Os 450 anos do Rio de Janeiro: pouco para comemorar, muito por fazer

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Esses jovens, que dançaram ano passado no festival Favela em Dança, talvez estejam entre aqueles que irão pressionar os governos para que cumprem promessas e deveres

Como podemos ajudar?

Se manter a par com o Rio de Janeiro é como entrar no Jogo da Memória, a brincadeira de fazer pares de cartas, de um baralho. Vire uma, vire outra: não fez o par, vire-as de volta. Enquanto o parceiro tiver sua vez e você virar mais cartas, tente de se lembrar das localizações delas. De novo, e mais uma vez.

Agora faça isso enquanto está criando filhos, cuidando de pais idosos, trabalhando, enfrentando a hora do rush…

For Rio de Janeiro’s 450th birthday: not much to celebrate,  lots to do, click here

Acontece tanta coisa, com tantos jogadores e tanta história do passado. Quem consegue lembrar de tudo? E agora, com a desaceleração da economia, a seca das reservas de água e o enxugamento de orçamentos no Rio, não é fácil descobrir como chegamos aqui (exceto o fator óbvio da queda dos preços de petróleo e a incapacidade brasileira de investir em fontes alternativas de energia) nem, mais importante, como andar para frente.

Muitos cariocas e fluminenses têm a impressão de que não há nada que possam FAZER, ao passo que os interesses empresariais e de turismo tomam conta de partes da metrópole, o crime reacende, cresce o desemprego e os políticos não mudam de comportamento.

Temos que achar meios de manter todas aquelas cartas em nossas mentes, de fazer os pares: prestarmos atençao e levantarmos a voz.

(Lembre, quando você se sentir triste demais, como já indiquei, de um importante elemento de salvação: as pessoas que deixaram a pobreza durante a última década, mesmo que elas percam renda, já sentiram o gosto de serem cidadãos plenos. Não irão largar a nova ideia que desenvolveram de si mesmos. Nenhum de nós pode esquecer de nossos papéis de cidadãos. Precisamos e queremos uma cidade saudável, com boas escolas, moradia, sistemas de transporte, saúde e segurança pública.)

Por onde erramos? 

Há décadas, o urbanista Lúcio Costa criou um plano para a Barra da Tijuca. Incluía a preservação do meio ambiente. Infelizmente, esse aspecto ficou de fora — no calor do entusiasmo dos empreendedores imobiliários, enquanto os cariocas fugiam dos bairros tradicionais da ex-capital decadente e dava-se carta branca ao motorista de automóvel.

O Rio fez vista grossa ao axioma do urbanista, de que uma cidade com saúde financeira e sociológica é uma cidade densa, que permite que diferentes tribos possam se encontrar e se misturar, no trabalho, no lazer e ao se movimentar por ela. Fixamos os Jogos Panamericanos de 2007, e depois os Jogos Olímpicos de 2016, nos espaços vazios da Barra da Tijuca — que, desde os tempos de Lucio Costa, se tornou uma região de condomínios fechados, dependentes do automóvel, que lançam esgoto para todas suas águas.

Espraiamento urbano é o nome para aquilo que os políticos do Rio de Janeiro, inclusive o prefeito atual Mayor Eduardo Paes, presidente do conceituado C-40 Climate Leadership Group (Grupo de Liderança Climática das Grandes Cidades) encorajaram. Espraiamento urbano não é economicamente eficiente nem é inevitável.

Incapazes de manter todas as cartas nas nossas mentes, embalados pela ideia de que devemos preencher as necessidades de transporte dos que já moram na Zona Oeste, deixamos que as nossas autoridades construíssem um túnel para Guaratiba, estendessem o Metrô na mesma direção, e fizessem BRTs para conectá-la ao resto da cidade. Parecia tão normal, a expansão.

E daí, se a virada do Rio de Janeiro juntava bilhões para empreiteiras e empreendedores imobiliários? — enquanto as águas da Barra e da baía de Guanabara continuam poluídas e um quinto da população da cidade do Rio ainda habita casas abaixo do nível da moradia formal.

