Hipótese enganada de golpe direitista : leitura errada do Rio de Janeiro

Nesta Nação, não

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O jornalista norteamericano Dave Zirin publicou na revista The Nation, há dois dias, um artigo entitulado “Como as Olimpíadas no Rio poderiam cimentar um golpe brasileiro”.

Sua blogueira, até então, ficara quieta, observando fatos e ouvindo os outros. Aqui, porém, se viu obrigada a opinar. Pois não tem feito outra coisa nos últimos cinco anos, a não ser aprender sobre a política e os negócios locais, sempre dentro do contexto maior da sociedade brasileira.

Aí, confeccionou uma resposta ao Zirin, publicada em inglês ontem, aqui e na plataforma Medium:

Direita e esquerda não são termos úteis no Brasil. A política aqui é centrada em pessoas, em vez de ideologia. As alianças são mutáveis, constantemente reavaliadas e refeitas. Os políticos mudam de partido do mesmo jeito que nós experimentamos uma dieta nova para emagrecer. Além disso, há o que vemos e daí, aquilo que não vemos (como soubemos, de maneira tão dolorosa, pelas gravações da semana passada).

O prefeito do Rio, Eduardo Paes, hoje do PMDB (tendo passado por mais dois outros partidos) é bom pé de samba, como reparou a revista Piauí num perfil recente. Mas — as coisas que ele disse na conversa gravada com o ex-presidente Lula?

Pode ter sido um tiro fatal naquele pé dançante. O desdém dele pelos pobres foi evidente como nunca antes. As palavras do prefeito também revelaram uma relação problemática com o governador peemedebista Luis Fernando “Pezão”, vitima de doença grave, hospitalizado — e mencionado várias vezes na investigação Lava Jato, porém ainda não acusado formalmente. Então, Dave, não se pode dizer que os dois estão administrando o Rio na maior tranquilidade.

Você escreve “Paes e Pezão do PMDB administraram um processo pelo qual [a construção dos] equipamentos olímpicos tiveram propostas elaboradas por ‘consórcios’ de empresas imobiliárias, como o grupo Rio Mais (More Rio), que incluía Odebrecht, além das empresas Andrade Gutierrez e Carvalho Hosken”.

A construção do Parque Olímpico é regida pelo município, sem participação do estado do Rio. É por isso, aliás, que a baía de Guanabara não foi limpa, conforme as autoridades prometeram ao Comitê Olímpico. Isso era responsabilidade do estado.

Havia apenas um consórcio. Não de empresas imobiliárias — de construtoras. E não esperaram até a última hora para terminar as obras. Há problemas, mas está tudo mais ou menos de acordo com o projeto.

Não sei se há ou houve negócios olímpicos suspeitos, mas quem examina a documentação vai ver que as três construtoras fizeram um ótimo negócio: o Rio lhes DEU o terreno, (provavelmente sub-)valorizado em R$ 1.2 bilhões, para construir o Parque Olímpico, que podem utilizar depois dos Jogos, com uma mudança no gabarito que lhes permite construir até 18 andares, em vez de doze. O município também lhes paga R$ 462 milhões pelas obras, e perdoou uma dívida tributária de R$ 7.6 million, da Carvalho Hosken.

Você iria superfaturar ou adiar a construção com um negócio desses — fechado em cima de um estudo feito pelas próprias empresas, praticamente sem governança (mais sobre isso, aqui)? Acho que as Olimpíadas servem, acima de todos, às empreiteiras envolvidas na Lava Jato. A ausência, porém, de contratos olímpicos no escândalo, até agora, não indica, necessariamente, que está se protegendo o PMDB para que possa assumir o governo do Brasil.

Na capital, o deputado federal Eduardo Cunha, carioca e presidente da Câmara no Congresso, não dispõe de apoio sólido, entre os colegas no PMDB, na sua batalha para ficar longe da cadeia. Odiado por brasileiros em geral, é acusado de sonegação de impostos, pagamentos ilegais e de ter utilizado investigações no Congresso para pressionar empresários a acertarem contas com ele. Se, como imagina o Dave, a direita brasileira junto com grupos empresariais vencerem nesta crise — com o PMDB tomando as rédeas na hora da saída da presidente Dilma — teremos muitos problemas ao passo que os políticos e os empresários negociam entre si seus interesses, enquanto quem está fora da parada exerce pressão para avançar suas próprias necessidades e demandas. Seria um processo interminável.

