O Rio afunda junto com a Petrobras?

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A região que contava com o petróleo: um dia, o prefeito de Itaguaí (último à direita) é participante em um seminário no centro do Rio. Outro, ele é objeto de investigação da Polícia Federal

É só o começo. Mas — quem sabe–  a crise pode nos salvar, em parte pelo menos, de maiores amaldiçoes petrolíferas.

“Já são 720 engenheiros demitidos pela Chemtech, empresa do grupo Siemens com base no parque tecnológico da UFRJ, na Ilha do Fundão,” escreveu a colunista Miriam Leitão no jornal O Globo, semana passada.

De acordo com O Globo, o setor de petróleo produz quase 30% do PIB estadual do Rio de Janeiro e 60% dos investimentos programados para o período 2014-2016. Domingo passado, o jornal publicou um resumo do impacto da crise no setor sobre a economia nacional, estadual e nas cidades de Macaé e Itaboraí.

Teremos, certamente, uma queda significativa na atividade econômica do estado, parcialmente amenizada pelos investimentos e obras ligados aos Jogos Olímpicos de 2016 e pelo consumo daqueles que há pouco saíram da pobreza.

Em uma das matérias, o secretário estadual de Desenvolvimento Econômico, Júlio Bueno, falou de maneira sincera. “- Estamos passando por uma crise, e isso afetará o Rio. Diariamente, empresas me procuram pedindo ajuda. A gente tenta contatar a Petrobras. Não tem jeito. Num primeiro momento, devemos ter problemas, demissões – prevê Bueno, que estima recuperação rápida da empresa.”

Tudo ia tão bem, há tão pouco tempo. Em junho, o presidente do BNDES pintava um futuro cor de rosa para o estado do Rio.

“Tem volume maciço, tem concentração grande no Rio de Janeiro. No Rio, é claro que tem investimentos na bacia um pouco fora, mas o grosso está no Rio de Janeiro. Então, a região toda litoral do Rio vai ter oportunidade de desenvolver grandes complexos importantes, portuária, logística, e de produçao de equipamento”, disse, há seis meses, Luciano Coutinho ao site G1.

Em 2012, a Petrobras acertara a compra do quartel-geral da Polícia Militar, no centro da cidade, para construir um segundo prédio (mas a PM ainda está lá, inclusive com seus cavalos). Na área cultural, a empresa esbanjava dinheiro, apoiando shows, teatro e filmes e também, o maravilhoso projeto para jovens de favela, a Agência de Redes para Juventude.

O primeiro abalo no setor energético foi das empresas X, de Eike Batista. A “queda” dele marcou não apenas a economia do estado e a nação, mas a face da cidade. A Lagoa Rodrigo de Freitas, cuja limpeza o Eike custeava, está perdendo o brilho, apesar dos atrativos da árvore de Natal flutuante, patrocinado pelo Banco Bradesco. O Hotel Glória, que Eike ia reformar em tempo para as Olimpíadas, teve as obras paralisadas por muito tempo, deixando um vácuo no bairro.

Aí veio a queda do preço de petróleo e a Operação Lava-Jato, uma investigação da Polícia Federal, iniciada em março deste ano, que paralisou não apenas a Petrobras, mas o setor de petróleo como um todo e até a escolha dos novos ministros para o segundo mandato da presidente Dilma Rousseff.

O cenário lembra um pouco Londres que, na época de ser escolhida para sediar as Olimpíadas de 2012, experimentava um boom econômico. Aí veio a crise de 2008…

Todas as empreiteiras mais importantes no país estariam envolvidas no escândalo de cartel e propinas pagas, por contratos, a executivos da Petrobras, parte das quais teriam ido para os balancetes de candidatos e partidos políticos. Muitas das empresas acusadas estão empenhadas nos maiores projetos do Rio de Janeiro, como a extensão do Metrô, o Parque Olímpico e a revitalização dos trens suburbanos da SuperVia.

Existe um receio de levar a Operação Lava-Jata até todas as últimas consequências, de acordo com pelo menos um articulista. Algumas autoridades já disseram que, se as empreiteiras fossem responsabilizadas pelos subornos que supostamente praticaram, o Brasil iria parar de vez. Realmente, é difícil imaginar os canteiros parados em todo o Rio de Janeiro. (Até hoje, ninguém menciona, oficialmente, a possibilidade de abrir o mercado de construção a empresas internacionais. As empresas brasileiras dominam o mercado desde a construção de Brasília.)

Obras à parte, já há reflexos da crise petroleira por toda a cidade e a região metropolitana. É assustador cogitar o efeito da crise sobre a revitalização da área do porto, por exemplo, onde a construção de prédios comerciais deve aumentar sensivelmente a oferta escritórios na cidade. Pode ser que, por um bom tempo, tenhamos daqui a pouco um centro urbano expandido, porém com pouca vitalidade.

Diz O Globo: “No mercado de locação de espaços corporativos carioca, as empresas de petróleo estão reduzindo a estrutura atual ou optando por prédios que garantam custo de aluguel menor, diz Ricardo Varella, vice-presidente da consultoria Colliers, no Rio: – O setor de óleo e gás responde por metade do mercado de aluguel de espaços corporativos no Rio. Cerca de 10% deste grupo já renegociaram contratos, derrubando o preços em 20%.”

Os salários também diminuem, de acordo com a reportagem do jornal, em até 40%.

O impacto na receita do governo estadual pode afetar os gastos, uma questão preocupante num momento em que se espera maiores gastos em áreas como a segurança pública.

Para quem perde renda e/ou emprego, a situação é bastante desalentadora. Vale a pena lembrar, porém, que a desigualdade no estado não acompanhou a melhora constatada, nos últimos anos, da região sudeste, justamente por causa do viés dos altos salários no setor de petróleo e gás. Talvez vejamos um certo realinhamento nesse sentido, dependendo dos efeitos da crise na cadeia como um todo.

Para quem vislumbra mais futuro em fontes de energia renováveis, a desaceleração do setor de petróleo pode ser uma boa notícia, se o governo brasileiro souber aproveitar a oportunidade.

E há um outro efeito positivo, em potencial: com menos petrorreais fluindo pela economia nacional e estadual, quem sabe teremos menos situações surreais como a que o RioRealblog presenciou recentemente: um discurso otimista, num seminário sobre o município de Itaguaí (que faz parte da região metropolitana), que recebe royalties e tem um porto utilizado pela Petrobras, pelo prefeito, Luciano Mota que, soubemos  dias depois, estaria desviando um terço da receita mensal municipal, de R$ 90 milhões.

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About Rio real

American journalist, writer, editor who's lived in Rio de Janeiro for 20 years.
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2 Responses to O Rio afunda junto com a Petrobras?

  1. Laura Randall says:

    Julia, I’m glad to see you are posting again. I wondered when we’d next hear from you. Best for the New Year, Laura

  2. Rio real says:

    Thanks Laura! I’ve been busy– Boas Festas to you!

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