Memorial da escravidão fará parte do Porto Maravilha

Mais de meio milhão pisou: para uma cidade que recebeu a maior transferência forçada de população da história da humanidade, nunca é tarde  lembrar disso

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O visitante poderá sentir como foi o trágico trajeto dos escravos que chegavam ao Rio de Janeiro (mapa de Sara Zewde)

A prefeitura do Rio de Janeiro, junto com associações de bairro e grupos que cuidam da herança afro-brasileira, está aprofundando um circuito existente, que poderá se destacar entre todos os lugares no mundo que nos lembram de tragédias da história humana.

Os Estados Unidos constroem, em Washington D.C., um museu nacional de história e cultura afro-americana, enquanto o governo federal brasileiro tem planos parecidos. São Paulo pode se orgulhar de seu excelente MuseuAfroBrasil, que oferece até visitas virtuais. As Nações Unidas pretendem erguer um monumento para lembrar a escravidão transatlântica, que vitimou mais de quinze milhões de seres humanos. Na cidade de Filadélfia, já existe um memorial, que lembra aos visitantes que dois presidentes americanos, proprietários de escravos, viveram numa casa ali localizada.

O projeto carioca que, de acordo com Washington Fajardo, presidente do Instituto Rio Patrimônio da Humanidade, estará quase totalmente pronto até os Jogos Olímpicos de 2016, será bem diferente de qualquer outro monumento ou memorial a esse período escuro da história.

No Rio, sobram motivos para tanto.

No auge da escravidão, poucos anos depois da chegada da corte portuguesa, em 1808, mais de meio milhão de africanos passou pelo Valongo, descendo de navios negreiros. Agora, a região deve se tornar uma referência sem igual, tanto para residentes da metrópole como para quem vem de fora.

Trata-se do Circuito Histórico e Arqueológico de Celebração da Herança Africana, que deve incluir o recém descoberto Cais do Valongo, o Instituto dos Pretos Novos (paradeiro final de escravos que morriam na viagem ou logo depois da chegada ao Rio), o recém restaurado Jardim do Valongo, o Centro Cultural José Bonifácio, a Pedra do Sal e o Largo do Depósito, onde os escravos eram engordados e vendidos. O circuito também deve incluir o armazém Docas Dom Pedro II, atual sede do Comitê Ação da Cidadania, construído pelo engenheiro e abolicionista negro André Rebouças em 1871 – sem mão de obra escrava, como ele mesmo especificou.

Fajardo disse ao RioRealblog que a prefeitura se preocupa, acima de tudo, com a sustentabilidade do circuito. O IRPH trabalha com parceiros do bairro — reunidos no Grupo de Trabalho Curatorial do Projeto Urbanístico, Arquitetônico e Museológico do Circuito para esse fim. O grupo entregou à prefeitura um documento, “Recomendações do Valongo”, parte das quais foram incorporados no Circuito.

O Circuito contará com um arrojado memorial, que Sara Zewde, mestranda em arquitetura paisagística na universidade de Harvard, ajudou a pesquisar e criar. Em vez de uma estátua, monumento, prédio ou muro, o memorial será o espaço público entre o Cais, o Jardim do Valongo e o Depósito. O plano atual é que esse espaço seja um lugar no qual o visitante pode sentar, caminhar e refletir, entre árvores, sombras e luz.

“[A escravidão era] um mundo, com tudo o que contribuía para sua operação, por muito tempo,” diz Sara.

A escravidão acabou há quase 127 anos. Mas o Cais do Valongo, que recebeu escravos de 1811 até 1831, reapareceu — com dois ancoradouros sobrepostos — apenas em 2011, durante as escavações do programa de revitalização Porto Maravilha. As escavações também revelaram grande quantidade de pertences dos escravos, como amuletos.

Remodelado em 1843 para que a Princesa das Duas Sicílias, Teresa Cristina Maria de Bourbon, noiva do (então) futuro Imperador D. Pedro II, pudesse chegar em conforto à cidade do Rio de Janeiro, o Cais foi totalmente aterrado em 1911. E depois, esquecido.

Hoje, o local – parte de uma região cuja história é intimamente ligada à herança africana — recebe as atenções não apenas da prefeitura e de líderes afro-brasileiros, mas das Nações Unidas.

Em 2013, o Cais foi alçado à condição de patrimônio cultural da cidade; no ano seguinte, o município começou a elaborar a candidatura para que a UNESCO, braço cultural e de educação da ONU, o reconhecesse como Patrimônio Cultural da Humanidade. A decisão da UNESCO será conhecida apenas no primeiro trimestre de 2016.

O memorial irá romper com as tradições ocidentais do uso de espaços públicos, procurando ecoar as tradições das origens dos africanos escravizados, diz Sara Zewde. O maior desafio será de comunicar aos visitantes a ligação do passado com o futuro, elemento forte em várias culturas africanas.

Formas circulares e ritmos musicais que hoje se observam nas rodas de samba, no Candomblé, o Afoxé e na capoeira, farão parte do memorial, cuja identidade visual será determinada através de um concurso, programado para esse semestre.

Também, diz Sara, o memorial irá realçar as conexões entre o continente africano e o Brasil, utilizando água e árvores – talvez até um baobá — que os escravos teriam conhecido nas suas terras nativas e, na medida do possível (houve muito aterramento através das décadas), recriando o triste caminho que os escravos percorriam, ao atracar no Rio. De acordo com ela, informações sobre as árvores estarão disponíveis no piso do circuito.

“No candomblé,” conta Sara, “o universo é uma árvore.”

Para saber mais: http://guiadoestudante.abril.com.br/aventuras-historia/saiba-tudo-cais-valongo-local-onde-entravam-africanos-escravos-brasil-seculo-xix-731373.shtml

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About Rio real

American journalist, writer, editor who's lived in Rio de Janeiro for 20 years.
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