vai e vem quanto à preparação da cidade para as Olimpíadas.

Na segunda-feira passada, uma noite antes de John Coates, membro do Comitê Olímpico Internacional, atacar a Cidade Maravilhosa (ele suavizou o tom depois), o prefeito Eduardo Paes já estava na defensiva. Em palestra na série de debates promovida pela OsteRio, ele falou com detalhes sobre os preparativos da cidade e o legado dos eventos. Apresentou um filme de sobrevoo de vinte minutos, sobre a nova Transcarioca, faixas exclusivas de ônibus que ligam a Cidade Olímpica ao aeroporto internacional. A Transcarioca será inaugurada ainda neste ano.

Pode-se afirmar que dificuldades para cumprir prazos advêm da burocracia brasileira e da coordenação precária entre as diversas esferas governamentais. Provavelmente, a corrupção também já contribuiu para isso, pois os atrasos levam a custos mais altos e reduzem a atenção aos detalhes contratuais, beneficiando empreiteiras e aqueles que recebem favores em contrapartida. Até o momento, não surgiu nenhum escândalo relacionado com as Olimpíadas, mas a Delta, a empreiteira acusada de corrupção em outras obras (manchando a reputação de Sérgio Cabral, ex-governador do Rio),foi forçada a abandonar a obra de reforma do Maracanã em 2012,  deixando as empresas Andrade Gutierrez e Odebrecht a concluir o estádio no prazo para a Copa das Confederações em junho de 2013.

Eduardo Paes culpou o governo federal pelo atraso no repasse de verbas para as obras do Complexo Olímpico Deodoro, porém prometeu que tudo ficará pronto “com muita antecedência”. Sem mencionar quais são as empresas e concessionárias envolvidas, enfatizou o papel desempenhado pelo setor privado, argumentando que, ao contrário das Olimpíadas de Londres, a parte maior do gasto não sairá do bolso dos contribuintes.

Conforme ele demonstrou, a prioridade do Rio de Janeiro para esses mega eventos é, além de pontualidade, o legado olímpico. Esse legado está centrado no transporte público e na mobilidade em geral. Enquanto os cariocas amargam os nós no trânsito, que o prefeito causou com obras e com a demolição do elevado que serpenteava entre o centro da cidade e a baía, eles podem algum dia chegar a perceber, afinal, que tornou-se mais fácil se locomover, sem carro, do que era o caso em 2008 quando Eduardo Paes foi eleito pela primeira vez.

A cidade receberá quatro novos sistemas de BRTs — trânsito rápido de faixas exclusivas para ônibus — ; a extensão do metrô até a Barra da Tijuca; uma rede de bondes no centro do Rio; pelo menos dois teleféricos em favelas; um sistema de drenagem rápida na praça da Bandeira, localizada na região central da cidade e que sofre com alagamentos constantes; melhorias nos trens suburbanos e nas barcas; e maior eficiência no sistema de ônibus.

“Falei para a presidenta Dilma que era necessário resolver os enchentes na praça da Bandeira se íamos ter jogos da Copa no Rio,” ele confidenciou, como os políticos costumam fazer, à plateia. “Não lhe disse que chove no verão, não no inverno, quando teremos a Copa.”

À medida que o vídeo do sobrevoo se alongava, Paes confessou que no início de sua carreira como servidor público conhecia pouco da região de Jacarepaguá, na Zona Oeste, pois cresceu e estudou num colégio da Zona Sul. Em seguida, identificou um por um as dezenas de bairros remotos pelos quais a Transcarioca irá passar, especulando que poucos presentes na plateia (a maioria moradores da Zona Sul) conheceriam a geografia daquela região.

O já tradicional medo da violência e o maciço da Tijuca, que separa as Zonas Norte e Sul do Rio, realmente mantiveram muitos cariocas desinformados sobre os nomes e o caráter de vários bairros da cidade. Melhorias em mobilidade podem alterar esse estado de coisas, o prefeito parecia sugerir.

Os investimentos em mobilidade, se implementados com sucesso, podem tornar-se significativos. No entanto, fazem parte de um legado muito mais ambicioso, vislumbrado alguns anos atrás. Este artigo do jornal O Globo discute promessas olímpicas não cumpridas. Porém, duas promessas do legado foram omitidas da matéria: a limpeza da Baía de Guanabara e o programa de melhoria de todas as favelas do Rio, Morar Carioca até 2020.

Quando perguntado sobre essas promessas no debate OsteRio, Paes respondeu que saneamento é responsabilidade do governo estadual. A despeito disso, ele disse que a prefeitura do Rio, sob acordo com o governo do estado, assumiu o saneamento da Zona Oeste, repassando a obra para uma concessionária privada, que hoje está construindo essa infraestrutura. Os participantes da OsteRio pediram que ele tomasse a mesma atitude com a baía entupida de lixo e de esgoto in natura. No Rio de Janeiro, somente 30% de todo o esgoto é devidamente coletado e tratado.

O prefeito argumentou que o quase defunto programa Morar Carioca nunca fez parte do legado olímpico, apesar de um site oficial da prefeitura ainda afirmar o contrário.

Obviamente, a visão inicial do legado olímpico era extremamente ambiciosa e as prioridades tiveram que ser definidas ao longo do tempo. Porém, a opção de favorecer o transporte em detrimento de moradia nunca foi discutida ou explicada publicamente. Alguns analistas afirmam que essa escolha foi feita para beneficiar as empresas de construção e os empreendedores do setor imobiliário.

Espera-se que, à medida que a janela de oportunidade oferecida pelos Jogos Olímpicos começa a se fechar, que a atenção volte aos lares aos quais os cidadãos retornam todo dia, depois de andar pela cidade. Afinal de contas, um em cada cinco moradores do Rio, mais de um milhão de pessoas, mora em casas de construção informal.

Talking with resident and former health worker Ana Costa Mendes, on Rua 4 in Rocinha, photo by Jimmy Chalk

Conversando com uma moradora e ex agente de saúde, Ana Costa Mendes, na rua 4 na Rocinha, foto de Jimmy Chalk

Em breve, saiba mais sobre a parte informal da cidade, quando a RioRealblogTV lançar o segundo vídeo no nosso canal do YouTube, sobre as vielas das favelas. A blogueira que vos escreve passou uma tarde nos becos da favela da Rocinha na semana passada, observando os moradores se espremendo por espaços muito estreitos. A experiência serviu de aprendizado sobre o pouco que nós, moradores da cidade formal, sabemos sobre a vida nas favelas.

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 Aqui você encontra o primeiro e aqui você encontra o segundo de dois artigos, recentes e provocadores, escritos por Simon Jenkins para o jornal The Guardian, sobre os desafios que o Rio enfrentará à medida que os Jogos Olímpicos se aproximam. Ninguém perguntou ao prefeito o que ele achou das conclusões de Jenkins.

 Tradução de Rane Souza

 

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About Rio real

American journalist, writer, editor who's lived in Rio de Janeiro for 20 years.
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