A mobilidade seria o legado olímpico.

Então por que, dois anos depois de enormes manifestações de rua, provocadas por um aumento de tarifa de ônibus, falta ainda cobertura adequada na Zona Norte (com ônibus demais na Zona Sul), e não temos ainda frotas plenamente munidas de ar condicionado e de GPS, com motoristas adequadamente treinados (conforme especificado nas concessões de vinte anos, outorgadas em 2010)? Por que não sabemos ainda os custos e receitas reais das empresas de ônibus? Por que a CPI da Câmara dos Vereadores não andou?

E qual o motivo dos acidentes de trem e ônibus? Como é que o Metrô atrasa tanto?

Alguém calculou o custo dos longos trajetos das novas alternativas de transporte? O custo de coletar o lixo da população da Zona Oeste que só cresce, atraída pelo brilho olímpico? De prover todos os serviços municipais e estaduais para uma população espraiada numa área vasta da cidade?

Houve amplo debate sobre locais alternativos para sediar os Jogos — ou alguma reflexão sobre a possibilidade de gerenciar o crescimento pela densificação da cidade?

Por tempo demais, não fizemos perguntas suficientes. O que aconteceu à promessa do Morar Carioca, de que todas as favelas do Rio seriam urbanizadas até 2020?  Com sua blogueira já ponderou, à luz do escândalo de corrupção Lava-Jato, pode ser que as muitas obras dos quarenta projetos propostos teriam demandado tamanha fiscalização e governança  — de urbanistas, engenheiros arquitetos e moradores– que teria sido impraticável superfaturar contas e realizar outras formas de corrupção que, supostamente, as maiores empresas brasileiras de construção utilizaram nos seus contratos com a Petrobras.

Por tempo demais, confiamos que os outros pudessem pensar por nós. Como aconteceu a pacificação? Um grupo pequeno de pensadores e cidadãos notáveis apresentou a ideia ao então governador, Sérgio Cabral. Houve êxito considerável; mostrou-se um caminho para sair da armadilha da violência onde a cidade, faz tempo, se encontrava. Porém, de novo– não houve diálogo ou participação suficiente, por parte das comunidades pacificadas. Sem participação, o que conseguimos — às vezes –, por meio da ocupação, foi uma queda nos homicídios e nas balas perdidas. Após quase sete anos, enfim, temos a pacificação.2, com uma ótima equipe — e uma crescente preocupação orçamentária.

Os recursos do petróleo, que deixavam tudo parecer tão fácil, vão diminuindo.

Tome parte, aja agora

É muito difícil manter as cartas na memória! No carnaval, ficamos chocados ao saber que a escola vencedora no desfile do Sambódromo teria recebido recursos de uma ditadura de país africano rico em petróleo, supostamente por meio de empreiteiras brasileiras com interesses naquela nação. Então o jornal O Globo nos lembrou de  três processos judiciais em andamento, relacionados com o duvidoso financiamento local das escolas de samba.

É provável, porém, que lembremos disso somente no ano que vem.

Talvez não; você pode se juntar ao secretário executivo do ISER, Pedro Strozemberg, para fazer pressão ao secretário municipal de turismo e ao presidente da liga das escolas de samba, para mudar as regras do desfile, para que seja penalizada qualquer escola que tenha como patrocinador um país ou uma empresa envolvida em corrupção ou violações de direitos humanos. A “panela de pressão” da ONG Meu Rio é uma maneira de contribuir à mudança no Rio; ela já faz muito para acompanhar as atividades da Câmara dos Vereadores e a Assembleia Estadual, a Alerj.

Você também pode participar na Casa Fluminense, uma nova entidade de ativismo e reflexão, que trata das questões urbanas do ponto de vista metropolitano, que é cada vez mais necessário. Dê uma olhada no impressionante site de notícias.