Isso levanta mais um elo fraco no cenário de golpe de direita: pense bem, o Brasil não está prestes a voltar ao ano 2002. O país mudou de forma fundamental durante os mandatos do Lula. Sim, hoje, muitos dos trinta ou 40 milhões que sairam da pobreza estão voltando para ela. Na minha experiência de fazer reportagens sobre o Rio, nos últimos cinco anos, e na minha vida diária também, vi muitos brasileiros sairem da invisibilidade para a visibilidade. Para estrangeiros (e para muitos brasileiros das classes mais altas), é difícil enxergar essa mudança porque não conseguem imaginar como é viver a vida de cidadão de segunda classe.

Isto é central — e a internet é uma força enorme. Ontem à noite, presenciei o lançamento de um novo aplicativo, o “Nós por Nós”, que permite o usuário a documentar abusos de direitos humanos, ao fazer um streaming de vídeo e/ou aúdio, para um destino seguro, para se proteger caso seu telefone celular seja destruído ou levado embora. Foi desenvolvido pelo Fórum de Juventudes, uma rede de grupos de moradores de favela da região metropolitana.

“Presente!”, gritou o grupo, punhos no ar, lembrando jovens e uma mãe mortos pela polícia do Rio de Janeiro.

Se tivermos um governo direitista, opressiva, não será fácil tirar qualquer elemento disso — sobretudo a sensação entre esses jovens de que eles têm o direito de se defenderem da polícia, de utilizar a mídia social, de criar redes de apoio, de sonhar e realizar esses sonhos.

É fácil descrever classes sociais e instituições por meio de traços gerais. A realidade foge à palavra. Existe, porém, toda sorte de gente entre os milhões que deixaram a pobreza e há toda sorte de gente entre as classes média tradicional e a alta, também. Nem todos que recebem a Bolsa Família ficam no sofá vendo TV e comendo batatinha, esbanjando gratidão ao Lula. É da natureza humana, sobretudo entre jovens, querer aprender e se sentir útil. Muitos brasileiros pegaram a grana e deram uma volta por cima. Trabalham muito, dão valor ao trabalho duro e pensam que quem rouba deve ir para a cadeia. Não irão querer aturar um governo do PMDB que se alimenta do povo.

Os brasileiros desconfiam hoje de qualquer político. Quem não for preso e resolver se candidatar a um cargo público será foco de escrutínio especial. Graças a Deus, até agora, não temos uma versão local de Donald Trump, nos dizendo que não é preciso se preocupar, que ele vai cuidar de tudo. Mais do que nunca, os brasileiros estão debatendo a crise atual, prestando atenção, aprendendo o que fazem o Tribunal Superior de Justiça, a Polícia Federal, o Congresso e o Procurador Geral da República. Ouve-se palavras recém-descobertas, pipocando em conversas na rua e no ônibus.

A matéria de Catherine Osborn entrou em território virgem, ao revelar a participação de estrangeiros na polítical nacional. Nos conta que o capítulo brasileiro do Students for Liberty (Estudantes para a Liberdade) tem mais de mil membros. Mas são poucos, comparado ao eleitorado (142 milhões), ou até ao número total dos que marcharam de verde e amarelo no dia 13 de março (por volta de três milhões). Onde, aliás, era uma minoria que clamava por intervenção militar. Se o Brasil se tornar mais conservador, não serão os irmãos Koch por trás da mudança; estudos demonstram que é o que acontece quando as pessoas sobem a pirâmide socioeconômica. Mesmo assim, no Brasil vai demorar bastante até que a ideologia venha substituir plenamente a política personalista, baseado na troca de favores.

E nem a Globo é monolítica. Sim, tende à manutenção do status quo. Porém, igual aos políticos brasileiros (sobretudo o PMDB), seus laços com a sociedade são flexíveis e egoistas. E a “gigante tipo Fox News vitaminada”, como o Dave a chama, é uma fonte de informações sempre menos importante para os brasileiros, enquanto as mídias sociais e independentes lhes tiram público. O momento não é de lavagem cerebral, mas de lutar para sobreviver a recessão e fazer algum sentido de uma gama de fontes de notícias.

Trata-se de um grande desafio para a maioria das pessoas, sobretudo face ao monopólio da Globo durante tanto tempo e à experiência de conviver com um governo militar entre 1964 e 1985. Os brasileiros dispõe de motivos para acreditar em teorias de conspiração, mas são, enfim, teorias. Vamos todos respirar fundo e ver o que mais vai acontecer com a Lava Jato — e com tanta outra coisa.

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About Rio real

American journalist, writer, editor who's lived in Rio de Janeiro for 20 years.
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One Response to Hipótese enganada de golpe direitista : leitura errada do Rio de Janeiro

  1. Concordo plenamente.
    Na minha opinião, não há como prever o resultado final disso tudo, se terá um final visível para os analistas ou se diluirá ao longo de todo o processo histórico brasileiro.

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