Sem piscar, temos que ficar de olho nas cartas: durante o carnaval, a prefeitura carioca divulgou o local de uma nova rodoviária, em São Cristóvão. Mas veja o que o autor de livros de história best-seller, Laurentino Gomes, diz  sobre a proximidade da rodoviária ao Palácio Imperial do Rio, que já sofre de abandono (enquanto, na área do porto, inauguram-se novos museus “icônicos”). A matéria de O Globo fala da verdadeira necessidade por integração entre ônibus, metrô e trem– mas nem o jornal nem o governo menciona o impacto na região da Quinta da Boa Vista, em termos de trânsito, turismo, meio ambiente ou em qualquer outro aspecto. Aqui você pode ler a reação de um especialista em transporte e aqui  ha informação adicional. Ah, e fique sabendo que trata-se do quartel da antiga cavalaria imperial!

A vigilância nunca é demais. O Rio de Janeiro nos chama para monitorar as obrigações contratuais das concessões de ônibus todo dia. Precisa que publiquemos diariamente as agendas do governador, do prefeito, dos deputados estaduais e dos vereadores municipais — para então checar suas atividades verdadeiras. E muito mais. Porque, infelizmente, tais atividades, aparentemente, raramente objetivam o bem comum– algo que apenas nós, juntos, podemos identificar e comunicar.

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About Rio real

American journalist, writer, editor who's lived in Rio de Janeiro for 20 years.
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One Response to Os 450 anos do Rio de Janeiro: pouco para comemorar, muito por fazer

  1. Glauco Salles de Souza Damazio says:

    Forma vários os problemas abordados na matéria, os quais precisam de uma reflexão mais profunda. O primeiro, que eu abordo neste momento, é o do nebuloso patrocínio recebido pela escola Beija-Flor de Nilópolis. O problema das escolas de samba, do modo que a conhecemos hoje, é que elas cresceram sob o manto da contravenção dos bicheiros e, posteriormente, algumas delas tinham a ajuda financeira do tráfico de drogas. Assim, porque o estranhamento de receber subvenção de um ditador? Hoje o desfile das escolas de samba é um grande negócio, aliás o próprio Carnaval deixou de ser uma manifestação cultural e passou a ser um negócio muito lucrativo. Acontece que as escolas até agora não conseguiram uma forma de se sustentar. A solução talvez fosse tentar virar empresas, a exemplo desta experiência mal sucedida no âmbito dos nossos clubes de futebol. Aí, sim sendo empresas estariam sujeitas ao rigor da lei, podendo ser penalizadas por emitirem notas frias, lavar dinheiro do tráfico ou do jogo do bicho, e por outros delitos. O segundo problema a ser enfrentado é o urbanístico, me parecendo que a localização da nova rodoviária e as obras de infraestrutura na Zona Oeste, em especial na Barra da Tijuca e adjacências, estão interligados. Ou seja, falta um planejamento urbano por parte da Prefeitura aliado à especulação imobiliária, que hoje recebe o pomposo nome de gentrificação. Assim, as obras de infraestrutura e de mobilidade urbana são definidas pelos interesses econômicos, sejam dos empreiteiros, dos especuladores imobiliários, do comércio e de outros agentes com poder econômico. O bairro imperial de São Cristóvão, que já foi vítima de um planejamento urbano equivocado nos anos 70 do século passado, quando instalaram indústrias em seu entrono, agora será mais uma vez vítima da construção de uma rodoviária. A solução passaria por uma Câmara de Vereadores mais atuantes, que defendessem os interesses da população e não de grupos econômicos. Por último, trato da questão da segurança pública. Medidas simples como melhor iluminação das ruas, recolhimento da população de rua, não para jogá-las em um depósito, mas para tentar reconstruir a vida dessas pessoas, oferecendo tratamento para aqueles que necessitam e dando uma qualificação mínima a estas pessoas (por exemplo, cursos de jardinagem, marcenaria, mecânica, etc.). O problema das UPP’s, além do problema original de sua implantação, que não efetuou grandes prisões e apreensões, não foram realizados até o momento os investimentos sociais prometidos.

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